Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / ARTIGOS

ESCOLA VIRA REFERÊNCIA NA INTEGRAÇÃO DE IMIGRANTES E REFUGIADOS
publicado em: 29/11/2017 por: Lou Micaldas

Unidade da rede pública paulistana investe em exercícios de tolerância para acabar com barreira entre alunos brasileiros e estrangeiros

O uniforme com o emblema da Prefeitura de São Paulo e o português fluente e desenvolto de Sayuri, 8 anos, não dão pistas de que a aluna da rede municipal de ensino é estrangeira. Ao escrever um texto em sala de aula, porém, ela revela que precisa de atenção redobrada: “Às vezes me confundo e escrevo em espanhol”. 

Colombiana, a menina é uma entre as várias crianças imigrantes ou refugiadas matriculadas na escola Infante Dom Henrique, no Canindé, Zona Norte de São Paulo. Localizada numa região conhecida pela concentração de bolivianos, a escola virou uma referência na integração de estudantes de várias outras nacionalidades à rede pública. Eles representam cerca de 20% dos 470 jovens distribuídos entre o primeiro e o nono ano do ensino fundamental, segundo o diretor Cláudio Marques Neto. O colégio se tornou membro associado da Unesco no início de 2017 pelo trabalho de integração, visível desde a entrada: todas as placas de sinalização são escritas em português, inglês, espanhol e árabe.

— Isso dá maior autonomia ao estudante, principalmente aquele que acabou de chegar e não sabe falar português — explica o diretor.

Bandeiras de diversos países e um painel colorido, desenhado por uma artista chilena, são outros indicativos do caráter multicultural do espaço. A escola sempre teve grande adesão de estudantes bolivianos que residem na região pela proximidade com o Brás, bairro conhecido pelas muitas lojas de roupas e no qual diversos imigrantes trabalham como costureiros. Desde que assumiu a direção da instituição, em 2011, Marques Neto viu aumentar a quantidade de crianças de outras origens, especialmente da Síria e de Angola.

CULTURA DE TOLERÂNCIA

Alunos paraguaios, peruanos, colombianos, equatorianos, libaneses e chineses também dividem as salas de aulas com estudantes brasileiros que residem em vilas e favelas da Zona Norte. Passado o impacto inicial provocado pelas diferenças culturais, o diretor tenta fazer com que os brasileiros compreendam que a realidade socioeconômica dos novos colegas é similar às deles próprios.

— É comum os alunos brasileiros trazerem preconceitos de casa, dizendo que os estrangeiros vão roubar os empregos deles. Quando fazemos eles entenderem que os outros alunos tiveram de abrir mão de muitas coisas para virem até o Brasil, as relações mudam — explica Marques Neto.

Auxiliado por parte dos professores, o diretor executa um projeto que divide os alunos imigrantes em grupos, classificados por faixa etária, que se encontram a cada quinze dias para apresentar seus países e falar sobre suas experiências no Brasil. Aos poucos os estudantes são incentivados a levarem colegas de sala brasileiros para as rodas de discussão. Os jovens estrangeiros são convidados a desenharem ou escreverem sobre os seus maiores fantasmas na escola logo no primeiro encontro, relatando casos de bullying e xenofobia. A proposta, no entanto, vem acompanhada de uma condição: também devem apresentar soluções para resolver os próprios problemas. Com isso, os docentes conseguem identificar quais elementos podem trabalhar em sala de aula para facilitar a interação entre os alunos.

— Aqui não se trata de abordar apenas a imigração, mas a forma como vamos realizar essa abordagem. Damos voz aos alunos e criamos um espaço democrático — diz o professor César Luis Sampaio, que leciona Informática Educativa e ajuda a coordenar o projeto.

Outra ação promovida pela escola é a troca de cartas com alunos de uma instituição no Chile. Os estudantes da Infante Dom Henrique recebem a correspondência em espanhol, mas devem responder em português. Parte do exercício envolve partilhar o conteúdo das mensagens com os colegas em sala. Dessa forma, aprendem a ler e a escrever nas duas línguas.

Para ampliar a troca de experiências, o colégio promove atividades regulares para todos os alunos no pátio central. Ali, podem apresentar danças, instrumentos musicais e alimentos típicos de seus países de origem para os outros colegas. A integração também passa pelos pais, que podem fazer aulas de português no curso ministrado na escola no período noturno.

A primeira medida de Marques Neto quando assumiu a diretoria foi proibir a expulsão de alunos de sala de aula. Antes de sua chegada, muitos eram dispensados de classe regularmente por apresentarem problemas de indisciplina. Com tantos deles nos corredores, na visão da secretária Maria Aparecida Santos Rodrigues, era como se fossem “duas escolas”: uma dentro e outra fora de sala.

— Os professores mandavam os alunos embora em vez de tentarem resolver os problemas. Foi uma mudança radical de lá para cá, porque passamos a incluir mais os alunos e trabalhar melhor os problemas deles — contou Maria Aparecida.

Um dos projetos do diretor que reduziu as suspensões foi implantar visitas semanais às casas dos estudantes para conversar com familiares e conhecer um pouco mais da realidade dos jovens. Desde 2013, os docentes apontam quais alunos têm mais problemas de adaptação e o diretor agenda os encontros para detectar a melhor forma de prestar assistência. Sensibilizados com as dificuldades de alguns estudantes, os professores passaram a compreender melhor determinados comportamentos em sala de aula.

— Eles tinham ciência de que muitos dos alunos vêm de realidades difíceis, mas se tornam mais abertos e pacientes quando descobrem o que o aluno enfrenta em casa: ausência de pai ou mãe, problemas com bebidas ou drogas — diz o diretor.

DIÁLOGO CONSTANTE

Para a direção, a participação ativa dos estudantes nas decisões da escola os torna mais responsáveis pelo espaço e pela boa relação entre os colegas. Além de um grêmio estudantil, cada série realiza plenárias com os professores para discutir questões práticas, que vão desde a falta de papel higiênico nos banheiros a sugestões de novas atividades culturais.

O diálogo entre professores e o corpo estudantil já rendeu o início de uma nova disciplina na escola: o espanhol. Mas, diferentemente de outras matérias, as aulas são lecionadas por duas alunas bolivianas. Após perceberem que colegas brasileiros ficavam deslocados em conversas de imigrantes que têm o espanhol como língua nativa, as estudantes tiveram a iniciativa de ensinar os colegas.

— Outro dia uma menina veio me dar bom dia em espanhol. Disse para mim que aprendeu em sala de aula e queria ser gentil comigo — conta a boliviana Mariluz, de 10 anos.

De forma similar, as crianças se oferecem para traduzir algumas conversas para colegas estrangeiros novatos, que ainda não se adaptaram completamente ao português e à escola. As atitudes também inspiraram os docentes, que se esforçam para facilitar a aclimatação dos estrangeiros.

— Uma das professoras baixou um aplicativo no celular que ajuda a traduzir o português para o árabe. Assim, ela consegue se comunicar melhor com os alunos sírios — conta o professor Sampaio.

Apesar da insistência dos jovens, um único pedido não pôde ser atendido:

— Só não conseguimos aumentar o horário do recreio — entrega o diretor.

Autor(a): Juliana Arreguy
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Erica Martins

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA