AUTORES CÉLEBRES
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CLARICE LISPECTOR

Meu Deus, me dê a coragem Meu
Deus, me dê a coragem Nossa truculência Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E
quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como
parte de nossa vida. Clarice Lispector (do livro "Laços de Família") |
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