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INFORMAÇÃO / ACONTECEU

NO FUNDO DO POÇO
publicado em: 01/03/2016 por: Netty Macedo

Ary Franco viveu momentos de pura emoção e revela, através do texto o que aconteceu com ele e um homem maltrapilho,que conheceu na pracinha.

Noite quente, não muito comum aqui na região serrana, obriga-me a sair de casa para sentir um pouco da brisa refrescante que sopra suave e agradavelmente. A noite inda é uma criança em suas 19:20h e dirijo-me automaticamente à tradicional pracinha onde sempre tem um dos bancos vagos e um chafariz jorrando suas gotas prateadas em direção ao luar.

Já comodamente aboletado em meu banco preferido, perco-me na contemplação de um céu divinamente estrelado e dou asas à minha imaginação na esperança de que receba a visita de uma inspiração que me faça compor umas estrofes e, quem sabe, até um poema. Meu intento é interrompido pela passagem de um farrapo humano, em trajes andrajosos sopesando um garrafa provavelmente de aguardente. Ele se deita num outro banco não muito distante do meu. Fico a meditar que aquele outrora ser humano, deveria ter uma estória para contar mas só encontrara ouvidos moucos para escutá-lo.

Movido por um misto de curiosidade e piedade vou ao seu encontro. Ao me ver de pé junto a ele, senta-se assustado cedendo-me um lugar no banco. Estava sóbrio o suficiente para responder ao meu boa noite. Logo em seguida levantou-se e fez menção de ir deitar-se em outro banco, coincidentemente aquele em que eu estava anteriormente sentado, mas interrompi-o, perguntando:
- Não podemos conversar um pouco? Estou só e com vontade de falar com alguém.
Sentamo-nos!
- Você é da polícia, de algum asilo ou abrigo?
- Não, sou apenas um idoso sofrendo com o calor e buscando um pouco de ar fresco.
- Você tem casa?
- Sim! Tenho minha casa e minha família. Você não tem?
- Já tive! Meus parentes moram na Paraíba e não sabem onde estou. Nunca me procuraram!
- Por que você os deixou? Houve alguma razão tão forte para te levar a esta drástica decisão?
- Bom, tudo começou quando eu perdi meu emprego e passei a ser tratado por todos como um traste. Fui injustamente acusado pelo meu patrão de roubo e dispensado por “justa causa”, sem direito à indenização. Não registraram queixa crime na polícia mas em troca obrigaram-me a formalizar um pedido de demissão.
- E você não fez nada para se defender. Não lutou pelos seus direitos?
- Não! Eu sabia quem praticou o ato falho, mas como ele era um chefe de família com quatro filhos, preferi arcar com as consequências.
- Mas isso foi um gesto muito nobre de sua parte. O tal ladrão, vendo o que você estava sofrendo, não se acusou?
- Eu esperei que ele o fizesse, mas parece que faltou-lhe coragem ou dignidade para tal. Na saída do trabalho ganhei dele um abraço significativo de gratidão, pedido de perdão e um muito obrigado.
- Isso provou que foi realmente ele. Um réu confesso!
- Eu não tinha suspeitas, tinha certeza, pois flagrei-o no ato, tentei dissuadi-lo mas não adiantou. Ele estava determinado e movido pela necessidade de comprar remédios para um dos filhos que estava doente.
- E você foi acusado por quê?
- Fui visto saindo do local do roubo enquanto ele permanecia lá dentro escondido.
- E depois de desempregado, o que você fez?
- Saía todas as manhãs à procura de algum biscate mas não achava nada, inda mais sem poder dar referências do último emprego. Pensei até em assaltar alguém, mas minha crença em Deus impediu-me de cometer este pecado. Numa madrugada, fiz uma trouxa e saí de casa por este mundo afora sem destino. Todo lugar em que estou é de passagem. O que mais me magoou foi minha mãe e meus irmãos acharem que realmente eu havia roubado. Jamais contei para eles o que ocorrera, pois sabia que iriam alcaguetar o ladrão.
- Como você faz para se alimentar?
- O mundo é meu lar. A única coisa que sinto falta é de um teto quando chove e de um agasalho nas noites frias. Nas lixeirinhas sempre tem metades de uns sanduiches, me lavo em chafarizes, uso banheiros públicos, minhas roupas sempre são renovadas...
- Como assim?!
- Bem, tem pessoas que não me dão esmola mas têm uma camisa ou calça velha e eu vou trocando-as, já que as que uso sempre estão em estado deplorável e descartáveis.
- Você fala bem e percebo que estudou. Não acha que esta garrafa impede que possa arranjar algum emprego?
- Não tenho objetivo algum na vida. Não conto com melhorias e estou satisfeito com o que não tenho. Esta garrafa ajuda-me a esquecer minha desdita e apaga minhas lembranças.
- Como você faz para comprar sua bebida?
- Nem todos recusam dar uma esmola. Juntando algumas, dá para comprar uma garrafa que não é tão cara assim.
- Quantos anos você tem? Eu tenho oitenta!
- Eu tenho anos vividos o suficiente para não querer outros mais. Chega! Não sei a razão Dele (apontou para o céu) ainda não ter vindo me buscar. Deve ter gente “furando a fila” (e sorriu deixando dentes amarelados à mostra).
- Estou vendo que você é religioso...
- Sou, mas procuro entrar em igrejas mais vazias e sentar-me no último banco para orar. Sempre me evitam pela má aparência, talvez mal cheiro, mas sei que todos somos iguais perante a Deus. Aliás, nem sei o porquê de você estar perdendo tempo comigo. Não me lembro mais quando foi que conversei tanto com um desconhecido.
- Eu não sou um desconhecido. Sou seu irmão indo ao encontro de nosso mesmo Deus, apenas o solo do caminho que piso parece ser mais macio que o seu. Minhas roseiras têm menos espinhos que as suas, Mas acho você mais forte e lutador que eu. Em situação inversa, não sei se suportaria chegar tão longe...
- Suicídio? Nem pensar! É um recurso covarde. Sigo pela estrada que optei e estou pronto para aguentar as consequências que isso me traz. Talvez esteja pagando um preço justo pelos pecados por mim cometidos.
- Você não alimenta nenhum sonho?
- Sem sonhos jamais sofrerei por não os ter realizado. Não carrego documentos, nada que me identifique. Uma cova rasa sem ninguém para me prantear, atrapalhando a paz de meu eterno repouso é o que desejo.

