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Após um ano vivendo entre mendigos, Yago Martins, de 27 anos, chegou à conclusão que o melhor recurso que se pode doar é o tempo

Sou pastor de uma Igreja Batista em Fortaleza, no Ceará, e muitas vezes saí com grupos para pregar e distribuir comida e roupa aos necessitados. 
Comecei a perceber que havia nas ruas pessoas saudáveis, com casa para voltar, intelectualmente capazes. Para entender melhor este universo, decidi me vestir de mendigo por um ano e dormir ao relento pelo menos três vezes por semana. Comecei no dia 1º de janeiro de 2017, um domingo. Depois do culto, fui para casa e vesti um short vermelho surrado, uma camisa apertada e um chinelo sujo. Usei a mesma roupa até o fim e ainda a deixava guardada num saco plástico, para manter o cheiro. Quando acabou, minha esposa jogou tudo fora. A primeira noite foi na Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza, onde há grande concentração de mendigos. Sentei no chão, com as costas para a parede, e fiquei pensando: “Meu Deus, vou morrer”. A primeira coisa que me chamou a atenção foi que os mendigos estavam rindo, conversando tranquilos, e o único apavorado era eu.

Boa parte da população de rua está lá voluntariamente e, apesar do desconforto, nunca falta comida e agasalho. Vários me contaram que assim se sentiam “livres”. Conheci muitos que chegaram à mendicância por desilusões pessoais, como o senhor que perdeu a mulher e, depois de uma tentativa de suicídio, teve vergonha de voltar para a família e se acomodou na praça. Um dos mendigos era formado na Universidade de Brasília e tinha até livro publicado. Experimentei o humilhante exercício de pedir esmolas e percebi que, sim, as pessoas dão dinheiro. Sem contar nenhuma história triste, dá para tirar um salário mínimo por mês. Com um bom drama, até o dobro. O grupo mais miserável é o dos idosos, crianças e mulheres. A vida na rua para eles é muito pior do que para os homens jovens. As mulheres são estupradas com frequência, puxadas pelo braço e levadas para algum canto escuro. Estas pessoas sofrem privações graves e precisam de alívio imediato. 
Mas também tem muito parasita da miséria, pessoas que drenam os recursos oferecidos pelos grupos de caridade mesmo sem precisar deles. Essa turma tem, na verdade, ampla capacidade física e psicológica para o trabalho. Seguem na rua porque preferem não se comprometer com um rotina que, naturalmente, envolve sacrifícios.

Sou pós-graduado em economia e alinhado à direita. Fui para a rua com a certeza de que iria provar que o setor público não serve para nada e que a caridade privada é tudo de bom. Descobri que esta filantropia pode ser tão inútil quanto um programa assistencialista mal feito. Os parasitas se programam para o dia do sopão católico, da janta evangélica, do cachorro quente espírita. Quando algum grupo distribui marmitas variadas, os espertos dispensam a primeira, porque gostam mais da segunda. Tive contato com crianças alugadas para pedir esmola. Conheci até um rapaz que chegava de Honda Civic, estacionava longe e ia ganhar seus trocados como flanelinha.  

Quem vai para a rua distribuir roupa e comida sem critério, em busca de um momento de prazer moral, na prática alimenta os parasitas e desvia a atenção dos vulneráveis que efetivamente precisam de ajuda. A verdade é que ninguém está nem aí para o miserável. Ninguém nem olha para ele. Aconteceu duas vezes de amigos meus passarem por mim vestido de mendigo e não me reconhecerem, como se eu fosse parte da paisagem, apenas outro morador de rua. Ajudar um grupo sem rosto é muito mais fácil do que se dar ao trabalho de conhecer a pessoa. Depois desta experiência, passei a defender que a caridade útil requer que se sente no chão com o necessitado para entender o quê, exatamente, ele precisa. O melhor recurso humano que se pode doar é o tempo.

Autor(a): Maria Clara Vieira
Fonte: veja.abril.com.br
Colaborador(a): Raimunda Muniz

 

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