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Em entrevista ao G1, José Augusto Vagos falou sobre a transferência do ex-governador após discussão em audiência com juiz: 'Ameaça embutida de uma forma bastante arrogante'.

José Augusto Vagos, de 46 anos, é um dos nove procuradores que fazem parte da força-tarefa da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro. Está desde 1997 no Ministério Público Federal, atuando sempre na área criminal. Em entrevista exclusiva ao G1, ele criticou o ex-governador Sérgio Cabral, preso condenado por corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa, e réu em 16 processos.

É a primeira vez que um procurador da Lava Jato fala sobre o episódio ocorrido na última segunda-feira, quando Cabral bateu boca com o juiz Marcelo Bretas em seu depoimento.

"Uma ameaça embutida de uma forma bastante arrogante. De alguém que transparece que ainda detém ou acha que detém um poder que não deveria detê-lo", disparou Vagos.

O procurador também se manifestou sobre a situação de investigados que ganharam o direito à liberdade pela Justiça. Um deles, o caso do empresário de ônibus Jacob Barata Filho. Sem citar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, responsável pela soltura do acusado, José Augusto Vagos afirmou:
"Fatos contemporâneos de uma propina que chegou a R$ 144 milhões (...) Se isso não é suficiente para manter uma pessoa segregada em prol da produção de provas e da aplicação da lei penal, acredito que nada mais seja".

Sobre os próximos passos da Lava Jato no Rio, preferiu desconversar: "Se eu disser, vou atrapalhar a nossa estratégia de investigação".

O G1 entrou em contato com as defesas de Sérgio Cabral e Jacob Barata, que não haviam se posicionado até a última atualização desta reportagem.

Bate-boca entre Cabral e Bretas

"(O Cabral) Passou ao juiz (Bretas) uma ameaça embutida de uma forma bastante arrogante. De alguém que transparece que ainda detém, ou acha que detém, um poder que não devia detê-lo. Essa medida de segregação fora do Rio de Janeiro (tranferência para um presídio federal) foi para fazer justamente com que esse acusado não tenha as informações que o façam ter tanta arrogância. É uma arrogância ameaçadora até. O que pareceu (no depoimento) foi que o Sérgio Cabral se pôs na posição de quem não estava querendo esclarecer os fatos à Justiça. Mas, sim, querendo confrontar. Como interrogado, ele tem direito ao silêncio. Porém, é uma oportunidade para se defender e contar a versão dele dos fatos. Não para confrontar o juiz e trazer questões da vida particular do familiar do juiz. É uma posição de confronto e claro que pode estar embutida a ameaça. O juiz se sentiu ameaçado. O desembargador Abel Gomes fundamentou (a transferência) não só com a postura do Sérgio Cabral na audiência. Mas até com a ação de improbidade que foi feita contra o filho dele (deputado federal Marco Antônio Cabral) pela visitação (no presídio) fora do controle."

Tamanho do esquema

"A gente recebeu os termos de colaboração que foram feitos com os empresários da Andrade Gutierrez. Já sabíamos que, em relação às obras públicas, era dissemidada a regra do jogo da cobrança dos 5% (de propina). Mas não sabíamos naquele momento que essa prática era praticamente para todos os contratos de maior vulto do estado do RJ, incluindo a Secretaria de Saúde e a Secretaria de Transportes. Ou seja: as secretarias de maior orçamento. Foi muito além daquela informação inicial que nós tínhamos sobre desvios de dinheiro em obras públicas. Realmente surpreendeu."

A maior surpresa

"Foi na Operação Calicute, que, em dezembro no ano passado, nós investigamos se havia contas bancárias do Cabral no exterior. Fomos surpreendidos porque ele não tinha apenas uma conta. Ele tinha várias contas no exterior e com uma quantia de US$ 100 milhões. A gente não esperava US$ 100 milhões para um ex-governador. O cabral começou com uma conta com US$ 2 milhões, em Nova Iorque, e terminou o mantato de governador, em 7 anos, com US$ 100 milhões. Nem o mais incrédulo dos procuradores esperavam isso."

