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INTERAÇÃO / A PALAVRA É SUA

EM ¨F...DEU GERAL¨, MARK MANSON AVALIA FRACASSO DA HUMANIDADE
publicado em: 21/05/2019 por: Lou Micaldas

"F*deu geral", novo livro de Mark Manson
Foto: Reprodução

"'Temos um problema de maturidade, e a tecnologia está piorando isso' diz o autor de 'A sutil arte de ligar o f*da-se'

Desde 2017 que “A sutil arte de ligar o f*da-se” , do americano Mark Manson, está nas listas de livros mais vendidos aqui no GLOBO e em inúmeros jornais do mundo. Tudo indica que o sucesso vai se repetir com “F*deu geral” , que chegou esta semana às livrarias. Aos 34 anos, Manson descobriu um filão interessante: autoajuda baseada na honestidade, no estilo “doa a quem doer”. Suas palavras não são exatamente fofas.

 Como se vê pelos títulos, ele é bem contundente, sempre deixando claro que o Universo NÃO vai conspirar a seu favor, que você NÃO vale tanto quanto pensa e que a vida é uma... bom, a vida é dura. A solução para não sofrer, diz ele, é ser honesto consigo mesmo, desapegar-se das bobagens da vida, estar atento a dores e alegrias, curtir tudo profundamente. E, claro, ligar o famigerado botãozinho do deixa-pra-lá.

Em “F*deu geral”, Manson está mais comedido na linguagem e nem esbanja tantos palavrões. Mas está bem mais profundo, discorrendo sobre Newton, Nietzsche, Freud e Kant — pensadores que fundamentam sua visão de mundo. Qual seja: danou-se, meu velho. Tornamo-nos crianças mimadas, as religiões se equivocaram, a democracia está ruindo e, enfim, o ser humano fracassou ou quase isso.

A única saída é a transformação individual, que depende de profundo desejo de mudança, muita disciplina e inteligência. Pelo jeito, vai ser mesmo difícil. Mas temos que ter esperança, ou sucumbiremos.

O novo livro é mais do mesmo? De jeito algum. Ainda que correndo o risco de ficar chato (mas... tudo bem), Manson agora mostra que não era apenas mais um aproveitador das carências humanas para se dar bem e deu-se muito bem: somente no Brasil, vendeu um milhão de exemplares do primeiro livro. Para além disso, ele agora prova que estudou bastante sobre a alma humana e como ela se comporta em grupo.

Qual comentário sobre “A sutil arte de ligar o f*da-se” mais o surpreendeu?

A quantidade de gente que projetou seus próprios valores e crenças no livro e o viu como uma justificativa para eles. Tive leitores de todas as crenças me dizendo que eu estava apenas repetindo o pensamento de suas religiões. Pessoas de direita ou de esquerda assumiram que eu estava do lado delas e que estava criticando o outro lado. E até alguns com crenças e valores completamente contraditórios aos do livro acreditaram, de alguma maneira, que eu concordava com elas.

Um exemplo: o livro foi intencionalmente escrito como uma crítica ao pensamento mágico, não científico, da indústria de autoajuda. No entanto, regularmente ouço muitas pessoas dessa linha falando como se eu fosse uma delas.

Li “A sutil arte de ligar o f*da-se”. Por que eu deveria ler “F*deu geral”?

 “F*deu geral” usa muitos dos mesmos conceitos e ideias ( do livro anterior ) e, em vez de aplicá-los à vida de uma única pessoa, aplica-os a grupos, culturas e ao mundo em geral. Enfim, ( diz que ) nossos valores e onde nós escolhemos criar significados para nós mesmos determinam a forma da nossa cultura e a natureza dos nossos conflitos. Nesse sentido, este livro é uma continuação lógica da “Sutil arte...”.

É impressão minha ou você parece mais comportado? O que houve?

É engraçado, porque não me senti assim. Acho apenas que corri diferentes tipos de riscos. Enquanto a “Sutil arte...” era muito combativo, o novo livro desafia tópicos mais profundos. Ele discute política e religião de uma maneira crítica que acho arriscada para qualquer escritor. E fala sobre o significado da vida e se existe mesmo algum significado. A linguagem pode não ser tão dura ou agressiva, mas o livro continua a confrontar as pessoas.

Parece que você decidiu ir fundo nos estudos de psicologia, filosofia e budismo.

Éramos muito limitados no passado. Você conhecia poucas pessoas e tinha poucas oportunidades na vida, então era fácil saber o que valorizar, com o que se importar. No século XXI, temos acesso a mais informação do que nunca, temos o poder de nos conectar com mais pessoas, estamos mais atentos a questões globais e oportunidades. Viver em meio a tanta abundância levanta mais do que nunca a questão “Com o que vale a pena se preocupar?”.

