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OPERAÇÃO MENISCO
publicado em: 01/03/2016 por: Netty Macedo

Nos idos de 1973, um Capitão-de-Corveta recém promovido, assíduo frequentador das peladas de futebol e vôlei no Clube Piraquê, começou a ter problemas com seu joelho direito. No início, para a prática de esporte, foi contemporizando com o uso de bálsamos anestésicos e joelheira, mas com o agravamento da lesão foi obrigado a procurar um especialista.

À luz dos exames feitos, o diagnóstico do ortopedista recomendava uma cirurgia para a retirada dos meniscos da perna afetada. Esse mesmo médico prenunciou ao oficial que, mesmo após a operação, havia uma grande possibilidade dele não poder mais praticar qualquer tipo de esporte que forçasse as pernas, sob pena de acelerar uma forte artrose no joelho e ficar entrevado para o resto da vida. Diante daquele quadro negro, o Comandante resolveu consultar o melhor especialista do Rio na época, o Dr Nova Monteiro, médico ortopedista de renome e que trabalhava em um bom hospital de emergência, o Miguel Couto.

Por coincidência este médico era muito amigo do pai do Oficial, o que facilitou marcar uma consulta no próprio hospital.

Era uma segunda-feira quando na sua sala o Dr Nova Monteiro recebeu e examinou o Comandante. Diante da gravidade da lesão, o médico se prontificou em operá-lo e declarou que, ao contrário do outro ortopedista, ele voltaria a praticar esportes normalmente.
-“A artrose, você ainda tem muito tempo sem se preocupar com ela, pois só deve aparecer daqui uns vinte anos. Quantos jogadores profissionais operam os meniscos e ligamentos e voltam a jogar normalmente.”, disse o Dr Nova Monteiro, fato que deixou bastante animado o Comandante.

-“Sei que na Marinha você terá todo o conforto no atendimento, mas aqui você terá que se sujeitar às normas do hospital, inclusive compartilhar de uma mesma enfermaria com outros pacientes.”, completou o Doutor.
-“Não há problema, Doutor. O importante é que eu volte a praticar os esportes.”, respondeu o oficial. Com este fecho, marcaram a internação para o dia seguinte a tarde.

A operação seria feita na quarta pela manhã e na quinta a alta, podendo retornar para casa. E assim foi feito.

O Comandante ao chegar em casa notificou, com detalhes, à família da cirurgia. Pela manhã da terça-feira, a esposa do Comandante arrumou uma pequena mala com todos os itens necessários para uma internação de dois dias. Além disso, preparou também um farnel, com frutas, suco e uns sanduíches, para o marido, pois não queria que ele passasse fome, visto que a comida do hospital supostamente não seria boa.

Por volta da 17 horas toda a família reunida em torno do paciente – pai, mãe, mulher e filhos - rumaram para o Miguel Couto. Já na entrada, sob protestos da mãe do oficial, tiveram que deixar a frasqueira com o farnel, por ser proibido naquele nosocômio. Ao chegarem na recepção, já devidamente avisada, o oficial preencheu uma ficha, recebeu uma papeleta e a atendente, em seguida, indicou uma enfermaria no segundo andar, onde um enfermeiro daria as informações complementares.

Subiram todos em procissão pela escada e se dirigiram ao balcão no corredor, onde um enfermeiro leu a papeleta e orientou o Oficial até a enfermaria, onde mostrou a cama 12 que ele ocuparia. Os membros da família, querendo adentrar, foram sumariamente barrados na porta, pois dali não poderiam ultrapassar, só o paciente. Com exceção do material de higiene, a maleta, com os pertences, também não pode entrar, sob alegação que o hospital providenciaria tudo. Isto gerou protestos exaltados das mulheres da família. Os filhos ficaram assustados e atônitos diante da cena,.enquanto o pai e o paciente tentavam acalmar os ânimos. Diante da confusão que se instalara no corredor, o enfermeiro pediu que os familiares fossem embora, pois, a partir daquele instante o paciente estava sob a responsabilidade do hospital. Eram as normas da casa. E assim todos se despediram do oficial e deixaram o hospital.