Aquele mendigo deixou-me deveras impressionado com a convicção que, resignadamente, escolheu para sua opção de vida. Um filósofo despido de qualquer etiqueta que o identificasse como tal. Os ponteiros de meu relógio me diziam que já eram 21h00 e resolvi despedir-me do estranho que permaneceu incógnito, deixando-me apenas a identificação de ser um peregrino irmão.

Ficou meio incrédulo quando viu minha mão estendida para ele, levantou-se, passou a garrafa para a mão esquerda e nos despedimos. Aí aconteceu a maior surpresa e alegria da minha vida: ele olhando para mim, com lágrimas lavando seus olhos sujos, derramou o conteúdo da bebida sobre o gramado do jardim. Do aperto de mãos, passamos para um abraço fraterno, sem restrições. Ambos choramos e ele me disse baixinho, mas sem nada prometer:
- Obrigado!
- Irmão, neste cartão está meu endereço. Caso resolva dar uma guinada em sua nau, procure-me. Acho que tenho umas roupas melhores que estas para lhe dar e, quem sabe, depois de ir a um barbeiro e tomar um bom banho, eu tenha um emprego para você, onde poderá até morar... Se você souber de cor os números de seu RG e CPF poderemos tirar as segundas vias.
- Ele fez que sim com a cabeça. De volta ao meu lar, falei para minha esposa:
- Fique preparada que talvez num desses amanhãs recebamos uma ilustre visita, que muito precisa de nós.
- Vê lá o que você está arranjando, hein?!
- Estou arranjando um cantinho lá em cima para nós dois, talvez pertinho dos pés DELE... Abracei-a e ela me mandou tomar um banho antes de dormir... apenas sorri!

(Parte II)

No dia seguinte o meu “irmão da praça” não apareceu, nem nos amanhãs seguintes. A trouxa dele permaneceu arrumada com duas calças, três camisas e dois pares de sapatos; antes, tudo aquilo apenas entulhava  meu guarda-roupas. Diariamente, várias vezes, olhava para aquela trouxa e me perguntava qual teria sido a opção tomada pelo meu amigo, uma vez que percorrendo de carro minha pequena cidade do interior, em lugar algum o encontrei.

O tempo foi se passando até que um dia o interfone tocou. Perguntei à minha mulher se seria o entregador do gás e ela disse que não tinha ainda feito o pedido. Atendi o interfone indagando quem era.
- Olá, meu amigo, sou seu “irmão da pracinha”. Lembra?

