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INTERAÇÃO / A PALAVRA É SUA

Marcelo dos Santos, de 48 anos, está com medo de ter uma recaída. Depois de usar drogas por três décadas, conseguiu ficar um mês livre do vício. Mas essa vitória ele não conseguiu sozinho: há quatro meses passou a se tratar no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (Caps AD) Miriam Makeba, em Bonsucesso. O problema é igual ao de outros 29 caps da cidade: a falta de remédio fez os remédios sumirem. O número de profissionais atendendo também foi reduzido após demissões não serem repostas. E a alimentação também está cada dia mais escassa: há dias onde só há pão puro e café sem açúcar para se servir.

— Eu era um usuário de drogas e morador de rua. Aqui eu estou me tratando. Já saí da rua e fui morar com a minha irmã, que me aceitou porque eu estava em tratamento: — conta Marcelo, que teme voltar à vida das drogas: — Tenho muito medo de o Caps fechar. Aqui eu tive apoio e carinho. Minha ansiedade parou. Foi aliviando a vontade de me drogar. Venho todo dia.

Caps de Bonsucesso tem servido pão puro com café sem açúcar Caps de Bonsucesso tem servido pão puro com café sem açúcar Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Os caps Miriam Makeba e Paulo da Portela, em Madureira, estavam funcionando até ontem sem contrato, assim como a Unidade de Acolhimento Adulto Metamorfose Ambulante, no Encantado, todos na Zona Norte. A assinatura do novo convênio garante o funcionamento das unidades por mais um ano, mas não os repasses, que estão irregulares em todo o sistema de saúde mental da cidade, ainda são uma preocupação.

— Nossos pacientes têm transtornos mentais, cresceram a vida inteira na rua, não têm muitos vínculos e passam pelos caps para organizarem suas vidas e voltarem a trabalhar. Com essa crise, já observamos o impacto no tratamento deles — conta uma psicóloga que trabalha numa unidade da Zona Oeste.

A falta de dinheiro tem afetado a alimentação oferecida pelo serviço. Antes da crise, o café da manhã tinha manteiga, frios e mortadela. Agora, é servido pão puro. O caps Maria do Socorro Santos, na Rocinha, e no caps Maurício de Sousa, de Botafogo, serviam 36 refeições por dia. Agora, caiu para 20. Rodrigo Pereira, de 33 anos, paciente da Rocinha, conta que é preciso dividir a refeição com outros pacientes para todo mundo poder comer alguma coisa.

— Passa meia hora e a gente já está com fome de novo — conta Rodrigo, que trata a condição de bipolar.

O rapaz conta que frequentava o caps todos os dias. Agora, só vai duas vezes na semana para um tratamento individual. Rodrigo conta que toma dois tipos de remédios e ambos estão em falta. Um dos medicamentos ele consegue comprar. O outro, não tem dinheiro suficiente para arcar. No estoque central, há registrados 43 tipos de medicamentos para saúde mental. Desses, 33 estão zerados no estoque da cidade.

— Essa medicação não pode ser interrompida de uma hora para a outra. Estamos sem os principais antipsicóticos. Sem isso, eles alucinam, têm delírios. Podem até ter uma crise de abstinência de alguns remédios quando param de tomar dessa forma — conta o psicólogo de outra unidade.

Os problemas na rede de saúde do município mobilizaram artistas a gravarem vídeos nas redes sociais para apoiar a causa “Nenhum serviço de saúde a menos”, que reúne os servidores da saúde mental e das clínicas da família. O ator Matheus Solano fez um vídeo chamando a população a se mobilizar. “Estamos sendo assaltados pelo prefeito Marcelo Crivella que deixou de repassar R$ 500 milhões para a saúde. Então, serviços básicos estão faltando”. A atriz Nanda Costa também entrou na campanha: “Senhor prefeito, os pacientes estão sem medicação, estão entrando em crise. Isso é emergencial. O senhor precisa fazer alguma coisa”, diz.

Dados do Sistema de Informações Ambulatoriais do TabNet municipal mostram que o número de atendimentos nos caps caiu de 284 mil, entre janeiro e setembro de 2016, para 258 mil nesse mesmo período — uma queda de 8%, a mesma do restante da rede municipal. A Secretaria municipal de Saúde (SMS) informou que uma mudança de metodologia impactou diretamente nos valores informados no Tabnet: “Não necessariamente isso implica em menos procedimentos realizados”, informou.

“A Prefeitura do Rio está empenhada em regularizar a situação das unidades de saúde da rede municipal. Todos os 30 centros de atenção psicossocial da rede municipal estão em funcionamento e nenhum serviço será suspenso. A SMS está tomando todas as medidas administrativas cabíveis para ajustar a execução orçamentária à situação atual de crise financeira”, informou. Segundo a pasta, houve alterações no cardápio das refeições dos Centros de Atenção Psicossocial, “mas a alimentação dos usuários está mantida”. A SMS ainda afirmou que “o governo anterior deixou um déficit nas contas do município” e que “somente na Saúde, a dívida deixada era de R$ 266 milhões, com fornecedores e organizações sociais. A Prefeitura precisou fazer esforços para ajustar o orçamento a essa realidade financeira. Esses ajustes precisaram ser feitos em todos os órgãos da administração municipal”, informou.

Autor(a): Bruno Alfano
Fonte: Jornal Extra
Colaborador(a): Maria Cristina

 

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