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INTERAÇÃO / A PALAVRA É SUA

MANIFESTANTES OCUPAM RUA AO ENCONTRAR CASA DE RUI BARBOSA FECHADA
publicado em: 14/01/2020 por: Lou Micaldas

Protesto contra afastamento de diretores da instituição conta com a presença de intelectuais como Silviano Santiago e Beatriz Resende

Uma centena de pessoas protestou na tarde desta segunda-feira em frente à Casa de Rui Barbosa, em Botafogo. A manifestação, que estava marcada desde a semana passada, após a presidente Letícia Dornelles afastar da diretoria dos centros de pesquisa experientes pesquisadores da instituição, se intensificou depois que os participantes encontraram os portões da instituição fechados para público e bolsistas.

Do lado de dentro da grade, funcionários divulgaram em voz alta uma carta aberta contra a atuação da presidente. Segundo eles, não houve justificativa formal para o fechamento do jardim (o museu, às segundas-feiras, já não abre as portas). Atividades previstas para o dia, como o atendimento a refugiados por bolsistas de Direito, foram canceladas sem aviso prévio. Procurada via assessoria de imprensa, Letícia Dornelles comunicou que não iria se pronunciar.

Pelo Twitter, mais cedo, Letícia abordou um problema estrutural no terreno. Segundo ela, os dutos laterais da Casa, por onde passa o fluxo do rio Banana Podre, têm risco de se romper e destruir parte da área. Mas a presidente não faz nenhuma relação do problema com o fato de a instituição ter fechado as portas sem aviso prévio.

Na rua, os manifestantes gritavam palavras de ordem como “a Casa Rui é nossa”, "fora Letícia Dornelles" e “abre o portão”.  Intelectuais e ex-pesquisadores da casa como Silviano Santiago, Luiz Jorge Werneck Vianna, Beatriz Resende, Paulo Henriques Britto e Luiz Costa Lima engrossaram o coro dos descontentes.  A rua São Clemente chegou a ficar parcialmente fechada, enquanto policiais acompanhavam a movimentação.

Na carta aberta, lida pelo pesquisador Antonio Herculano Lopes, os funcionários voltaram a repudiar as exonerações e fizeram denúncias contra a presidente, acusando-a de censurar comentários nas redes sociais institucionais da casa. Também a criticaram por fazer um “uso personalista” dos canais oficiais.

“É perceptível que em diversos momentos as postagens servem para sua autopromoção, com uma abundância de selfies, o que caracteriza uso de recurso público para benefício pessoal e contraria preceitos constitucionais”, dizia a carta.

Fechamento contraria estatuto

Os pesquisadores aproveitaram para rechaçar declarações públicas de Letícia Dornelles. Recentemente, ela informou à imprensa de que havia funcionários sendo investigados internamente por “não produzirem”. Segundo eles, nunca houve uma comunicação de investigação oficial.

A carta foi encerrada com demandas como a “reversão imediata das exonerações e afastamentos” e a “abertura de um canal de diálogo”.

Ex-presidente da instituição (entre 2003 e 2011) e um dos diretores afastados (do Centro de Pesquisa Ruiano), o pesquisador José Almino de Alencar conta que soube que os portões seriam fechados para o público de manhã cedo, ao ver os guardas na entrada. Ele confirma que não houve aviso ou justificativa por parte da direção.

— Esse tipo de coisa nunca aconteceu, nem na ditadura. É uma instituição que recebe famílias, escolas. Existe uma norma interna de que não se pode fechar em dia útil sem justificativa — disse Almino, referindo-se ao estatuto da instituição, que prevê o fechamento dos jardins da casa somente diante de aviso prévio.

Antonio Herculano Lopes conta que a Associação dos Servidores da Fundação Casa de Rui Barbosa irá convocar uma assembleia hoje para definir os próximos passos a serem adotados. Segundo o pesquisador, que também foi afastado de sua função de diretor-geral do Centro de Pesquisa por Letícia Dornelles, as exonerações são um ataque da presidente ao setor da pesquisa, fundado em 1952.

Nesta segunda-feira, professores e pesquisadores de instituições dos Estados Unidos e da América Latina, como University of California, Harvard University, New York University e Universidad de Buenos Aires, enviaram a Letícia Dornelles uma carta aberta criticando as exonerações.

“Como especialistas em Brasil que fizemos pesquisa na Casa de Rui Barbosa, participamos em simpósios nacionais e internacionais aí organizados ou sabemos da sua reputação internacional de excelência em pesquisa e reflexão, tememos que essa medida reflita a falta de apoio ao importante trabalho realizado pela instituição sob a liderança dos chefes das unidades de pesquisa que foram arbitrariamente afastados de suas posições”, escreveram.

Na última sexta-feira, a Associação de Pesquisa do Brasil na Europa (ABRE) já havia divulgado um comunicado em que repudiava as ações de Letícia Dornelles e denunciava os “ataques contra o mundo da pesquisa e do ensino superior no Brasil”.

Autor(a): Bolívar Torres
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Raimunda Muniz

 

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