Reconheci de imediato a voz e disse-lhe para aguardar um pouco, pois ia prender a minha cachorra no canil. Era uma Rottweiler brava e já latia, percebendo a proximidade de um estranho na casa. Aí, já com a trouxa em mãos, preveni minha mulher, embora já estivesse ela a par de tudo,  para não reparar na aparência do mendigo pois dentro daquele casulo molambento havia um grande ser humano. Iria convidá-lo para entrar e convencê-lo de tomar um banho nas dependências da empregada (tinha chuveiro elétrico) antes de vestir as roupas “novas”, oferecer-lhe uma refeição, levá-lo ao Leandro meu barbeiro e apresentá-lo no emprego que arranjei para ele. Lá ele teria alojamento para dormir, tique refeição e vale transporte. Seria uma retomada de caminho para ele... Tudo maturado em minha mente; eu estava eufórico e feliz... em paz comigo!

Atravessei o jardim, dirigindo-me ao portão de madeira maciça, alto e indevassável, levando a tiracolo a trouxa caso meu amigo se negasse a entrar. Assomando a calçada não vejo meu “irmão da pracinha”; no lugar dele tem um cavalheiro trajando um elegante terno azul marinho com gravata listrada da mesma cor e calçando sapatos pretos que me pareceram cromo alemão. Junto à calçada, um taxi estacionado com placa do Rio de Janeiro. Dirigi-me ao cidadão e perguntei pelo meu amigo.
- Sou eu o seu irmão, aquele que derramou a bebida no gramado do jardim! E deu-me um forte abraço.

Sem fala, larguei a trouxa no chão e retribuí o abraço. Ficamos ali uns segundos abraçados sem nada dizer. Apenas lágrimas de emoção rolaram de nossos olhos, sob o mudo e impassível testemunho do motorista do taxi que permaneceu discretamente sentado ao volante.
- Perdoe-me não ter te reconhecido. Não fosse o detalhe da garrafa derramada na grama e sua voz, acharia ser um trote de mau gosto. Vamos entrar; quero saber do milagre desta tua maravilhosa metamorfose. Fale-me tudo, nos mínimos detalhes, a não ser que meramente tenhas acertado na Loto.
- Aceito amigo, pois tenho muito a contar, mas primeiro deixe eu colocar esta trouxa no carro, antes que me esqueça. Ela é para mim, não?!
- Mas...
- Tenho um amigo que precisa dela e faço questão de levá-la, concorda?
- Claro! É toda sua... (rimos)
- E o motorista do taxi? Perguntei.
- Não se preocupe. Ele está por minha conta desde o aeroporto do Galeão. Saí de João Pessoa às 8:30h e cheguei aqui no Rio antes do meio dia. Demorou pouco mais que três horas para fazer o mesmo percurso que levei mais de três anos a custa de caronas e grande parte a pé.
- Aeroporto?! Mas o que é que está acontecendo?
- Calma que vou contar tudo! Gostou do perfume de minha lavanda? Bem mais agradável daquela que eu “usava” antigamente, não? (rimos).

Atravessamos o jardim e adentramos minha casa. Na sala estava minha mulher sentada no sofá e deu um pulo quando viu meu visitante. Apresentei o meu amigo e ela mal conseguia dissimular sua perplexidade.
- Rodrigo Lacerda, seu criado.
- Roberta Franco, muito prazer. Vamos sentar!
- Ah! Rodrigo, a propósito, meu nome é Ary, Ary Franco (rimos muito).

Sem muita pressa, meu amigo desabotoou o paletó e sentou-se numa cadeira de balanço. Sentei-me em outra ao seu lado.
- Ary, quando você foi embora daquela praça levantei-me do banco fui jogar a garrafa vazia numa lixeira próxima. Voltei ao mesmo banco e, sentado, fiquei a meditar sobre seu oferecimento. Deitei-me para passar mais uma noite ao relento e procurá-lo no dia seguinte. No entanto, por volta das 2:30h senti alguém me cutucar com um cassetete. Era um guarda municipal. Sentei-me meio sonolento e ele perguntou-me:
- Você não tem casa? Aqui nesta cidade não toleramos mendigos, nem vagabundos.
- Não senhor! Não tenho casa e nem sou vagabundo. Apenas um mendigo.
- Então me acompanhe pacificamente. Espero não ter que usar de violência e nem algemá-lo.
- Absolutamente! Para onde o senhor vai me levar?
- Vamos naquela patrulhinha, para o distrito policial!

