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A CENSURA TANTO RASPA ATÉ QUE FURA
publicado em: 26/04/2019 por: Lou Micaldas

O argumento dos que defendem a censura a gravuras do século 19, ilustrações pedagógicas e centenários contos infantis é o mesmo que norteou o Concílio de Trento

No século 16, o papa Pio V mandou cobrir as indecências do Vaticano com véus e folhas. Não as indecências em si, para as quais não haveria pano ou parreira que bastassem, mas a representação de genitálias em telas, afrescos e esculturas. Até o Juízo Final, no teto da Capela Sistina, entrou na dança. Três séculos depois, Pio IX, também fazendo jus ao nome, foi além e ordenou a castração de várias estátuas. Afinal, é mais fácil impor a castidade e a modéstia ao mármore, ao gesso, ao óleo, que à carne — ou ao espírito.

No Brasil do século 21, é a vez de o presidente da República arrancar de uma cartilha as páginas com ilustrações sobre higiene íntima feminina e uso de preservativo. Como no acervo da Santa Sé, o índice de concupiscência ali é zero. Mas a alma humana é uma pirambeira e quando os pios e os messias têm contas a acertar com seus fantasmas, quem paga o pato são a arte e a saúde pública.

O obscurantismo, claro, não é privilégio de uma religião ou ideologia. Galerias de arte e um hotel de luxo estariam retirando das vistas do público obras que retratam a escravidão. Debret vai para o castigo no depósito pelo crime de pintar e desenhar o seu tempo, com os olhos de um homem do seu tempo.

Esconder os relatos visuais da escravidão não irá eliminá-la da História. No máximo, permitirá que se reescreva o passado ao gosto de freguês — exatamente como, no polo oposto ao das causas identitárias, já se começou a fazer com a ditadura militar. Quadros no porão não combatem o racismo, assim como folhas, pintadas ou rasgadas, jamais abolirão a pulsão sexual.

Os gregos tinham um nome perfeito para isto: palimpsesto — o papiro ou pergaminho cujo texto era raspado para que o material fosse reutilizado. Hoje o papiro é a História; o puritanismo, o negacionismo e o politicamente correto são a rasura.

Palimpsesto é o que se tentou fazer com Monteiro Lobato, expurgando seus livros em vez de se escrever uma obra nova. É o que fez recentemente um autor que alterou os próprios textos para adequá-los à mentalidade “menos preconceituosa” de agora. E acaba de acontecer numa escola de Barcelona, da qual cerca de 200 livros (entre eles, “Chapeuzinho Vermelho”, “A Bela Adormecida” e “Cinderela”) foram retirados por “reproduzir padrões sexistas”.

O argumento dos que defendem a censura a gravuras do século 19, ilustrações pedagógicas e centenários contos infantis é o mesmo que norteou o Concílio de Trento. A nudez induziria ao pecado; pessoas expostas a “representações fortemente estereotipadas” (mulheres em papéis secundários, negros subjugados) teriam dificuldade para desenvolver uma cidadania plena. Toda essa toxicidade precisaria ser combatida — não com informação e debate, mas com o apagamento, um processo que, noutra escala, levou os talibãs a dinamitar os Budas de Bamiyán e papas piedosos a decepar pintos de pedra.

Na contramão desse processo, o Museu do Holocausto continua expondo imagens cruas da barbárie para evitar que ela seja esquecida. Goya nos lembra dos desastres da guerra; Sebastião Salgado, da vida dura dos carvoeiros e dos garimpeiros de Serra Pelada. E Coubert, da origem do mundo.

Ainda bem, porque o higienismo racial e de gênero pode não ser o fim dessa picada. Ninguém garante que antitabagistas não venham a querer apagar os charutos de Groucho, Freud e Churchill e transformar em cinza o cigarro nas mãos de Hannah Arendt e Clarice Lispector — ou mesmo o cachimbo (que não era um cachimbo) de Magritte. Que os veganos, quando dominarem o mundo, não ponham abaixo as estátuas equestres ou se contentem com libertar os cavalos de sua submissão de bronze, deixando nos pedestais nossos heróis de pernas grotescamente arqueadas.

Consta que um museu britânico mantinha de plantão, na era vitoriana, uma folhinha de metal destinada a tapar as vergonhas do acervo caso alguma rainha ou princesa aparecesse por lá. Assim, evitava ao mesmo tempo ferir o decoro e danificar as obras. Podia-se pensar em algo parecido para Debret, os contos de fadas e a Caderneta de Saúde da Adolescente. Por melhor que seja o palimpsesto, de tanto rasurar, um dia ele fura.

Autor(a): Eduardo Affonso
Fonte: oglobo.globo.com/opiniao/a-censura-tanto-raspa-ate-que-fura-23621849
Colaborador(a): Maria Clara Ribeiro dos Santos

 

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