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INTERAÇÃO / A PALAVRA É SUA

EM DEFESA DOS CLÁSSICOS
publicado em: 07/03/2017 por: Lou Micaldas

A saída mais fácil, para um poder público preguiçoso e insensível às singularidades culturais, é acabar com a festa, proibindo clássicos com duas torcidas
Este artigo é escrito a quatro mãos. Pai e filho. O que nos move é a vontade de discutir a proposta do Ministério Público de não mais permitir duas grandes torcidas locais em um mesmo jogo no Rio de Janeiro. Entre uma liminar e outra, o debate deve ser ampliado. Todos os cidadãos devem se preocupar quando, no confronto físico entre torcedores, um jovem morre e outros ficam feridos. Há que se enfrentar a violência. Entretanto, para isso é necessário que se avaliem as condições em que ocorreram os últimos incidentes e buscar formas efetivas de conter o processo e, principalmente, punir os agressores e criminosos. Jamais proibir a festa.

Não podemos aceitar uma solução contra a violência que violente um patrimônio da cultura carioca e cuja eficácia, segundo analistas, é no mínimo duvidosa. Não é à toa que se denominam os jogos em que comparecem duas torcidas de clássicos. Para além do espetáculo, estes jogos são determinantes na formação da sensibilidade compartilhada dos indivíduos e constituem momentos referenciais para o imaginário coletivo. Machado de Assis é um clássico. Um Fla-Flu é um clássico. Ali somos confrontados inúmeras vezes com a dimensão épica e trágica da existência. Pais, filhos, amigos e desconhecidos dividem memórias definidoras das respectivas existências dentro de um estádio de futebol. Os abraços indiscriminados após um gol e a voz incorporada ao canto da torcida servem como símbolo do exercício de coletividade que os encontros na arquibancada proporcionam. É aí que o clássico com duas torcidas ganha importância. Ele representa o encontro dos encontros. Em um clássico, as sensações vividas no estádio se misturam e atingem novos patamares. O prazer inenarrável de comemorar um gol observando o silêncio sepulcral da massa adversária é comparável à tristeza de estar na situação contrária.

Todos sabemos o quanto esta festa coletiva pode lembrar coreografias fascistas e também como a marca identitária que liga os indivíduos em uma torcida, especialmente nos grupos organizados, pode produzir aberrações. Todavia, é diante destas possibilidades ameaçadoras que devemos perceber um clássico como uma espécie de educação para nossa sensibilidade multitudinária. É nele que nos disponibilizamos a experiências que tensionam as noções individuais de tolerância e paixão. O clássico te obriga a enxergar o diferente presente no outro lado da arquibancada. Mas se lá também são pais, filhos, amigos e desconhecidos, o que mesmo define essa diferença? O time do coração. Há que se apostar no convívio entre diferentes e nada como a paixão para nos ensinar esta possibilidade. Esse é o sabor especial do clássico com duas torcidas, representado pelo encontro de duas paixões. Paixões que devem ser vividas ao limite para percebermos sua intensidade, seus riscos e suas delícias. Em um mundo cada vez mais atomizado, este é dos poucos resquícios que sobraram de experimentação política dos corpos na multidão. O carnaval seria outro.

Somos os dois tricolores. Estamos acostumados, desde sempre, a irmos ao Maracanã (quanta saudade do velho Maraca, especialmente daquele momento sublime da entrada dos times, sempre separados, em campo). Fazer esta experiência juntos não tem preço. Educamo-nos mutuamente, pai e filho, na alegria e na tristeza. Nos clássicos nos preparamos para o imprevisível e o imponderável, seja dentro do gramado ou nos arredores do estádio. Sempre soubemos que havia riscos. Muitas vezes, evitávamos chegar e sair do estádio com a camisa do clube. Outras tantas, assumíamos o risco e mantínhamos o espírito aberto à brincadeira e à provocação. Faz parte destes momentos manter a atenção aos movimentos e não dar mole. Isto é uma forma de lidar com a sociabilidade agressiva que nos rodeia — não só nos estádios, mas por toda parte.

A saída mais fácil, para um poder público preguiçoso e insensível às singularidades culturais, é acabar com a festa, proibindo clássicos com duas torcidas. Sabemos da desorganização das federações estaduais, o descalabro da CBF, do oportunismo cruel dos clubes que fortalecem as torcidas organizadas e muitas vezes jogam gasolina na fogueira da imbecilidade. Diante disso tudo, a caretice conservadora pune a festa. Queremos continuar sendo educados e contagiados pela pulsão dos clássicos e queremos também mais segurança. Esta não pode ser uma disjuntiva. Em vez de proibir a festa, que tal começar a responsabilizar os assassinos e os incompetentes?

Autores: Luiz Camillo Osorio é professor da PUC-Rio, crítico de arte e curador do Instituto PIPA; Manuel Camillo Osorio é economista e pesquisador no Centro de Políticas Sociais da FGV-RJ

Fonte: Jornal O Globo

 

 

 

 

 

 


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