Mandaram-me sentar no chão para não sujar o banco traseiro, sob a alegação de que minha imundície fedia muito. Em cinco minutos chegamos à delegacia e fui interrogado pelo oficial de plantão.
- Seu nome completo!
- Rodrigo Lacerda de Souza (confesso que fiquei tentado em inventar um nome qualquer, mas desisti).
- Tem documentos que o identifique?
- Não senhor, mas sei o número do meu RG de cor.
- Qual é?

Dei-lhe o número e ele advertiu-me de que se eu estivesse mentindo iria responder pelo crime de falsidade ideológica, além de vadiagem e perturbação da ordem pública.
- Não estou mentindo... (Não sabia ser um meliante tão perigoso e autor de tantos delitos).
- Então vamos ver sua situação aqui em nossos arquivos.

E começou a fazer uma triagem no computador a meu respeito...
- Muito bem! Nada em “busca e captura”, nada em “procurado”, nenhuma queixa registrada... ulálá! O que temos aqui: “DESAPARECIDO”! Mas você não se parece nem um pouco com o retrato que tenho aqui sem essa barba e cabelos crescidos. O que é que você aprontou na Paraíba? Tem mais de três anos que você sumiu de lá. Por quê?
- Saí em busca de emprego e não me dei bem...
- Olha, já que não há antecedentes criminais, vou colocar você numa cela individual e passar uma rádio para a Central avisando que te achamos. Lá na cela tem sabão e um chuveiro. A água está fria, mas, por favor, toma um banho, pelo amor de Deus! Certo!?
- Senhor, por favor, não há necessidade de avisar sobre meu paradeiro. Eu juro que saio agora de sua cidade e nunca mais volto. Palavra!
- Ora bolas! Tudo isso por causa de um banho? Não me faça mudar de opinião a seu respeito. Quem não deve, não teme, entendeu?! Cabo, recolha este homem à cela individual!

Durante o interrogatório, o tempo todo fiquei de pé, não fui convidado para sentar na cadeira que estava pertinho de mim. Mas já estava acostumado a ser humilhado, Fazia parte do meu lugar na sociedade: um pária!

Até que gostei da cela que me pareceu um hotel cinco estrelas. Tinha um vaso sanitário, chuveiro e um macio colchão de palha. Não fosse a preocupação de vir a ser recambiado para minha cidade, aproveitaria com satisfação o “luxo de minhas acomodações”. O dia já clareava quando terminei meu banho e a lavagem de minhas roupas. Mal deitei-me só de cuecas, enquanto minhas roupas secavam penduradas nas grades, chegou o meu desjejum (uma caneca de café quentinho e um pão francês inteirinho e COM MARGARINA!). Aproveitei para perguntar ao carcereiro se ainda iria demorar muito para ser liberado e ele disse-me que não sabia de nada. Dormi maravilhosamente bem e, depois do almoço (um delicioso arroz com carne moída) acompanhado de uma garrafa d’água, voltei a deitar-me. Ao anoitecer, me trouxeram uma gostosa sopa de entulho  e vesti-me com as roupas já quase enxutas, jogando fora a cueca que não lavei (por uma questão de decoro não quis ficar nu). Deitei-me para passar mais uma noite na cadeia, segurando seu cartão de visitas, único vínculo que este excluído tinha com a sociedade hostil que o aguardava lá fora. Mas, por outro lado, sentia-me reconfortado em saber que estavam me procurando, que sentiram minha falta, já que meu nome constava na lista de desaparecidos.

No terceiro dia, pela manhã, o policial que me “recepcionou”, quando fui capturado foi até a minha cela e abriu-a para mim.
- Rodrigo, me acompanhe!
Fui atrás dele esmagado por dúvidas e receios até uma saleta onde, desta feita, mandou-me sentar.
- Estou sentindo que você tomou um banho...
- Dois, para ser mais exato, senhor.
- Rodrigo, tenho boas notícias. Você conhece Álvaro Lacerda de Souza?
- Sim! É  meu irmão mais velho.
- Ele chegará esta tarde com um alvará de soltura expedido pelo Juiz de sua Comarca e o levará de volta pra casa.

Desabei em prantos; de volta pra casa!!! Isso, depois de passados mais de três anos soava-me como mil sinos tocando em igrejas, mil cânticos de aleluia. Não deixei de ser lembrado! Meu coração soluçava em palpitante alegria, postergando tudo aquilo de negativo que pudesse me acontecer nesse meu retorno. Gentilmente o policial pegou uma caneca com água pra mim. Nesse momento escutei uma fungada da minha esposa. Percebi que ela estava com os olhos lacrimosos.
- Acalme-se Rodrigo, você está a caminho do seu lar e já sei mais ou menos o que se passou. Eu o admiro! Não precisa voltar para a cela, basta dar sua palavra de que não sairá desta delegacia, antes da chegada do seu irmão. Combinado?!
- Combinado, consegui responder de cabeça baixa e ainda entre lágrimas.
- Então, para ajudar a passar o tempo, coloque em ordem alfabética estas fichas – OK? Como pagamento pela sua ajuda, na hora do almoço vou mandar buscar duas quentinhas pra nós (e riu).
- Ary, aquela manhã foi o início desta metamorfose que você vê em mim.