O próximo contato só seria feito no dia seguinte no horário de visitas a tarde, pois naquela época não havia telefone celular e o orelhão mais próximo ficava na calçada em frente a porta do hospital. Depois que tudo se acalmou o enfermeiro que pediu ao Oficial, sob o olhar curioso dos outros ocupantes da enfermaria, que tirasse toda a roupa. Recebeu para vestir um par de pantufas de pano e um avental semi-encardido, mal passado e todo carimbado com a sigla “HMC” que mal cobria a parte traseira do corpo. Não podia reclamar, pois as condições foram bem explicitadas pelo Dr Nova Monteiro. Disciplinado como militar e esperançoso como paciente, ele estava consciente de que tinha que se sujeitar à tudo, sem chiar. Entregou suas roupas e sapatos ao enfermeiro que as levou para guardar. A cama número 12, no canto esquerdo junto à parede, típicas dos hospitais, coberta com um lençol e colcha igualmente carimbados. O travesseiro bastante desconfortável, também com fronha carimbada, não era nem fino nem grosso, mas cheio de pelotas duras de algodão.

Eram quatro os pacientes daquela enfermaria. O vizinho do leito 12 era um senhor negro e gordo com a perna esquerda engessada e pendurada através de cabos e roldanas há mais de seis meses; o segundo, um mulato forte e alto, paralítico da cintura para baixo em virtude de um tiro que levou na coluna; o terceiro, um senhor baixinho recém-operado dos joanetes que se movimentava usando uma cadeira de rodas; e por fim, um rapaz branco e franzino, que ao pular de cabeça numa lagoa, bateu com a cabeça nas pedras e quebrou o pescoço. Este estava deitado de lado com o tronco totalmente imobilizado por gesso. Para mantê-lo na horizontal eram usados vários calços de madeira por baixo e, ainda, por uma abertura grande envolvendo toda a face, tinha sua visão facilitada através de um espelho retrovisor ajustável conforme a direção que queria olhar.

Tão logo as apresentações foram feitas, os inquilinos mais antigos passaram a chamar o novo paciente de “Seu Comandante”. Cada qual contou a sua história e como foi parar naquela enfermaria. O velhinho muito gozador, por ser o único até então que se movimentava, era quem ajudava os outros em quase tudo que precisavam e pediam, teve suas tarefas divididas com o novo inquilino. O Comandante deitou-se um pouco para testar sua cama e logo aproximou-se o velhinho, que entabulou uma conversa, perguntando:
-“Seu Comandante, por que o senhor está aqui neste hospital quando poderia estar bem melhor na Marinha?”

O Comandante explicou tudo a ele e aos outros que também estavam curiosos para saber. Em seguida, o velhinho informou que no Miguel Couto as cirurgias dos membros inferiores eram feitas com a anestesia raquidiana. Nele mesmo, ao operar os joanetes, foi-lhe aplicado este tipo de anestesia. O Capitão-de-Corveta lembrando que sua mãe durante o seu parto tinha também tomado aquele tipo de anestesia e quase morreu, fê-lo ficar apavorado e querendo ir embora do hospital. Se estivesse com o pijaminha que sua mulher separou, com certeza, teria fugido de lá. Foi ao corredor e pediu a presença de um médico para solicitar sua alta, trocar os vestuários e se mandar do hospital.

Não demorou muito, apareceu um médico residente e o Comandante, muito nervoso, pediu a ele que confirmasse o que o velhinho havia dito. Diante da confirmação, o Comandante disse que não queria mais operar e pediu que lhe deixassem ir embora, pois não queria se sujeitar àquele tipo de anestesia. Mas o médico, com muita habilidade, depois de mais de meia hora de conversa, conseguiu convencer o militar de que a anestesia raquidiana era mais segura e menos desconfortável que a desnecessária anestesia geral.

