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A VIDA NÃO É FILME – OU É?
publicado em: 29/05/2019 por: Lou Micaldas

Não basta um mestrado e um doutorado reais na Unicamp — é preciso um diploma ‘feique’ de Harvard

O cinema vive de histórias bem contadas. Do conflito entre protagonistas carismáticos e antagonistas com pegada, coadjuvantes que roubem a cena e figurantes que não se limitem a fazer figuração. Some-se a isto um diretor iluminado, fotografia caprichada, diálogos afiados, montagem esperta. Trilha nos trinques, figurino como manda o figurino, cenários literalmente de cinema — e grana para bancar tudo isso.

Tem que haver, claro, um arco dramático e uma virada de roteiro (que em português se chama plot twist ). É aquele momento em que os neurônios do espectador levam uma rasteira e dão um murro (sabe-se lá onde) exclamando “burro! burro!”. Se os neurônios não se sentirem enganados em algum momento, o filme não terá valido o ingresso.

Mas no cinema é tudo mentira. A gente sabe disso, e compra essa mentira junto com o saco de pipoca e o balde de refrigerante — e desapega de si, feliz de viver outra vida por uma hora e pouco.

Por isso gostamos tanto de filmes de superação — esses em que o sujeito leva uma porrada atrás da outra, vai à lona, e, quando o lanterninha já está com o dedo no interruptor para acender as luzes, nosso herói se ergue e consegue virar o 7 x 1 que a vida (ou o roteirista) armou para ele. Aí vibramos como se fosse nossa a vitória alheia.

Um filme com todos esses ingredientes estava em gestação e será uma pena se o abortarem.

Tinha uma protagonista e tanto: a menina pobre, preta, filha de empregada doméstica, que estuda com afinco e ingressa numa das melhores universidades do país. Ali se gradua, se torna mestra e doutora. Inspirada, talvez, pela profissão do pai (que trabalhava num curtume), desenvolve pesquisas para que resíduos de couro não poluam o meio ambiente.

Este nosso Brasilzão era ao mesmo tempo a maravilha de cenário, com seus contrastes e contradições, e o antagonista, com sua sociedade permeada de racismo e machismo estruturais. Contra tudo e contra todos, nossa heroína (que tinha mesmo nome de heroína) vencia no final e ajudava a mudar a história de muita gente.

Para dar vida a esta personagem, ninguém melhor que uma atriz também militante das causas feminista e antirracismo, e que viveu na pele a intolerância (teria havido quem mudasse de calçada ao passar por ela).

Isso era o que constava da sinopse, até o roteiro receber um tratamento de choque de realidade. E um plot twist .

A atriz principal foi discriminada novamente pela cor da pele (na rua, era por não ser clara; na tela, por não ser escura). Descobriu-se que o excelente currículo da heroína apresentava licenças poéticas: a adolescente entrara para a universidade já maior de idade. Os estudos no exterior tinham sido no interior de São Paulo. Não houve a volta ao Brasil por não ter havido sequer a ida. O diploma de pós-doutorado era de brinquedo (mais ou menos como os de Dilma, Damares, Salles, Witzel).

A desmontagem da narrativa irá queimar o filme? Será melhor enveredar pela ficção, como em “Marighella”? Vir com a legenda “Baseado em fatos irreais”? Ou se enriquecer com as novas camadas, as histórias dentro da história, o filme dentro do filme?

Esta cinebiografia precisa acontecer. É uma metáfora do país que saiu da miséria, venceu desafios, conseguiu feitos notáveis, e caiu nas armadilhas que espalhou para si mesmo e se enredou nas próprias mentiras. Porque, por motivos insondáveis, a verdade não nos basta. Não basta um mestrado e um doutorado reais na Unicamp — é preciso um diploma feique de Harvard. Não basta escalar uma atriz de talento: é preciso que ela se enquadre na escala Pantone.

Nos acostumamos, em uma década e meia, a conviver com a mitificação e a mistificação. O responsável pelo maior caso de corrupção da nossa história é “a alma mais honesta do país”. A militante que foi um zero à esquerda na resistência à ditadura sagrou-se um “coração valente”. Habituamo-nos tanto à mitomania — a grávida de Taubaté, a autoflagelada de Porto Alegre, a superempresária de São Paulo — que acabamos por eleger um Mito, alguém capaz de governar sem ter que dialogar ou fazer política...

O Brasil nunca teve uma chance como esta de fazer um filme tão autobiográfico, tão oportuno, tão necessário. Tomara que não a desperdice.

Autor(a): Eduardo Affonso
Fonte: oglobo.globo.com/opiniao/a-vida-nao-filme-ou-e-23689606
Colaborador(a): Raimunda Muniz

 

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