Minha mulher levantou-se e disse que iria preparar um cafezinho para nós, mas Rodrigo pediu que ela continuasse a ouvir, senão iria perder grande parte de sua estória. E permanecemos os três a ouvir o relato do meu “irmão da pracinha”.

(Parte III)

Eu terminei de comer minha quentinha (dobradinha com feijão branco) e olhava fixamente para a entrada da saleta na delegacia, à espera de meu irmão. Eram 14:20h quando ele surgiu. Num impulso incontido, corri em sua direção dando-lhe um abraço não correspondido. Ele não me reconheceu. Somente quando ouviu minha voz falando o seu nome, entre lágrimas, senti o abraço retribuído na mesma intensidade que o meu.
- Maninho... que saudades! (disse-me ele). Por que você nos deixou?
- Tinha razões de sobra para isso.
- Temos muito a conversar, mas deixe-me entregar a papelada oficial que vai “devolver” você a nós, para sempre!

O oficial que presenciou nosso reencontro, recebeu o alvará expedido pelo Juiz, mandou meu irmão identificar-se e assinar um documento juntamente com a minha assinatura. Minhas mãos tremiam ao segurar a caneta; cheguei a duvidar se ainda saberia assinar meu nome. Protocolos cumpridos, Álvaro disse-me que havia dispensado o taxi em que veio e deveríamos arranjar outro para nos levar à pousada em que estava hospedado. O oficial prontificou-se a levar-nos no carro dele e agradecemos a gentileza. Em lá chegando, Álvaro mostrou-me as roupas que havia trazido e que deixei pra trás em minha “fuga”. Já no banho perguntei pelo mano mais novo e pela mamãe. Ele nada respondeu e pensei não ter escutado por causa do barulho da água do chuveiro. Enxuguei-me e, após vestir-me com as “roupas novas”, ainda enxugando cabelos e barba (eu estava hirsuto), renovei minha pergunta e ele. Sentado à beira da cama, olhou-me fixamente sem nada dizer.
- Diga-me, mano, aconteceu alguma coisa com mamãe?
Ele permaneceu mudo, olhando-me fixamente nos olhos.
- Pelo amor de Deus! Diga-me alguma coisa!
- Ela faleceu trinta dias depois de tua intempestiva partida. Caiu em depressão, parou de comer e foi hospitalizada. Sofreu um AVC. Morreu de desgosto, negando-se a acreditar que eras um ladrão e humilhada ouvindo comentários desabonadores sobre você, quando saía à rua.

O impacto recebido foi tão grande que não chorei, meu coração batia forte e acelerado dentro de meu peito angustiado. Joguei-me na cama abraçado a um travesseiro e só conseguia clamar: Deus! Deus! Por que?! Por que?!
- Enquanto uma multidão estava no velório, o verdadeiro culpado compareceu à Delegacia e confessou o crime cometido, te inocentando.  Houve uma ameaça de linchamento, mas ele foi salvo recolhido em cela de segurança máxima. Dois meses depois foi a julgamento e com atenuantes a seu favor como furto simples (sem emprego de arma, violência, arrombamento...), a razão pela qual o ato fora perpetrado, réu primário, sua confissão espontânea levada pelo remorso, etc... pegou a pena mínima de  um ano e meio. Para preservar sua integridade física, foi transferido para outra cidade onde cumpriu sua reclusão e a família mudou-se para onde ele ficou detido. Depois tomou paradeiro ignorado. Tão logo ficou comprovada tua inocência começamos a te procurar  espalhando nas delegacias de todo o país nosso aviso de DESAPARECIDO. Hoje, na cidade, você é considerado um herói e como tal deverás ser recebido. Prepara-te!
- Tudo isso seria maravilhoso se mamãe ainda estivesse conosco... e ela pudesse constatar que eu nada cometi que a fizesse se envergonhar de mim.
- Nada podemos fazer para mudar o passado. Calça teus sapatos e vamos ao barbeiros.

