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INTERAÇÃO / A PALAVRA É SUA

Sou um brasileiro cordial, então estou sempre pronto para fornecer as informações necessárias a companheiros que redigem seus artigos sem conhecimento de causa. Nem precisam agradecer...

O Breno Altman, fundador do Ópera Mundi, aparece no site da Folha de S. Paulo com um artigo (Qual autocrítica cabe ao PT?) em que explica da seguinte forma o que Deus e o mundo vêm exigindo do Partido dos Trabalhadores nos últimos anos:

"De Giordano Bruno, Galilei e Copérnico, entre outros hereges, a Santa Inquisição não queria extrair apenas a liberdade ou a própria vida. Acima de tudo, buscava abjuração das ideias. Puni-los era insuficiente: a Igreja somente se dava por satisfeita quando beijavam a cruz e reconheciam que a Terra era o centro do universo.

Esse espírito atravessou os tempos. Muitas das vozes que exigem autocrítica do Partido dos Trabalhadores, por exemplo, assim mascaram o desejo de vê-lo renegando sua natureza classista".

Também Carlos Lungarzo, que sempre merecerá nosso reconhecimento pela abnegada colaboração que presta há tantos anos à causa de Cesare Battisti, foi extremamente infeliz ao tecer estes comentários, em artigo publicado no Congresso em Foco:   

"...a autoflagelação é apenas uma versão masoquista do sadismo judicial, cujo objetivo não é “redimir” o autor do crime, mas fazer que ele seja castigado para prazer de seus carrascos e da turba que estes levam do cabresto.

A autocrítica do PT só serviria para que a ralé linchadora pequena-burguesa se delicie, e possa dizer: até eles próprios, os malditos petralhas, reconhecem seus crimes".

Quem não conheceu a esquerda de tempos melhores nem está informado sobre suas práticas, pode até concordar com a desnecessidade de o PT fazer uma autocrítica, confundida, por meio de uma retórica melodramática, com o mero arrependimento cristão.

O que eu tenho a dizer a ambos é: menos, companheiros, menos

Se consideram necessário atirar boias para um partido que se afoga num mar de lama, façam-no, mas não omitam que é uma tradição de longa data da esquerda desencadear processos de crítica e autocrítica após ter cometido graves erros, cujos resultados hajam sido desastrosos.

Do ponto de vista da esquerda, nunca se tratou de ajoelhar no milho, dizer perdoe-me, Pai, pois eu pequei e beijar cruzes, mas sim de identificar onde estavam as falhas, corrigi-las e tomar providências para evitar sua futura repetição (a chamada autocrítica na prática), além de avaliar o comportamento dos dirigentes responsáveis por fracassos catastróficos.

O processo de autocrítica mais emblemático da esquerda brasileira foi o ocorrido em 1964 e anos seguintes, porque nos era totalmente inaceitável o fato de sequer ter havido qualquer reação significativa à usurpação do poder pelos golpistas.

Como resultado, o PCB perdeu sua hegemonia na esquerda e nunca mais a reconquistou; novos partidos e organizações foram criados, outros se fundiram, muitos racharam, mudando diametralmente a correlação de forças no nosso campo; e se preparou o terreno para a adesão à guerrilha urbana e rural, que se tornaria a forma predominante de luta a partir do AI-5.

E isto tudo em função de um golpe dado com tropas e tanques na rua. O que dizer do impeachment de Dilma Rousseff, uma vergonhosa rendição sem luta, em que bastou um peteleco parlamentar para mandar a presidente eleita para casa?!

Então, tendo Dilma sido afastada temporariamente da presidência da República em 12 de maio de 2016 e estando careca de saber que a ela não voltaria 180 dias depois nem que a vaca tossisse, eu abri o blog Náufrago da Utopia para a discussão em profundidade das causas e consequências do que acabara de ocorrer.

No próprio dia 12 saíram estes dois artigos analíticos, um meu e o outro do Dalton Rosado.  

E muitos mais vieram na esteira, tanto da nossa equipe quando os que pinçamos na grande imprensa e nas redes sociais, até que, no dia 17,  lancei esta convocação para todos que quisessem dar suas contribuições ao debate sobre a refundação da esquerda, detalhando o que tínhamos a obrigação de abordar naquele instante:

"A reaglutinação de forças deve marchar paralelamente com a depuração moral, pois não conseguiremos reconquistar o respeito do cidadão comum se nossa imagem continuar associada à daqueles que, comprovadamente, tenham utilizado a atuação política para, de forma ilícita, perseguir objetivos pessoais como o enriquecimento e a conquista de status. 

