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INTERAÇÃO / A PALAVRA É SUA

Esse crime chamado Justiça é um filme cujo título brasileiro caiu muito melhor do que o original (In nome del popolo italiano). E tem tudo a ver com o desfecho do julgamento da validade ou não da prisão após condenação em 2ª instância, uma devastadora derrota que o Supremo Tribunal Federal impôs à força-tarefa da Lava Jato nesta 5ª feira (7).

Fruto da competência de um grande diretor (Dino Risi) e de dois atores geniais, o filme mostra um juiz de instrução decente (Ugo Tognazzi) investigando o possível assassinato da amante de um grande empresário que reúne todos os defeitos da sua fauna (Vittorio Gassman). 

Horrorizado com os detalhes que vão aflorando sobre a existência daquele péssimo cidadão e nefando ser humano, o magistrado reúne provas suficientes para que ele seja preso e condenado por homicídio. 

Quando tudo parece encaminhado para que o cínico predador receba o seu merecido castigo, o juiz encontra o diário da moça, que comprova ter sido um caso de suicídio. E decide punir o empresário mesmo assim, não pelo assassinato do qual é inocente, mas pelos comportamentos anti-sociais de que é culpado. Então, joga o diário no fogo.

Foi o que fizeram os tenentes togados da Lava Jato. Só que a vida não apenas repetiu a arte mas foi além dela, ensinando-nos que atalhos para corrigirmos as injustiças podem conduzir-nos a outras injustiças, numa ciranda infernal que acaba por fazer-nos duvidar da própria possibilidade de realização da justiça em nossa sociedade imperfeita.

Foi o que aconteceu com os justiceiros da vida real. Seja por indignação sincera; seja por convicções direitistas; seja pelo impulso nas suas carreiras; seja pela grana, pela fama, pelas palestras, pelos livros e outros bônus que o êxito lhes proporcionaria; seja por um pouco disso tudo, resolveram obter condenações passando por cima das leis, ludibriando o STF, manipulando a imprensa, atuando tendenciosamente o tempo todo, sendo responsáveis, enfim, por um sem-número de ações e omissões incompatíveis com os cargos por eles ocupados.

Uma gazua com que arrombaram as garantias legais dos réus foi a antecipação da prisão para quando verdadeiramente não existia condenação definitiva (trânsito em julgado), o que simplesmente estuprava uma cláusula constitucional. 

Mas, no clima de caça às bruxas que os interessados em destruir o PT conseguiram insuflar, contorcionismos jurídicos foram consentidos (até pelo Supremo!) para fraudarem o espírito e a letra da chamada Magna Carta

Felizmente, a corajosa atuação do Intercept Brasil derrubou esse castelo de cartas... de ilegalidades e abusos criminosos de poder. 

Escancarou para o Brasil e para o mundo que as sentenças draconianas haviam sido obtidas atropelando-se o direito de defesa, com os réus sendo sido vítimas de uma Inquisição nos moldes medievais e não condenados segundo o que se convencionou chamar de Estado democrático de Direito.

Apesar de nossa pomposa e lerda Justiça até agora não ter admitido formalmente os vazamentos como provas, só para os muito ingênuos ou muito fanáticos ainda não caiu a ficha de que tudo aquilo é verdade, tendo mesmo existido um conluio absolutamente inaceitável entre os que deveriam apurar imparcialmente as ocorrências e os que deveriam julgar imparcialmente as evidências apresentadas.

O julgamento do Supremo foi a resposta dos togados à convicção que já predomina entre os seres racionais da nossa sociedade, algo tipo Deus escreve certo por linhas tortas

Só que as linhas dos deuses em questão (eles não chegam até a referir-se a si próprios como supremos?!), além de tortas, foram extremamente tímidas.  

Cabia uma rejeição exemplar. Qualquer placar diferente de 11x0  não seria resposta à altura do que realmente aconteceu neste país. Míseros 6x5 foram quase uma imoralidade.

Independentemente da retórica empolada dos doutos, o que se presenciou, em termos morais, foi a condenação de um crime: esse crime chamado Justiça no qual uma força-tarefa fora de controle incidiu, com seus integrantes acabando por se igualarem no cometimento de delinquências àqueles que alegavam combater.

E o pior é que Deltan Dallagnol, personagem-símbolo do jacobinismo que contaminou tais procuradores de Justiça, sempre me pareceu longe, muito longe, do juiz interpretado por Ugo Tognazzi, que age errado por força de suas convicções morais, sem nenhuma intenção de beneficiar-se pessoalmente da arbitrariedade cometida...

Autor(a): Celso Lungaretti
Fonte: naufrago-da-utopia.blogspot.com

 

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