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INTERAÇÃO / A PALAVRA É SUA

A SEGUNDA TRAIÇÃO DOS NEVES
publicado em: 22/08/2017 por: Lou Micaldas

Aqueles terninhos do Neves e sua fama de festeiro à la Berlusconi, com aqueles amigos, bem, aquilo sempre me soou escuso
Pela segunda vez, os Neves de S. João Del Rey estilhaçam a minha geração.
Em 1984, mal entrado nos 20 anos, pensei ver a luz do túnel no tropel das Diretas-Já. As praças cheias, a mobilização da classe média, o fastio de todos com a falta de liberdade, as palavras de ordem e aquela figura linda de Ulysses Guimarães, de peito aberto peitando as baionetas da facínora ditadura militar — na minha ingenuidade militante, tudo aquilo soava que nos levaria a um novo estágio da civilização brasileira.

Minhas análises pessimistas (mas, como Kierkegaard, otimista na ação) procuravam sinais de onde se daria o acordão. Eu me sentia um bipolar político: de um lado, acreditava ser possível o rompimento da eterna acomodação brasileira (o filho do rei faz a independência e se torna governante no país independente; o governo imperial é cúmplice do tráfico de escravos depois de ter aprovado lei extinguindo a escravidão: só pra inglês ver...); de outro, ouvia receios de que uma eleição direta levaria à vitória de Brizola... não, os militares não irão tolerar esse tipo de coisa... lembra a você alguma coisa de agora (não podemos ter eleição direta agora... o Lula vai ganhar... então temos que ficar com o Temer...).

Havia dois movimentos em 1984. A pressão popular poderia derrubar a ditadura através da aprovação das Diretas Já. Mas 90% da oposição tinham medo desse cenário... vai dar Brizola. Os outros 10% esperavam que a movimentação desse força a uma vitória no Colégio Eleitoral. Bastava que se colocasse alguém confiável ao regime militar, um certo alguém que não desejasse fazer uma caça às bruxas.

Ulysses Guimarães não era esse nome. Sabia ser odiado por dez entre onze generais cinco estrelas.

É quando surge o primeiro Neves a trair a minha geração — Tancredo, então governador de Minas. Era o nome confiável a ser apresentado ao Colégio Eleitoral como candidato da oposição (oposição com o rabo entre as pernas, permitida). O general-presidente Figueiredo, espécie de Dilma Rousseff verde-oliva (incapaz de fazer gol até de mão), com seu temperamento de botequim, havia sido batido no palitinho por Maluf, e daria sua sela de cavalo a ver Maluf eleito.

O acordão se concretizara: Diretas Já derrotada na Câmara, Maluf no Colégio Eleitoral, Ulysses fora do jogo, Tancredo no papel de conciliador nacional. O velho Brasil de arranjos se faz outra vez presente quando o Neves oferece a vice-presidência a José Sarney, ex-presidente da Arena, partido de apoio à ditadura militar. Em 1984, Sarney já era Sarney. Tancredo poderia ter lançado mão de Marco Maciel, ex-governador de Pernambuco, também da Arena, mas com uma biografia liberal (Maciel cumpriria depois dois mandatos de vice eleito, sob FHC).

Tancredo adoece e morre. Sarney se torna presidente. Todos aqueles comícios, palavras de ordem, todas aquelas canções, aquele enfrentamento, tudo se frustra na assunção de Sarney. Quem estuda o Brasil não chamaria a isso de traição, mas de tradição, O.k.

Quis o destino (e as velhas forças do arcaico brasileiro) colocar outro Neves a estilhaçar a história. Em 2017, o gaiato de um açougueiro (suspeito sob qualquer ângulo, no papel de próxima vítima, salvo por um Janot — ou seria Janus?) trava com o líder da oposição um acerto de botequim risca-faca. O diálogo dos dois estaria em “Os bons companheiros”, de Scorsese, com minhas desculpas pelo mau português dos personagens. Confesso ser um sujeito preconceituoso. Aqueles terninhos do Neves, com seus sapatinhos bico-fino e sua fama de festeiro à la Berlusconi, com aqueles amigos, bem, aquilo sempre me soou escuso.

O diálogo, e a mala com dinheiro apanhada pelo primo, jamais existiriam num roteiro de Scorsese ou de Elia Kazan. Se feito, o bonequinho do GLOBO sairia da sala aos berros. É inverossímil. Como o líder da oposição engana o público e se torna pior do que os bandidos da trama? De Lula eu nunca esperei nada diferente do que ele fez. Nunca. Mas o Berlusconi das alterosas, o Aecim...
É uma família de péssimos roteiristas.
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O ministro do STF Luis Roberto Barroso já mostrou ser um homem contemporâneo, honesto e corajoso. Até agora, eu compraria um carro dele. Já se posicionou (em voto) sobre grandes questões, como gênero e consumo de drogas, e há pouco desmontou o golpe contra a Lava-Jato. E produziu agora o maior diagnóstico sobre o Brasil presente, para desespero moral de Lula, Aecim, Gilmar Mendes e Temer. Ele pintou o sete: “Há os que não querem ser punidos e há um lote ainda pior, os que não querem ficar honestos (...). Estas pessoas têm aliados importantes em toda parte, nos altos escalões da República, na imprensa e nos lugares onde a gente menos imagina”.

Pois eu imagino, sim. Ao não exigir uma autocrítica do PT, certa intelectualidade brasileira, boa parte dela vivendo como funcionários públicos, ajuda o Brasil a permanecer no atraso. As reações do grupo do Neves à autoimolação do PSDB, em rede nacional, mostra como o Brasil pintado por Barroso não precisa ser imaginado. Ele é assustadoramente real. Lutemos.

Autor(a): Miguel de Almeida
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Tulio Aguiar

 

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