E, claro, como não adianta repetirmos o que deu errado na esperança de que na vez seguinte dê certo, temos de discutir quais as novas estratégias e táticas a serem adotadas, para substituírem as que chegaram ao esgotamento na atual década".

Enfim, como blogueiro de esquerda que desde o primeiro momento abracei a ideia da autocrítica e fiz tudo que pude para que a dita cuja se tornasse realidade, espero dos companheiros Lungarzo e Altman as ressalvas obrigatórias: 

— de que a autocrítica do PT foi pleiteada em primeiro lugar pela esquerda e dentro da concepção que a esquerda tem deste processo, que não tem absolutamente nada a ver com o arrependimento cristão nem com as práticas da Inquisição Católica; e

— de que, seja lá o que for que a direita tenha cobrado muito tempo depois do PT em termos de autocrítica, quem lançou a ideia não foi ela, fomos nós, daí ser inaceitável fazê-la passar por uma iniciativa dos inimigos de classe e, a partir daí desqualificá-la aos olhos

Para acessar a imperdível entrevista do Paulo Paim, clique aqui
[O nós a que me refiro no parágrafo anterior inclui desde a equipe do Náufrago até o Tarso Genro (que nos antecedeu), bem como dos leitores do nosso lado.

Os companheiros que simultaneamente ou mais adiante se manifestaram no mesmo sentido, dentre eles o Leonardo Boff, o Paulo Paim, o Gilberto Carvalho, o Guilherme Boulos e tantos outros, além do grande Noam Chomsky lá fora.]

E o que deveria e deve constar de tal autocrítica? Principalmente isto:
— se foi correta a derivação do PT para a conciliação de classes, para o populismo e para o reformismo ou deveria ter sido mantida a opção pela luta de classes e pela transformação em profundidade da sociedade brasileira;
— se, face à facilidade com que Dilma foi expelida da Presidência quando os poderosos decidiram fazê-lo em 2016, compensa continuar-se priorizando a conquista de posições no Estado burguês ou é hora de voltarmos a colocar em primeiro plano a participação nas lutas sociais e a acumulação de forças para a superação do capitalismo;

Walter Pomar discutiu a autocrítica com outros expoentes da esquerda 

— o reconhecimento de que foi um erro terrível o PT ter voltado as costas aos manifestantes de junho de 2013 e ficado indiferente à desmedida repressão policial e judicial que foi lançada contra eles;

— o reconhecimento da responsabilidade que o PT teve na gestação da pior recessão econômica da História brasileira;

— o reconhecimento de que a adesão do Governo Dilma Rousseff ao neoliberalismo em 2015 confundiu e desmobilizou a esquerda, o que contribuiria decisivamente para a perda da batalha pela supremacia nas ruas em 2016;

— o reconhecimento de que a derrota eleitoral em 2018, diante de um inimigo destrambelhado e caricato (mas perigoso), se deveu a erros crassos como a insistência na candidatura fantasma do Lula e o torpedeamento da tentativa de articular-se uma frente da esquerda, tendo como cabeça de chapa um candidato que não carregasse consigo a imensa rejeição ao PT; e

— o reconhecimento de que a conduta moral do PT no poder não foi condizente com os valores da esquerda nem deverá ser jamais repetido por aqueles cuja razão de existir é regenerar uma sociedade apodrecida (sendo, portanto, os que mais devem resistir à tentação de chafurdarem em tal podridão). 

Até o Juca Kfouri exige, de forma veemente, a autocrítica.

Enquanto não acertarmos as contas do passado, continuaremos sendo vistos como inconfiáveis por aqueles que precisamos conquistar ou reconquistar para juntos construirmos um futuro bem diferente desse pesadelo com que o populismo neofascista nos acena.

Por não termos feito a lição de casa em 2016, sofremos derrota ainda pior em 2018. 

Então, ou nos colocamos à altura dos desafios que passaremos a enfrentar a partir do primeiro dia de 2019, ou nosso destino será, na melhor das hipóteses, a irrelevância; e na pior, a tragédia. 

Autor(a): Celso Lungaretti
Fonte: https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/

 

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