Uma vez que você se faz essa pergunta, você está entrando no território da filosofia. Para mim, Kant, Nietzsche, Buda e outros lidaram com essas questões de maneiras incrivelmente inspiradoras. Da mesma forma, quando você pergunta “Como mudar com o que me preocupo?”, você está se perguntando sobre sua própria psicologia — como ela funciona e como modificar seus algoritmos.

Explique, por favor, o que são Cérebro Sensível e Cérebro Pensante. Como resolver o conflito entre eles?

Temos dois tipos de “cérebros”: o Cérebro Pensante e o Cérebro Sensível. A maior parte do que experimentamos como problemas “pessoais” é uma falha desses dois cérebros ao não se comunicarem bem um com o outro. Você sabe que deveria acordar e fazer exercícios, mas não faz isso.

Seu Cérebro Pensante entende como ser saudável ou honesto, ainda que seus sentimentos o façam cometer atos desonestos. Basicamente, os cérebros falam duas linguagens diferentes. E o crescimento pessoal pode ser entendido como treinar cada cérebro para entender e reagir ao outro, de modo que tenhamos um saudável diálogo interno.

Estamos mais infantis? Essa doença tem cura?

Sim, acho que temos um problema de maturidade na maior parte do mundo hoje, e a tecnologia está piorando, e não melhorando isso. A cura é buscar desafios significativos para encontrar coisas pelas quais o sacrifício valha a pena.

Facebook, Twitter etc estão ajudando a melhorar a sociedade?

Penso que as mídias sociais definitivamente têm benefícios. O problema é como elas estão sendo usadas. Hoje, são otimizadas para aumentar tráfego e cliques. Para otimizar pensando nos cliques, você tem que ( fazê-las agir sobre ) a emoção. Quando faz isso, você espalha muito mais informação falsa e negativa do que verdadeira e positiva. Assim, encoraja as pessoas a sempre satisfazerem suas emoções, o que as faz cometer coisas estúpidas.

Todas essas questões pessoais influenciam a situação política geral. Você diria que a velha e boa democracia morreu?

A história tem nos mostrado que a democracia é sempre frágil. Seus princípios vão contra a natureza humana. Como resultado, precisamos sempre ter cuidado para não quebrá-la. Neste momento, não estamos sendo muito cuidadosos.

Desemprego, inflação, política suja, corrupção, terrorismo, fake news... O cenário não é otimista, mas você diz que ousa ter esperança. Não é complicado?

Ter esperança é sempre complicado. Mas tudo isso que você listou sempre existiu e sempre vai existir. Seres humanos são inerentemente corruptos. Nossas mentes não estão otimizadas para a verdade ou a justiça. Estamos otimizados para sobreviver. Verdade e justiça só podem ser alcançadas com introspecção e crescimento.

Como você vê o mundo daqui a 50 anos?

A Inteligência Artificial (IA) vai controlar tudo, e nós vamos entender muito pouco a respeito. Ou nós vamos nos fundir com a IA, ou ela vai nos controlar como animais domésticos. Pelo menos os videogames serão melhores. Ah, e os robôs sexuais. Tem isso...

TRECHOS

“Somos os seres humanos mais seguros e prósperos da história do mundo, mas sofremos com um nível sem precedentes de desesperança. Eis o paradoxo do progresso.”

“Para criar e manter a esperança, precisamos de três coisas: a sensação de controle, a crença no valor de algo, e uma comunidade.”

“Nos últimos 200 anos, (...) as pessoas passaram a ter tempo de sobra para se sentar, pensar e refletir sobre todo tipo de porcaria existencial que nunca haviam considerado. O resultado foi a eclosão de vários movimentos de defesa do Cérebro Sensível ao fim do século XX.”

“Já se perguntou por que você não consegue largar um livro muito bom? Não é voc~e quem não consegue, seu idiota: é o Cérebro Sensível. É a expectativa e o suspense; a alegria da descoberta e a satisfação da resolução. A boa escrita é aquela capaz de falar aos dois cérebros e estimulá-los ao mesmo tempo.”

“Não brigue com o Cérebro Sensível porque isso só vai piorar as coisas. Para início de conversa, você não vai ganhar. Nunca. Ele está sempre no comando.”

“A única forma verdadeira de liberdade, a única forma ética, é por meio da autolimitação. Não se trata do privilégio de escolher tudo o que se quer na vida, mas o de escolher do que se vai abrir mão.”

“Apesar de todas as nossas realizações, a mente humana ainda é incrivelmente falha. Nossa habilidade de processar informações é paralisada por nossa necessidade emocional de validação”.

“A divisão política básica do século XXI já não é mais direita contra esquerda, mas valores impulsivos infantis contra valores adolescentes/adultos prontos a concessões.”

Autor(a): Nelson Vasconcelos
Fonte: oglobo.globo.com/cultura/em-fdeu-geral-mark-manson-avalia-fracasso-da-humanidade-23680643

 

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