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INFORMAÇÃO / ARTIGOS

EU, VOCÊ E A REVOLUÇÃO
publicado em: 17/10/2018 por: Lou Micaldas

Se percebo a desumanidade se aproximando, minha obrigação é gritar. Com o amor é a mesma coisa

Você tá com medo?, eu chego perguntando.

E você (depois de um tempo): da gente?

E eu: isso não foi uma resposta.

E você: não, foi uma segunda pergunta.

E eu: pouco desenvolvida.

E você: como assim?

E eu: uma segunda pergunta pouco desenvolvida.

E você: o “como assim”?

Eu: o “como assim, medo da gente?”

E você: é que depende de qual “a gente” você se refere.

Eu olhando pro seu cabelo em vez de procurar uma resposta.

E você: “a gente” é um sujeito indeterminado, vago. Tanto pode ser um “a gente” eu e você, nós dois, o nosso amor, como pode ser um “a gente” genérico, mais frio, protocolar, tipo “a gente” de Salvador chora a morte de Moa do Katendê.

Eu: por que eu teria medo de nós dois?, eu sorri, meio triste meio feliz sem vírgula.

Você: porque a gente pode ser feliz.

Eu: você tá sendo irônico?

Você: de modo algum.

Eu: e se a gente quiser ser feliz?

Você: Daí é só ser.

Eu: você tá com medo?

Você: tô com coragem.

Eu olhando pra sua boca em vez de procurar uma palavra.

Você: você fez outra tatuagem?

Eu: sim e, agora, gosto de carnaval.

Você: você tá de glitter? Em outubro?

Eu: é que eu nunca abandonei junho.

Você: junho? Não faz sentido. O carnaval é em fevereiro.

Eu: o sentido mudou.

Você: como assim?

Eu: glitter agora é resistência.

Você: como saber telefones de cor.

Eu: exatamente. Telefones e poemas.

Você: tava com saudades das tuas frases curtas.

Eu: e eu dos teus trocadilhos ruins.

Você: hahaha, agora que eu entendi. Junho.

Eu: tava com saudades desse teu tempo.

Você: como assim?

Eu: de entender tudo um pouco depois.

Você: mas agora eu entendi.

Eu: que bom, porque eu não aguentava mais.

Você: mas você gostou de outras pessoas, como eu falei?

Eu: um pouco.

Você: eu também gostei.

Eu: eu sei. Você postou.

Você: sim.

Eu: acho que todo mundo devia gostar de todo mundo.

Você: isso é Andy Warhol.

Eu: tô copiando.

Você: e pode?

Eu: o quê? