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INTERAÇÃO / A PALAVRA É SUA

Entre as cinzas do museu, busca-se algum respiro para a reconstrução não só de sua presença, mas da própria memória de alguma determinação brasileira

O engenheiro Marcos Mackay trabalha há 30 anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estava no Museu Nacional havia nove anos. Sua sala ficava no terceiro andar do prédio, onde funcionava a área administrativa. Às 19h30 do domingo 2, o engenheiro ainda trabalhava quando ouviu um “barulho horripilante” vindo do andar de cima do seu, e em minutos os servidores do museu passaram pelos corredores avisando para que todos corressem, porque o edifício estava em chamas.

Mackay precipitou-se para fora do edifício, mas simplesmente não conseguia ir embora: ao sair para a calçada, trazia consigo microscópios de pesquisa. Depois, voltou para salvar vidros com animais conservados em álcool. “Eu estava transtornado”, ele conta. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo, mas ainda assim não teve dúvidas: voltou ainda outras vezes para dentro do prédio tomado pelas labaredas. “Foi muito pouco. Alguns milhares de exemplares. Era um dos maiores acervos do mundo”, lamenta, desconsolado.

Enquanto saía com os microscópios, foi fotografado e a foto virou uma espécie de símbolo doloroso da tragédia, a imagem de um solitário e desolado servidor ajudando no resgate com o edifício em chamas às suas costas, enquanto o resto do País assistia impassível à sua história sendo consumida ao vivo em cadeia nacional.

As chamas duraram oito horas e reduziram a cinzas 26.130 fósseis; 130 mil peças antropológicas; murais de Pompeia; o trono do rei Adandozan, do Daomé, do século XVIII; o sarcófago de Sha-Amun-En-Su, de 750 a.C.; o acervo da botânica Bertha Lutz; o maior dinossauro brasileiro; o maior acervo de meteoritos; o esqueleto mais antigo do País; a cabeça de Luzia, nosso ancestral de 12 mil anos; 15 mil peças zoológicas; o acervo de línguas indígenas, com o mapeamento étnico, histórico e linguístico de todas as etnias indígenas do Brasil; entre outros milhões de itens.

Entre esses conjuntos de peças, dois eram tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan): os Pergaminhos Ivriim, nove rolos contendo uma das mais antigas Torás do mundo, comprada por D. Pedro II, segundo imperador brasileiro, em sua segunda viagem à Europa e ao Oriente Médio, entre 1876 e 1877, e doada ao museu; e a coleção arqueológica Balbino de Freitas, de conchas do litoral sul. O próprio edifício, o único local a abrigar uma corte europeia nas Américas, foi um dos primeiros tombamentos do Iphan, em 1938.

As extinções culturais produzidas pelo incêndio no museu evocam todo tipo de simbolismo. O crânio único de Luzia, mulher negra, habitante primitiva do continente, impunha uma nova teoria para a ancestralidade branca e a ocupação da Terra.

Chama atenção o fato de que o único artefato que resistiu ao fogo, coincidentemente, tenha sido o Meteorito de Bendegó, uma pedra de 5 mil quilos caída do espaço sideral em 1784 na região de Canudos, no sertão da Bahia, onde os últimos resistentes contra o Brasil oligárquico tinham sido Antônio Conselheiro e seus seguidores.

“Estamos vivendo um dos nossos momentos mais duros desde o domingo”, desabafou Andrey Rosenthal Schlee, vice-presidente do Iphan. “É uma perda de valor incalculável. O quanto ela tem de simbólico nem se fala, é um valor que extrapola em muito o âmbito nacional e se configura como uma tragédia da humanidade.”

Schlee disse considerar que, em momentos assim de comoção pública, as questões da identidade afloram entre a população, e o único proveito que se pode tirar de uma tragédia dessas é tentar garantir uma política consistente para que o tema se torne uma política de Estado. “Os governos têm falhado e isso nos tem levado a situações constrangedoras. O preço altíssimo que o País está pagando em consequência do incêndio só pode servir para tirarmos lições desta tragédia.”

Mais que um acervo inestimável, o incêndio que destruiu o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, a mais antiga instituição científica brasileira e o museu mais antigo do País, no Rio de Janeiro, na noite do último domingo, expôs as marcas de um projeto de dilapidação nacional. “Ontem à noite, eu me senti mais fraco”, disse a CartaCapital o ex-ministro da Cultura dos governos Lula e Dilma Juca Ferreira, atual secretário de Cultura de Belo Horizonte. “Estamos numa encruzilhada civilizatória. Este incêndio é um sinal: ou a gente mergulha de vez na inviabilidade ou a gente toma vergonha”, afirmou.

Ao final dos governos tucanos, em 2001, o orçamento do governo federal para a cultura era de 287 milhões de reais. Ao final dos anos Lula, tinha alcançado 1,3 bilhão de reais. Os museus tiveram aumentados seus orçamentos em 500% no período (saíram de 20 milhões de reais de investimento em 2001 para 216 milhões de reais em 2011). Profissionalizaram-se as políticas, com a criação do Sistema Nacional de Museus e o Instituto Brasileiro de Museus. Parecia ter se cristalizado uma consciência inédita acerca da qualidade da História e do legado nacionais.

