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INTERAÇÃO / A PALAVRA É SUA

COMEÇOU UM NOVO 1968 NA FRANÇA?

(o que é mostrado abaixo está ocorrendo HOJE, não meio século atrás!)

Lê-se na edição digital do jornal francês Le Monde que trabalhadores de ferrovias e hospitais, carteiros e funcionários públicos estavam 5ª feira (19/4) lado a lado com estudantes em atos convocados pela CGT e Solidaires (as centrais sindicais de esquerda e extrema-esquerda). 

O título: Entre 119.500 e 300.000 manifestantes contra governo, sendo o primeiro número da polícia e o segundo dos organizadores.

O Libération destaca que o prédio principal da Sciences-Po, escola na qual o presidente Emmanuel Macron se formou, foi tomado por estudantes contrários à ditadura macroniana.

E, mais reacionário ainda do que o Jair Bolsonaro, Le Figaro mancheteou o que torce muito para ver tornar-se realidade: Franceses divididos sobre uso da força para evacuar universidades.

Da minha parte, torço exatamente pelo contrário: para as manifestações se avolumarem a tal ponto que reeditem as jornadas de 1968, reatando os fios da História. 

Trata-se de uma esperança que frequenta meus escritos há décadas. Talvez a explicação mais completa que dei tenha sido esta:

"...a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencendo militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiando economicamente ou derrubando governantes adversos por meio das Forças Armadas, do Judiciário ou do Legislativo de seus respectivos países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizado por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.tudo dominado

Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são marcantes as semelhanças entre o que propunham os communards de 1871 e a pauta de seus congêneres de 1968, ambas, aliás, inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando a década atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.

Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como o de 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados meio século depois, por que não?"

Autor(a): Celso Lungaretti

 

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