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INFORMAÇÃO / ARTIGOS

DO FIM PRA FRENTE
publicado em: 01/11/2017 por: Lou Micaldas

O Brasil é um grito no escuro, um tiro no livro, uma obra em progresso?

1) A indecisão: decretar falência ou inaugurar um novo tempo? O que temos pela frente além de uma terra arrasada por dados e eventos esmagadores? Temos a vida, sussurram vozes sábias através das brechas. A vida, aquela que não cessa enquanto não acabarem com todos. Enquanto restar apenas uma, tudo pode ser renovado. Somos acidentes postergando o fim. Somos náufragos à deriva por cinco meses até sermos encontrados. Somos versos de um poema antigo, existências sibilantes entre a “rubra luz do archote sobre suadas faces após o gelado silêncio nos jardins, após a agonia em pedregosas regiões”.

2) A tentação de aceitarmos a derrota completa é imensa. Mas afinal, o que se perdeu? O que se perde quando direitos são esmagados em prol de uma miopia que rejeita qualquer alteridade? Ataques sucessivos de todos os lados nos fazem reagentes paranoicos, produzem lamentos coletivos e fazem a gengiva doer com filetes de sangue entre dentes. As palavras e as coisas já se romperam há muito. Escrever se torna um exercício de tentativa e erro, já que apenas o que aceitamos é visto como um texto. O que não concordamos se torna um amontoado de letras sem lógica. E o que concordamos? Onde se encontra o cerne do sentido? Ou tudo isso é uma grande perda de tempo e devemos entregar os pontos? Estique a mão (faça isso, não custará nada) e pegue um livro perto de você. Lembre que as palavras significam, sim, algo além do que queremos tirar delas. A poesia continua sendo a única forma de respirar quando nos tornamos uma república de assassinos.

3) Quando sinto a água subindo até o pescoço, lembro de um poema de Ana Cristina Cesar: as mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios. Creio que já passou da hora de desistirmos de afundar navios. Mesmo que os comandantes com sondas e olhos dourados de ódio sigam navegando em direção ao iceberg que destroça diariamente a existência de tantos, tudo já extrapolou as ações dos senhores e senhoras nesses teatros de horrores. Na terra arrasada, viceja a vontade de resgatar os náufragos. Inventar outros mares, ouvir ao menos uma vez as mulheres e crianças que sempre precisaram se salvar sozinhas (esse texto é gago, é estranho, escrito com febre, suor e delírio).

4) O Brasil é um objeto de um abjeto desejo de destruição ou um sonho de felicidade mastigado dentre as presas de um poema que fala de rosas abstratas? O Brasil é um soneto corrompido em prol de um concreto mal resolvido ou um desejo de dó sustenido em eterno retorno que não sabemos parar de tocar? O Brasil é um grito no escuro, um tiro no livro, um congresso internacional do medo, um abismo, uma esperança, uma tristeza, uma morte lenta, uma obra em progresso?

5) Sempre que bate o desespero devemos ouvir as músicas que nos ensinaram a verdade: está tudo solto na plataforma do ar. Tudo pode acontecer porque a derrota de um projeto de modernidade é a derrota de UM projeto de modernidade. E os outros muitos que nem projeto podem ser? São aqueles que vivem em pura ação, em puro fluxo de vida inventiva, sem precisar projetar nada. A vida tem horizontes largos ou curtos, dependendo de onde se está. O horizonte de voltar vivo pra casa. O horizonte de conseguir pagar a conta do fim do mês. O horizonte de não matar nem morrer. Qual o projeto de modernidade que temos em curso? Aliás, qual futuro é possível? Tudo isso angustia muitos que atravessaram o século XX desejando a história como salvação individual e coletiva. Percebe-se, porém, que até a história é um privilégio para poucos. Se sentir parte de um projeto coletivo é apenas para aqueles que são parte de uma sociedade. A escravidão destruiu a história brasileira. A escravidão destruiu tudo e segue destruindo um século depois. Não resolvemos nossas cicatrizes básicas. Não prendemos torturadores. Deixamos o mal enraizar em todos os níveis, gerações e lugares. Somos invasores do alheio. Somos há muito o colapso em curso.

6) Só que a vida é assim. É justamente na falência absoluta que tudo irá mudar. Pergunte aos mais jovens o que eles acham e eles dirão que nem começaram. Se a sensação de fim bate na porta, se agarrem aos que não sabem o que é o fim. Sem projetos. Sem medos. Eles são as ideias abstratas que, de tanto gritar, tornam-se concretas. Proclamar o fim da reclamação. Superar a depressão. Esmagar a melancolia. Inventar algo onde menos se espera. O quê? Não sei. Só escrevo. Aliás, nem sou eu quem escreve. É a febre. O delírio. O suor na testa. Escrevo em cima do hipopótamo. Escrevo dentro da noite veloz. Escrevo contra o inimigo medo e Torquato. Escrevo abraçado ao porco de Hilda. Escrevo com a peixeira que corta e conta. Desafio Demente, essa tal de vida no Brasil.

7) A frase que dá título a essa coluna é do imenso profeta urbano Cabelo. Do fim pra frente. Só assim transformamos nossa terra arrasada em terra prometida.

Autor(a): Fred Coelho
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/do-fim-pra-frente-22016601
Colaborador(a): Raimundo Seixas

 

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