Mas, ao consumar-se o golpe de Estado de 2016, a primeira medida de Michel Temer foi justamente declarar extinto o Ministério da Cultura (MinC). A intenção era clara: o projeto do golpe era passar com um trator por cima das políticas de cultura, demasiadamente aferradas ao conceito de democracia e delicadas com as questões da memória e da experiência humana.

Mas o entocado do Jaburu não contava com a reação da classe artística, que impediu que o MinC fosse desarticulado e transformado numa secretaria do Ministério da Educação (MEC) – esse mesmo MEC a quem presumivelmente cumpriria cuidar do museu destruído pelo fogo no Rio.

A frustração de Temer com o recuo que foi obrigado a anunciar em 2016 só foi sentida há duas semanas, quando enviou compungida carta ao cantor e compositor Caetano Veloso abordando o tema. Uma carta misteriosa, na qual Temer fala de uma “senhora idosa” que sonhou colocar na direção do MinC após seu rebaixamento a secretaria. A “senhora idosa” sem nome vem sendo talvez a expressão de sua própria consciência quanto ao tema cultural brasileiro.

Temer não conseguiu destruir o ministério com uma só canetada, mas está tendo êxito com a estratégia homeopática. De lá para cá, a situação da área foi recrudescendo e chegou ao ponto de, neste ano, o governo de Michel Temer só ter repassado 54 mil reais para a gestão do Museu Nacional (que pediu 2,5 milhões de reais para se manter).

“O Brasil precisa avaliar para onde estamos caminhando. Não existe nenhuma linha de financiamento dos ministérios da Educação e Cultura para prédios históricos tombados pelo patrimônio. Sofremos queda brutal de orçamento, de 140 milhões de reais no custeio nos últimos quatro anos. É necessário que o governo federal olhe para o Brasil”, disse o reitor da UFRJ, Roberto Leher.

Paleontólogo brasileiro nascido em Liechtenstein, o diretor do Museu Nacional desde fevereiro deste ano, Alexander Kellner, lamenta o fato de que recursos no valor de 21,7 milhões de reais obtidos do BNDES não chegaram a tempo de contornar a destruição.

“Não fui diretor para tirar o museu dos escombros, fui diretor para evitar que ele entrasse em ruínas. Nesse contexto, o principal responsável é o governo federal, não adianta dizer o contrário”, afirma. “É claro, o culpado é o Brasil representado pelo seu governo, por não olhar de uma forma correta para a sua própria história, sempre lembrando que é um palácio por onde passaram Dom João VI, Dom Pedro I, Dom Pedro II.”

Toda a saga do museu destruído vem sendo defumada pelos signos de um Brasil em transe. Na segunda-feira, o dia seguinte ao incêndio, uma manifestação na Cinelândia, no Rio de Janeiro, foi reprimida animalescamente pela desgovernada polícia brasileira com gás de pimenta e agressões. Entre as vítimas, por ironia, estava José do Nascimento Jr., o primeiro presidente do Instituto Brasileiro de Museus. Uma curiosidade: o atual presidente, Marcelo Araújo, tinha se demitido dois dias antes do incêndio e acabou se mantendo na posição apenas para as pompas fúnebres do museu.

A imprensa, que apoiou as medidas de “austeridade” do governo Temer, principal motivo do colapso do Museu Nacional, subitamente descobriu que tinha uma história a ser preservada. “Reforma do Maracanã cobriria 24 mil anos de orçamento do museu”, informou o UOL, do Grupo Folha. Outros fizeram os cálculos e descobriram que só a lavagem dos carros dos deputados cobriria a manutenção da instituição.

“Verba usada no Museu Nacional em 2018 equivale a 2 minutos de gastos do Judiciário e 15 minutos do Congresso”, estampou o portal G1, da Rede Globo – uma manifestação de puro cinismo, porque em editorial no mesmo dia o jornal O Globo mostrou acreditar que os míseros 54 mil reais direcionados ao museu queimado estariam ajudando a evitar uma “irresponsabilidade fiscal desvairada”.

Obviamente, a questão da penúria dos museus (que pode ser estendida aos centros culturais, à Cinemateca Brasileira, aos programas de incentivo) tem contradições que são tão antigas quanto alguns artefatos museológicos. O que explica, por exemplo, que o Estado brasileiro consiga destinar, por meio da renúncia fiscal, cerca de 32 milhões de reais para um museu sem acervo e dedicado ao futuro, o Museu do Amanhã, e apenas 54 mil reais para um dos mais importantes museus históricos do País?

Parte da explicação pode estar na própria capacidade de articulação política do grande capital. A Fundação Roberto Marinho, por exemplo, captou 11 milhões de reais no ano passado por meio da lei de incentivo federal. Recentemente, o ministro da Cultura cumpriu uma agenda oficial na Escócia acompanhado do diretor do Instituto Itaú Cultural, instituição que captou 14 milhões de reais para seu Plano Anual de Atividades em 2016.

