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INFORMAÇÃO / ARTIGOS

DEUS, LSD E POLÍTICA
publicado em: 01/02/2018 por: Lou Micaldas

Alguns eleitores alucinam e veem Deus em seus ídolos partidários

“Na primeira vez que tomei LSD, eu senti um enorme bem-estar, senti que existia um Deus, e eu poderia vê-lo em cada folha da grama.”
George Harrison

Os testemunhos do beatle George Harrison sobre a degustação de ácido lisérgico são conhecidos. No final dos anos 1960, ele e seus colegas de banda se aventuraram por veredas de químicas alternativas. Entre uma viagem e outra, viajaram fisicamente para a Índia, que seria eleita o berço ancestral da espiritualidade hippie e se tornaria um lucrativo roteiro turístico. Na percepção alterada do guitarrista Harrison, a cítara, o rock and roll, os efeitos alucinógenos e a divindade celebrariam uma síntese harmônica. Seu depoimento a respeito é poético, embora sutilmente brega:

“Na primeira vez que tomei LSD, eu senti um enorme bem-estar, senti que existia um Deus, e eu poderia vê-lo em cada folha da grama.”
George Harrison

Os testemunhos do beatle George Harrison sobre a degustação de ácido lisérgico são conhecidos. No final dos anos 1960, ele e seus colegas de banda se aventuraram por veredas de químicas alternativas. Entre uma viagem e outra, viajaram fisicamente para a Índia, que seria eleita o berço ancestral da espiritualidade hippie e se tornaria um lucrativo roteiro turístico. Na percepção alterada do guitarrista Harrison, a cítara, o rock and roll, os efeitos alucinógenos e a divindade celebrariam uma síntese harmônica. Seu depoimento a respeito é poético, embora sutilmente brega:

“Eu conseguia ver a seiva correndo pelas árvores e todo o resto, e eu sabia que existia algo como um Deus. De repente, senti-me feliz por estarmos todos conectados a essa energia... A energia dentro de mim e a energia dentro de você é a mesma... e eu conseguia ver que o espaço entre nós estava zumbindo!”.

Não posso aqui recomendar que você tente ver tudo isso com seus próprios olhos. Não posso, não devo e nem quero fazer apologia de “estupefaciências” pop. Mas se, mesmo assim, você quiser ler tudo isso com seus próprios olhos, procure o livro A biografia espiritual de George Harrison, de Gary Tillery (Editora Madras, 2012) e vá direto à página 56. Para quem se interessa pelos garotos que ficaram “mais famosos do que Jesus Cristo”, a leitura, deveras viajante, terá serventia.

Ele descreve uma experiência de natureza mística, próxima àquilo que os budistas chamariam de “iluminação”. O roqueiro fala em visões transcendentalíssimas, que lembram passagens sagradas de incontáveis religiões, como aquela em que um perseguidor de cristãos, durante uma viagem a cavalo, é ofuscado por uma inexplicável luz incandescente, cai da sela, escuta a voz de Jesus Cristo e se converte no santo de nome Paulo. A seu modo, e com seus próprios recursos vocabulares, viveu ali sua iluminação e se transformou para sempre, como ele mesmo diz.

Aí você pergunta: mas será verdadeiro o relato? Será que o autor do livro diz a verdade? Será que Harrison não exagerou nada com essa conversa de seiva, zumbidos no espaço, Deus e folhas de grama?

Bem, a esta altura, é ridiculamente impossível checar se o que Harrison e seu biógrafo escrevem pode ser levado a sério. Ele viu mesmo o que diz ter visto? Viu Deus na grama? E, se é verdade que ele viu, será que o que ele viu existe de fato? Não há como responder. O que podemos fazer, e isso realmente vale a pena, é especular sobre o conceito de Deus que ele tinha na cabeça.

Para ele, Deus está na unidade sem discrepâncias, mais ou menos como um acorde perfeito; Deus é pacificação, uma teia de laços aconchegantes unindo todos os elementos dispersos, como num abraço cósmico. Para George, Deus, quando se deixa ver, deixa ver também o mistério do mundo, em divina transparência. O Deus do LSD não mente jamais.

É claro que, outra vez, é ridiculamente impossível verificar a autenticidade dessa verdade, a verdade lisérgica. Seivas metafísicas, ressonâncias inaudíveis da matéria escura, gramíneas sacrossantas – não há como comprová-las, assim como não há como refutá-las de pronto. Resta-nos apenas crer, botar uma fé, aceitar que laços de fraternidade irmanam os seres num pacto de paz, harmonia e, essencialmente, verdade – verdade, porém, que não pode ser avaliada pelas verificações que a razão gosta de fazer. Deus dispensa a razão. Deus dá barato.

É assim que, com todo o respeito que tenho por George Harrison, concluo que o Deus que ele viu pelas lentes de uma substância alucinógena é a expressão fiel do senso comum: uma força, digamos, superior, transparentemente traduzida em honestidade, em boas intenções e sobretudo em verdade, uma verdade que banha a tudo, dos vegetais à poeira das estrelas, dos gurus indianos aos políticos brasileiros.

Epa. Chegamos aqui ao ponto mais difícil: os políticos brasileiros e seus eleitores, ou seja, nós mesmos. Leio numa pesquisa que, para 72% de nós, o principal critério para a escolha de um candidato é a “honestidade”. Fico perplexo: se os mais corruptos são os campeões de voto, como o eleitor pode acreditar que vota pela honestidade?

Por profissão, aprendi a duvidar dos políticos. Hoje, duvido igualmente de eleitores que não precisam de LSD para alucinar, que veem Deus em cada fio de cabelo de seus ídolos partidários e que, depois, quando se desiludem, não se emendam. O senso comum de George Harrison era menos mistificador.

Autor(a): Eugênio Bucci - jornalista e professor da ECA-USP
Fonte: Revista Época
Colaborador(a): Regina Félix

 

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