Os pensamentos represados em minha cabeça impediam-me de falar algo. Tudo parecia estar acontecendo acelerado demais para separar a realidade de meus sonhos. Fomos ao barbeiro a pé, pois o salão não ficava distante da pousada. Álvaro ficou sentado lendo uma revista velha, enquanto eu era literalmente “tosquiado”. Quando tudo terminou, abri meus olhos e mirei-me no espelho. Meio boquiaberto, falei comigo num emocionado murmúrio: “E eis que Fênix ressurge das cinzas!”. Brincando, meu mano bateu palmas quando levantei-me da cadeira.
- Seja bem-vindo (e abraçou-me).

Vamos nos apressar para pegar o ônibus  para o Rio. Amanhã, pela manhã, estaremos a caminho de João Pessoa no voo das 8:30h.
- Mano, você está bancando toda essa despesa comigo. Um dia ainda hei de te reembolsar, acredite!
- Você está equivocado! Durante nossa viagem aérea pra casa, vou te contar tudinho – OK?
- Tomara que logo fique sabendo, antes que eu seja corroído pela curiosidade.

Nas duas horas de ônibus, ambos recostamos nossas poltronas e dormimos, cansados que estávamos da correria. Já no Rio, passamos a noite em um hotel três estrelas. Levantamos cedinho, pegamos um táxi para o Galeão e, dentro do horário previsto, já estávamos embarcados, a caminho de casa. Álvaro foi o primeiro a falar.
- Maninho, na nossa pequena cidade do interior, as notícias se espalham como incêndio em palheiro. Quando teu colega de trabalho confessou o furto, a população ficou revoltada e chegou a apedrejar a Empresa em que trabalhaste. Fui convidado pelo Diretor Presidente para informar que custearia todas as despesas no sentido de descobrir teu paradeiro e chegou até a oferecer uma recompensa a quem te achasse. Se algum dia voltasses, ele te receberia de volta com uma promoção, te indenizaria com substancial quantia por danos morais, etc... Então, fique sabendo que nada me deves e que nada estou gastando do meu bolso com este teu retorno ao lar. Entendeu?
- Entendi e fico a pensar quão inútil foi ter saído da minha cidade na calada da noite. Mas, por outro lado, acho que viveria o resto da minha vida com a injusta pecha de ladrão.

Ambos colocamos nossos cintos de segurança, recostamos nossas poltronas e, cada um com seus sonhos, dormimos acordados. Aterrissamos sem problemas, lanchamos no restaurante do aeroporto e pegamos um ônibus para nossa cidade interiorana. Ao chegarmos na rodoviária, vi meu irmão mais novo Maurício,  pessoas conhecidas, desconhecidos e colegas de meu antigo trabalho. Esse grupo mostrava uma faixa em que estava escrito “BEM VINDO RODRIGO”. Confesso que fiquei surpreso, emocionado e com medo de saltar do ônibus.

A metamorfose ocorrida comigo foi muito brusca, de um mendigo enjeitado pela sociedade para uma pequena celebridade agora festejada e recebida com carinho. Perguntei ao meu irmão, ainda dentro do ônibus:
- Mano, o que está acontecendo?
- Eu não te avisei que agora eras uma celebridade? Espero que tenhas humildade suficiente para saber  lidar com isso. Nesse momento, Roberta pediu que passássemos para a sala de jantar pois serviria um cafezinho. Enquanto preparasse o lanche, ela continuaria a ouvir o relato do meu “amigo da pracinha”. Aproveitei esse hiato para mostrar os dois andares da casa ao nosso visitante, “inclusive” os banheiros.

FINAL

Já na sala de jantar, sentamos à mesa para degustar nosso cafezinho com queijo de minas, torradas de pão de forma, geleia de morango e uma variedade de biscoitos. Foi um modesto acepipe improvisado por minha mulher para o nosso conviva.
- Gostei muito da casa de vocês; um pouco grande só para os dois.
- Somos cinco!
- Como assim?
- Deus, minha filha Adriana que ainda não chegou de seus afazeres, minha mulher, a minha Rottweiler Bella e eu. (rimos descontraidamente).
- Ary, você sabe que ainda viajo hoje no voo das 22:30h, de volta para minha santa terrinha?
- Já são quase 17:00h. Você acha que dará tempo?
- Claro! O Horácio é ótimo motorista. Espero que o piloto também. (rimos). Agora deixe-me continuar a contar minha estória.
- Pelo celular, sem que eu soubesse, meu irmão tinha avisado ao Maurício sobre o horário previsto para nossa chegada na rodoviária. Daí a razão da minha surpresa com aquela recepção. Meio acanhado desci do ônibus e fui aplaudido, abraçado, outros cantavam “Rodrigo é um bom companheiro...”, meu maninho chorava. Foi um momento inesquecível. Com certa dificuldade conseguimos entrar no carro do mano Álvaro e chegamos em casa. Naquele instante, mais do que nunca, senti o vazio da ausência de mamãe. Que bom se ela estivesse conosco! O telefone não parava de tocar e tivemos que tirá-lo do gancho para podermos conversar.
- Rodrigo, às 10:00h de amanhã, terás uma audiência com o Diretor Presidente da Empresa em que trabalhavas. Escute o que ele tem a  dizer e espero que tomes a decisão certa, pois a última palavra pertence a ti e a mais ninguém.
- Ok, mano, procurarei colocar meu bom senso à frente de tudo. Fique tranquilo!