Diante dos argumentos convincentes do médico, o paciente da cama 12 ficou mais tranquilo, mas não menos ansioso.

O Comandante depois de escovar seus dentes e usar o banheiro comum da enfermaria foi se deitar na tentativa de dormir, pois estava muito tenso. Pouco mais tarde, exatamente no horário nobre das novelas, quando tudo parecia calmo, os pacientes imobilizados em seus leitos começaram a gritar e chamar por um enfermeiro. Por mais que os outros dois, velhinho e Comandante, tentassem ajudar, eles queriam de qualquer maneira a presença de um enfermeiro, visto já ter passado a hora da injeção que lhes amenizava a dor e permitia que dormissem tranquilos.

O Comandante desceu da cama, saiu da enfermaria, desceu as escadas e na recepção, onde todos estavam assistindo novela, pediu a presença de um enfermeiro na enfermaria para atender aos pacientes cuja paciência tinha se esgotado e estavam numa gritaria só. A chegar de volta na enfermaria informou que tinha pedido a presença de um enfermeiro e que ele deveria vir logo, o que não adiantou nada, pois os gritos, agora de dor, eram piores ainda. Nada os fazia acalmar.

O clima era insuportável, quando surpreendentemente, chega na porta da enfermaria, uma enfermeira negra, que mais parecia uma lutadora de luta livre: alta, gorda e forte. Trazia nas mãos um clister com mais de dois litros de água morna ligado a uma mangueira de plástico transparente com diâmetro bem grosso tendo numa das extremidades um bico enorme em forma de chupeta. Mal chegou no umbral da porta, foi logo dizendo:
-“Quem é o doente da cama 12?"
Como num passe de mágica, os gritos cessaram de vez e se instalou momentaneamente na enfermaria um silêncio sepulcral, quebrado quase em uníssono pelos ocupantes dos outros leitos:

-“Ai, Seu Comandante, vai tomar um chá-de-bico, heim!” Repetido várias vezes, em tom de gozação, como nas torcidas organizadas dos jogos de futebol. O Comandante deitado, ao ver aquela lutadora de luta livre se aproximar de sua cama, com os olhos arregalados, encostou rapidamente suas costas na parede.

Tentou, numa conversa ao pé do ouvido persuadir a enfermeira a dispensá-lo daquele constrangimento, pois nem um biombo existia para resguardar a sua privacidade, diante daquela tropa que acabara de conhecer e que esperavam o desfecho sem cessar a gozação. A enfermeira, retrucou ao seu pedido, dizendo em alto e bom tom, sem complacência:
-“São normas da Casa. Aqui não tem esse negócio de Comandante, não! Depois, na hora da operação você se borra todo e quem vai pagar o pato sou eu. Desencosta da parede e vai virando esse traseiro pro lado de cá.".

Nesse momento, o rapaz engessado ajustou o seu espelho retrovisor para ver melhor a cena e o velhinho, rodando sua cadeira em velocidade, chegou mais perto da cama 12 também para ser testemunha ocular. Enfim, foi uma cena a céu aberto para uma platéia bem atenta. Finda a operação, com o Comandante correndo desesperadamente para o reservado, tudo voltou a normalidade. Os três pacientes imobilizados voltaram a gritar e a pedir pelo remédio milagroso, que só chegou e foi aplicado depois que a novela acabou.

E assim todos dormiram tranquilos e a enfermaria voltou ao silêncio, exceto o paciente da cama 12, ainda bastante envergonhado, ansioso e temeroso pelo dia seguinte. Felizmente a cirurgia foi um sucesso. O Comandante teve alta na quinta-feira, despediu-se de seus companheiros, que nunca mais soube, permaneceu uma semana de convalescença em casa, fez muita fisioterapia, passou a praticar esportes normalmente e somente depois dos 60 começou a conviver com a artrose no joelho direito, juntamente com outras dores espalhadas pelo corpo. Enfim, já entrara na era do Condor – com dor ali, com dor aqui, com dor acolá.

Autor(a): Oscar Moreira

 

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