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CARTA A BOLSONARO SOBRE OS ÍNDIOS
publicado em: 11/12/2018 por: Lou Micaldas

Aquilo que era mitologia revela, hoje, atualidade que tangencia a da ciência, na contramão do negacionismo com que o senhor acena

Senhor presidente eleito: li suas mais recentes declarações sobre os povos indígenas. Nelas o senhor pergunta por que, no Brasil, devemos “mantê-los reclusos em reservas como se fossem animais em zoológicos”. Palavras que sugerem estarem os índios atrás de jaulas. Ora, um índio, quando em sua terra, vivendo segundo seu modo, e estando os rios limpos, a fauna e a flora preservadas, é o homem livre por natureza. Nessas regiões, está provado, sua presença garante a sobrevivência da cobertura florestal e das espécies. Sua escolha é estar ali.

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O que torna o índio cativo, presidente, é a integração forçada, é a invasão, são os massacres, são as doenças, que, desde o encontro com a chamada fronteira branca, dizimaram a maior parte das populações. Mesmo assim, um milagre ocorreu no Brasil: a Constituição de 1988, que fez 30 anos em setembro, trouxe avanços capitais no ordenamento sobre o meio ambiente. Em especial, sua atenção aos direitos dos indígenas, que caminham para somar um milhão de pessoas (metade em áreas rurais). O país está na vanguarda de um preservacionismo impulsionado pela cultura de povos que consideram a floresta sinônimo do mundo, e, seu fim, a hecatombe derradeira.

Tais visões cosmológicas — como a do povo ianomâmi — convergem sua ancestralidade com o que há de mais moderno no ambientalismo. Ou seja, aquilo que ontem, preconceituosamente, era considerado mitologia primitiva revela, hoje, à luz do antropoceno (era em que a ação humana passa a impactar a própria sobrevivência) uma atualidade que tangencia a da ciência (na contramão do negacionismo com que o senhor acena, e que seu futuro ministro agora confirma).

Curiosamente, talvez a única contribuição positiva do governo Collor tenha sido a de reconhecer os 9,6 milhões de hectares dos ianomâmis, maior área contínua demarcada do mundo, de alta relevância para a biodiversidade amazônica. Algumas regiões, como Demini, em Roraima, são guardadas por tribos que ainda têm pouco contato com a cidade. Convivi com eles. São indivíduos que caçam com arco e flecha, são homens e mulheres que apanham peixes com as mãos do fundo do igarapé utilizando plantas de poder inebriantes, e que falam sua própria língua. Lutam para manter seus usos, apesar de as novas gerações vencerem o difícil acesso, irem à cidade e voltarem com cabelo cortado à Neymar.

Se sua ideia de seduzir as populações indígenas com participação em empreendimentos que destroem suas moradas prosperar, o que resta dessa liberdade será subtraído em prol da platitude da monocultura extensiva, das usinas ou da mineração “canibal” (como chamam os ianomâmis). Aí, sim, eles serão animais de zoológico, zumbis amalgamados na selva de pedra e de metal.

Quando o senhor, presidente eleito, diz que o índio é um ser humano igual a “nós”, esquece-se de que ser humano, para ser igual, implica ser diferente segundo suas especificidades, e igual dentro da pluralidade. Que cada cultura traz diversos tratos com o mundo, com o social, com o ambiental. E que a resultante de diferentes vetores é que faz o mundo avançar na direção da luz, inclusive para os que creem que Deus está na proa.

Atenciosamente.

Autor(a): Arnaldo Bloch
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Carlos Henrique de Souza

 

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