Coincidentemente, o fogo tem consumido nos últimos anos instituições culturais e de pesquisa justamente em lugares nos quais elas são mais incômodas para os gestores, com sua atividade silenciosa, sua atitude científica, seu trabalho quase invisível: Em São Paulo, bunker tucano, pegaram fogo o Instituto Butantan, o Memorial da América Latina, o Teatro Cultura Artística, o Museu da Língua Portuguesa, a Cinemateca Brasileira e o Liceu de Artes e Ofícios.

A pouca reverência do governo Temer para com a democracia não vem destruindo apenas a política museológica, mas praticamente todas as conquistas dos últimos anos no setor. No momento, Temer e seu escudeiro cultural Sérgio Sá Leitão estão a ponto de destroçar a estratégia de consolidação cinematográfica do País. A primeira estratégia é implodir as representações da sociedade.

Um episódio ilustra bem essa sanha. Poucos dias antes do incêndio, reuniu-se em Brasília o Conselho Superior de Cinema. A pauta tinha como objetivo uma reunião com o ministro Sá Leitão. Os conselheiros tentavam havia um ano discutir com o ministro políticas para a produção de conteúdo nacional.

A reunião começava às 10 horas, mas Sá Leitão chegou às 15h30 e já entrou chamando os conselheiros (40 integrantes) de “desleais e antiéticos” por terem se insurgido contra uma determinação dele. “Minha vontade é encerrar o debate agora e mandar o teto para o Congresso. Aí, vocês que se virem”, disse Leitão.

O ministro estava blefando para tentar enfiar goela abaixo do setor audiovisual brasileiro um plano de tributação anódino para a plataforma VoD (Video on Demand). Após novas reuniões tensas, a produtora Mariza Leão, uma das mais fortes da área, pediu demissão do Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual.

O dissenso alastra-se. Carta da Associação dos Servidores da Agência Nacional de Cinema, divulgada no início da semana, acusa o ministro de Temer de reformular o Fundo Setorial do Audiovisual “à revelia dos setores envolvidos”, demonstrando “falta de devido zelo em relação ao uso dos recursos públicos”.

Assustados com a evidência de sua própria responsabilidade na ruína do Museu Nacional, os militantes do retrocesso reclamam da “politização” do incêndio. Rapidamente espalhou-se a ladainha a que mais recorrem os emparedados nos destroços do que foi o Brasil: “Foi o PT! Foi o PT!” Mais ou menos aquela batida estratégia de quem é flagrado em delito e aponta para o outro para tentar se desvencilhar da acusação.

Em entrevista à BBC, Sá Leitão saiu-se com essa, mesmo confessando que o corte se deu no governo Temer: “De dois anos para cá, repasses foram reduzidos em várias áreas porque os governos anteriores quebraram o Brasil. Agora, é importante dizer que quem determinava quanto ia ao Museu Nacional era a UFRJ, não era o governo federal nem o Ministério da Educação”.

O diretor do Museu Nacional rebate tal afirmação. “Da mesma forma que acho covardia cobrar da UFRJ um investimento maciço, do vulto de que precisa uma instituição do tipo do Museu Nacional, não é correto responsabilizar o atual governo pelo incêndio, independentemente da corrente política que você tem”, diz Alexander Kellner.

“O Brasil chegou a um ponto ao qual nunca deveria ter chegado. Eu vejo Bolsonaro dizendo que vai extinguir o Ministério da Cultura. Vi Bolsonaro com uma arma dizendo que vai matar petistas. Este ministro da Cultura mesmo, há algum tempo ele defendia a extinção do Ministério da Cultura”, afirmou Juca Ferreira.

Entre as cinzas do museu incendiado, busca-se algum respiro, algum farol para a reconstrução não só de sua presença, mas da própria memória de alguma determinação brasileira. O oceanógrafo Paulo Andreas Buckup, do setor de ictiologia do Museu Nacional, um dos que arriscaram a vida para resgatar peças e objetos do museu em meio ao incêndio, fez na terça-feira um breve balanço das perdas (tudo que estava no prédio principal) e das peças preservadas, como a coleção de moluscos.

“Algumas notícias iniciais: os prédios dos Departamentos de Vertebrados, Departamento de Botânica, Biblioteca Principal, Pavilhão de Salas de Aulas, Laboratório de Arqueologia na Casa de Pedra, Anexo Alípio de Miranda Ribeiro e Anexo da Coleção do Serviço de Assistência ao Ensino não foram atingidos. A sobrevivência do Anexo Alípio de Miranda Ribeiro é importante, pois continha algumas coleções de invertebrados e dipterologia”, informou.

Mas a tarefa é inglória. “Vou tomar um banho para lavar a fuligem e os restos de carvão e este cheiro miserável de incêndio e destruição”, disse Buckup.

Autor(a): Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches 
Fonte: www.cartacapital.com.br/revista/1020/incendio-do-museu-nacional-expos-projeto-de-dilapidacao-cultural
Colaborador(a): José Carlos Medeiros

 

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