Tomei banho e fui deitar-me no meu quarto que permaneceu intacto, como se tivesse eu saído dele na véspera. Ao acordar, apanhei meu único terno no guarda-roupas, vesti-me e fui para a reunião na hora aprazada. Difícil foi chegar no segundo andar, até a secretária de Mr. Hartley; todos queriam falar comigo.
- Bom dia, Rodrigo! Como vai você?
- Bom dia, Da. Yara. Eu estou ótimo, obrigado!

Anunciado pelo telefone, imediatamente a porta do gabinete do presidente foi aberta e ele me recebeu com um forte aperto de mão. Ao invés dele sentar-se na sua cadeira atrás de sua mesa, sentamo-nos em duas poltronas que pareciam nos aguardar.
- Rodrigo, em primeiro lugar quero pedir-lhe desculpas pelo incidente ocorrido e dizer-lhe que, caso você queira mover uma ação contra a Empresa, estamos prontos a arcar com as consequências impostas pela justiça. Em segundo lugar gostaria de oferecer-lhe o cargo de Diretor Financeiro, já que você possui os diplomas de perito contador e administrador de empresas, tem um caráter sobejamente nobre e reúne todas as outras qualidades natas para desempenhar esta função. Vamos lhe indenizar com a quantia simbólica de R$300.000,00, correspondente a pouco mais que o dobro dos salários que você receberia caso permanecesse trabalhando durante o tempo que ficou afastado, muito embora esteja este valor muito aquém de seu merecimento. Você terá um automóvel da Empresa para seu uso exclusivo. Às nossas expensas passará por um rigoroso exame médico, tratamento dentário e outras eventuais benesses que se façam necessárias, antes de tomar posse de sua nova atividade.

Eu fiz força para não dar um pulo da poltrona e bradar: “Obrigado meu Deus! Ao mesmo tempo, lembrei-me do amigo que fiquei de visitar no dia seguinte ao nosso encontro naquela praça. Eu tinha que dividir com ele tudo aquilo que estava acontecendo. Não poderia deixá-lo pensando que não atendi seus conselhos e que desprezei seu oferecimento.
- Mr. Hartley, agradeço e aceito tudo o que me está sendo oferecido, mas eu necessito ir rapidamente ao Rio de Janeiro para terminar uma pendência que por lá deixei.
- Rodrigo, você faria isso em apenas um dia, indo e voltando de avião? Nós pagaremos todas as despesas, porém, não antes de efetivarmos  tudo que ficou acertado. Levará uma semana no máximo. Pode esperar?
- Sem problemas!
Levantamo-nos com renovado aperto de mãos e votos de sucesso do meu presidente.
- Agora, longe de querer ofendê-lo, quero saber se o meu Amigo Ary está precisando de algo.
- Rodrigo, Deus me tem dado muito mais do que preciso ou mereço. Eu te agradeço de todo coração este oferecimento. Apenas quero te dar um novo cartão meu, pois este que levas contigo está meio molambento.
- De jeito nenhum! Este que carrego comigo é o “original”. Meu talismã! E, ainda que duvides, tenho tudo de cor, de tantas vezes que já o li. (risos). Apenas vejo que, além de poeta e pensador, também és escritor; se algum dia resolveres escrever sobre nossa estória, não cites os nomes verdadeiros de ninguém, combinado?
- Combinado!
- Sra. Roberta, o tempo está passando, tenho que ir, muito obrigado pela sua gentil e paciente recepção e peço seu marido emprestado por apenas uns poucos minutos. Voltamos daqui a pouquinho, por favor!
- Ei, Rodrigo, aonde você pretende me levar?
- Ah! É uma surpresa!
- Então me dê um tempo de trocar de roupa.
- Não precisa. Onde iremos não é lugar para luxos.
- Pelo menos vou calçar os sapatos. Não saio para a rua de chinelos, nem morto! (risos).