Barata solto

"O caso do (ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro Carlos Arthur) Nuzman impressiona mais pela exposição do país como ele expôs. Mas o caso do (empresário Jacob) Barata era uma corrupção que até pouco tempo atrás havia pagamento e recolhimento de caixinha para o ex-governador mesmo depois do fim do mandato. Fatos contemporâneos de uma propina que chegou a R$ 144 milhões, fora os outros R$ 40 milhões para o presidente do Detro. Fatos que vieram à tona com planilhas entregues por colaboradores fidedígnas, com perícias, criadas antes da Lava Jato. Sem contar as outras provas que temos. Eram pagamentos de propina até 2016. Se isso não é suficiente para manter uma pessoa segregada em prol da produção de provas e da aplicação da lei penal, acredito que nada mais seja. Se você conseguir me trazer um fato mais grave do que esse para efeito de uma prisão preventiva... acho difícil."

Dificuldade nas investigações

"Denunciamos mais gente solta que presa. Já existe uma triagem aí. Hoje, na Lava Jato, existem acusados que foram soltos pelo juiz porque ele entendeu que não havia necessidade. Há também os que nós pedidos a soltura e, outros, que foram soltos em instâncias superiores. Faz parte do jogo. Não tenho o que criticar em relação a isso. Mas especificamente no setor de transportes, em que as propinas em apenas duas denúncias chegaram a R$ 200 milhões, com essas pessoas dominando a RioÔnibus, a Fetranspor e as próprias empresas de ônibus e que já recolhem essa caixinha, no mínimo, desde a década de 1990, seriam elementos fundamentais para as investigações avançarem. A atuação deles não se esgota apenas no Rio, mas fora do país. Algo que a soltura atrapalha bastante produção de provas para tentar ampliar esse leque."

Balanço da Operação Lava Jato no Rio

"Tivemos resultados efetivos. Uma produção em larga escala de informação. Não só decorrente de colaborações premiadas, mas também por quebra de sigilos telefônico e fiscal. As colaborações acabaram abrindo os caminhos. É uma experiência nova que a gente consegue produzir muita prova de qualidade e que tem gerado essa profusão de operações. É uma gama de operações que só foi possível graças a essas colaborações. Pelas provas que foram produzidas a partir delas, podemos considerar que trabalhamos 20 anos em um ano. Tenho 20 anos de Ministério Público Federal. Em um ano, foram mais de 20 operações no Rio de Janeiro. E isso tem gerado uma resposta muito boa do judiciário. As denúncias têm sido todas recebidas (pela Justiça). Os pedidos de prisão têm sido proferidos. Vamos ampliar cada vez mais."

Rotina de procurador

"Não existe fim de semana e feriados. Ficamos discutindo os caminhos e as estratégias 24 horas por dia nos sete dias da semana. Isso é fundamental porque o porte dos fatos a serem investigados é frenético. Se não fizer dessa forma, não vai ter um bom resultado. São 12 horas de trabalho por dia presencialmente na Procuradoria. Mas toda hora falamos pelo (aplicativo de celular) Telegram em tempo real."

Segurança

"Prefiro não responder a perguntas sobre segurança. Mas temos preocupação com a segurança na Lava Jato no Rio. Uma das formas de diminuir os riscos é justamente não revelar que tipos de elementos temos de resguardo."

Eleições 2018

"Se o status quo em nível eleitoral e de política pública não for agora, não será nunca. Pelo menos na minha geração. A oportunidade que se está tendo agora da sociedade ver como o sistema está corrompido... se a sociedade achar que não é o momento de se ter essa transformação agora, não vai achar tão cedo. "

Autor(a): Cássio Bruno, G1 Rio
Fonte: https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/ainda-detem-ou-acha-que-detem-um-poder-que-nao-deveria-diz-procurador-da-lava-jato-sobre-cabral.ghtml

 

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