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INFORMAÇÃO / ARTIGOS

ENTRE XANGÔ, MADUREIRA E O BODE
publicado em: 17/07/2018 por: Lou Micaldas

As muitas histórias que o carnaval vai apresentar no ano que vem, numa época em que os patrocínios estão minguados

No comecinho do século XXI, as coisas estavam feias para as escolas de samba, em relação aos enredos apresentados. Na ânsia por patrocínios, as agremiações não tinham o menor pudor em desfilar maluquices como a soja, o gás natural, as propriedades nutritivas do leite, as companhias aéreas, as cidades dispostas a pagar por propaganda de suspeitíssimas atrações turísticas etc.

No auge da avacalhação, eu mesmo cheguei a imaginar, com os amigos em um balcão de botequim, um enredo que se chamaria De Sevilha à Doença de Chagas: o Barbeiro faz a festa na Sapucaí.

Preparamos até um resumo da sinopse: “Nós falaremos do barbeiro em diversos aspectos: o aparador de barbas, o péssimo motorista, o personagem da ópera, o inseto hemíptero hematófago causador da doença de Chagas. O tema permite captação de recursos entre marcas que disputam o mercado das lâminas de barbear; neste momento em crise por causa do avanço da moda dos peludos. Permite ainda captar patrocínio das secretarias de apoio à pesca, já que o peixe teleósteo, conhecido como acaraúna-preta, é popularmente chamado de barbeiro e tem grande potencial nutritivo”.

Um amigo meu, militante da folia, tentou emplacar um enredo sobre o português Eduardo Gonçalves. Radicado em Santa Catarina, o portuga criou, em 1915, a pomada Minancora. O nome mistura Minerva, a deusa grega da sabedoria, e âncora, para provar que a marca estava ancorada no Brasil. Além da pomada, Eduardo inventou o Xarope Doméstico, o Lombrigueiras (que prometia matar lombrigas em cinco minutos) e um remédio contra a embriaguez.

O enredo abordaria a disputa da Minancora contra a norte-americana Hipoglós, tomando partido da pomada brasileira que evita assaduras, combate rugas, cicatriza feridas, cura frieiras, mata bicho-de-pé, acaba com o ce-cê e seca espinhas. Imaginem como seria o samba.

Fiz esse introito para dizer que, ao menos em relação aos enredos, a coisa melhorou nos últimos anos. Atribuo parte disso à crise econômica na qual o país mergulhou. No carnaval, a dureza gerou a diminuição dos enredos patrocinados e o crescimento de enredos sugeridos por carnavalescos cientes da dimensão que as escolas de samba ainda possuem no campo da cultura popular.

Em 2019, cruzarão a avenida bons temas. Ando curioso, por exemplo, pra saber como o Salgueiro falará de Xangô, como a Portela promoverá o encontro entre Clara Nunes e o bairro de Madureira, e como a Mangueira contará histórias do Brasil numa perspectiva oposta à da chamada História oficial das grandes efemérides.

O Ceará aparecerá em dobro: a União da Ilha falará da obra dos cearenses José de Alencar e Rachel de Queiroz. Com “O salvador da pátria”, o Tuiuti vai contar a história do Bode Ioiô, que se transformou em personagem da cultura cearense ao ser abraçado por intelectuais e boêmios e foi eleito vereador, num ato de galhofeiro protesto contra a politicagem rasteira em Fortaleza. E tem muito mais.

Apesar dos problemas que não podem ser varridos para debaixo do tapete — como o enfraquecimento das alas de compositores e os equívocos que a Liesa anda cometendo na gestão do carnaval —, as escolas de samba ainda parecem ter o que oferecer de inventivo e ousado no campo das manifestações culturais brasileiras.

Autor(a): Luiz Antonio Simas
Fonte: oglobo.globo.com/rio/entre-xango-madureira-o-bode-22893513

 

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