Pedi à minha esposa para não esquecer de soltar a Bella do canil depois  que saíssemos e lá fui eu às cegas para destino ignorado. Uma vez no táxi, Rodrigo apenas falou para o motorista.
- Podemos ir, Horácio.

Em cinco minutos chegamos à Igreja da pracinha, apeamos na porta e adentramos no templo sagrado. Dobramos nossos joelhos e fizemos o sinal da cruz, segui ao lado de Ronaldo até o primeiro dos bancos, bem próximo ao altar. A igreja estava quase vazia. Contritos, nos ajoelhamos. Ao inclinar minha cabeça para iniciar minha oração, ouço a voz de Ronaldo com a cabeça erguida dirigida para o altar.
- Meu Amado Deus! Aqui me tens de joelhos, agora, pela primeira vez, mais perto deste altar onde vejo a imagem de Teu Filho martirizado na Cruz. Dantes ocupava o último dos bancos e de lá fazia minhas orações. Quero agradecer-Te as dádivas a mim concedidas e pedir-Te que olhes por este irmão que está ao meu lado. Foi ele quem estendeu-me sua mão quando era eu um renegado e todos viravam as costas para mim. Peço que O ajudes agora e para todo o sempre. Olhai também pela minha querida mãezinha que junto de ti deve estar. Que assim seja, amém!! Não consegui fazer minha prece e só fiz soluçar. Ele tinha me trazido, desta feita para pedir por mim, me ajudar em retribuição à ajuda que eu pretendia lhe dar, mas o destino tinha algo melhor para lhe oferecer do que eu a ele. Nos erguemos, fizemos o sinal da cruz e saímos da Igreja.
- Rodrigo, muito obrigado pelo teu atencioso e emocionante carinho.
- Nada me agradeça, por favor! Lá está o táxi, vamos que o tempo urge!

Atravessamos a pé a mesma pracinha em que nos encontramos naquela inesquecível noite e, ao passarmos pelo banco em que Rodrigo havia se  deitado, olhamos um para o outro e nada dissemos, apenas pensamos. Era o suficiente: o silêncio trocado entre nós falava tudo. Antes de entrarmos no táxi, a pedido do meu amigo, Horácio abriu o porta-malas e Rodrigo pegou um pacote embrulhado para presente.
- Isto é uma pequena lembrança. Não abra agora, só quando chegares em casa e junto com Da. Roberta. Certo?
- Você não precisava...
- Vamos te levar de volta pra casa. Já está começando a escurecer e não quero obrigar o Horácio a correr até o aeroporto (risos).

Na porta de casa, Bella já anunciava meu retorno com latidos altos.
- Ary, meus cartões ainda não ficaram prontos. Quando os receber da gráfica, o primeiro deles será enviado para você pelo correio. Nossa amizade é imorredoura, embora à distância. O que não quer dizer que não mais nos encontraremos, se não for aqui, será lá em cima (e apontou para o céu).
- Assim espero, meu “amigo da pracinha”. Sucesso e que Deus oriente teus passos em toda a tua jornada.

Saltei do carro e fiquei olhando-o desaparecer ao dobrar a esquina. Atravessei o jardim com a Bella saltitando ao meu lado, fazendo festa como se eu estivesse chegando de uma longa viagem. Uma coisa deixou-me feliz: Rodrigo mantinha sua humildade, viajando ao lado do motorista. No banco de traz ia a trouxa de roupas que eu tinha separado para dar-lhe e que, certamente, iria servir a um nosso semelhante menos privilegiado.
- Roberta! Cheguei! Olha o que ganhamos do Rodrigo! Tenho instruções de só abrir com você ao meu lado.

Nessa hora a curiosidade feminina fala mais alto que tudo. O presente foi tomado de minhas mãos e aberto em tempo recorde. Era um sagrado crucifixo com a Cruz em mogno e a imagem dourada de Jesus Cristo, com a inscrição “INRI” acima de Sua cabeça. Trazia uma mensagem do Rodrigo: “Não se esqueçam de mim”. Pelo tamanho do presente, iria ser colocado solenemente numa das paredes de nossa sala, relembrando para sempre o nosso Amigo saído do FUNDO DO POÇO.

FIM

Nota do autor: a pedido do meu Amigo, os nomes por mim citados são fictícios.

Autor(a): Ary Franco (O Poeta Descalço)

 

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