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De apenas 19 anos, Aline Goder relata medo e solidariedade para ajudar socorristas

RIO — Quatro horas e treze minutos. Foi este o curto intervalo que a brasileira Aline Goder tirou para dormir entre duas operações de socorro a zonas atingidas pelos incêndios florestais nesta segunda-feira em Portugal. Ela chegou às 06h47 à sua base e saiu de novo às 11h, em direção à cidade de Leiria, para salvar vidas e casas num trabalho incansável e de muita dedicação. A jovem, de apenas 19 anos, relata o clima de apreensão e a destruição no norte do país, onde pelo menos 31 pessoas já morreram em decorrência do fogo. É um dos mais graves incêndios que os portugueses já experimentaram nos últimos anos, e a população se divide entre o medo e a solidariedade para combater as chamas.

Originária de Nova Londrina, no Paraná, Aline se mudou para Portugal há nove anos, ainda na infância. Aos 17, resolveu se inscrever para os bombeiros voluntários, que prestam um serviço de peso em situações de emergência, inspirada no trabalho de uma amiga. Desde então, ela diz, a profissão virou a parte mais importante da sua vida, à qual se disponibiliza 24 horas por dia. Agora, num momento de emergência, sua dedicação se redobra para ajudar a todos que estiverem ao seu alcance. Já até perdeu as contas de quantas horas trabalhou nos últimos dias. A caminho de mais uma zona afetada, numa estrada completamente envolta pelas nuvens negras e eucaliptos queimados, ela contou ao GLOBO como a população está reagindo ao drama:

— Está muito complicada a situação. Muita gente perdeu a casa. Houve mortes e gente desaparecida. Muita coisa queimou e tem muito para ver ainda — disse. — Todos estão muito, muito assustados. Muitos choram e nos imploram por ajuda. Mas eles também nos ajudam: sentem que a gente faz um trabalho sério e querem participar. A gente permite, desde que não haja ninguém em risco, porque juntos todos fazem um trabalho melhor. Ontem, fomos a uma localidade e a recepção da população foi incrível para nos ajudar: entregamos nosso material na mão deles e eles conseguiram apagar o fogo com a gente. Também ofereceram água, comida e frutas. É a forma que têm de nos agradecer pelo nosso trabalho.

Ao menos 31 pessoas morreram em Portugal em decorrência da onda de incêndios sem precedentes, informou a Proteção Civil portuguesa nesta segunda-feira. Outras quatro perderam a vida na região da Galícia, na Espanha. A situação é considerada "crítica", no momento em que o furacão Ofélia avança pelo Atlântico com ventos fortes, que fazem as chamas se alastrarem com mais rapidez. Em solo português, 440 focos de incêndio estavam ativos no domingo, considerado o "pior dia desde o início do ano", segundo a porta-voz da Agência Nacional de Proteção Civil, Patricia Gaspar. O país ainda se recupera do grande incêndio de junho, que deixou 64 mortos e 200 feridos, no qual Aline também atuou nas operações de socorro.

Moradora de Cascais, Aline trabalha na região do Estoril, perto de Lisboa. Não só atua como bombeira profissional e assalariada, mas também, nas horas vagas, se disponibiliza para ajudar no grupo de bombeiros voluntários do país. Ela explica que há muita mobilização de socorristas e de civis para combater as chamas, mas ainda é pouco diante da gravidade da situação.

— Tem mais de mil bombeiros trabalhando. Mas não é suficiente e nunca vai ser. Porque, aqui, parte dos bombeiros são voluntários e têm as suas vidas. Nem sempre podem abandonar o seu trabalho, porque têm filhos e famílias para sustentar — disse, relatando que muitas pessoas já tiveram que deixar as suas casas para escapar das chamas: — Alguns pontos abrigam as pessoas para que possam se organizar, tomar banho e, então, tentar um novo recomeço, o que é muito difícil, porque a situação financeira de Portugal não é das melhores. Mas quando a situação se abranda, tudo melhora, até porque as pessoas são muito unidas. Elas sempre mandam roupas, comida e água para os afetados.

Com a emoção transbordando na hora de falar sobre a profissão, a que chama de maravilhosa, Aline conta que a sua rotina em momentos como este é de desafios. Os salvamentos são uma forma de retribuir ao país que a recebeu muito bem e onde se formou como pessoa; e, por isso, ela quer dedicar toda a carreira à profissão e evoluir no corpo de bombeiros, conta.

— Às vezes, temos fraquezas emocionais, mas temos que demonstrar aos afetados que somos capazes de ajudá-los no que precisarem. Porque sofremos muito, e há coisas que não podemos falar nestas situações. Sempre respiramos fundo e vemos que somos profissionais: deixamos de lado este lado emocional, que é muito forte — relata. — Criei amor por este lugar e quero me dedicar, por mais que passemos dificuldades. Foi aqui que criei a minha história, e minha forma de agradecer é contribuir nessas horas. Tenho muitos sonhos dentro de mim, mas sempre dentro desta área. Quero morrer como bombeira.

Autor(a): Heloísa Traiano
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Ana Lucia

 

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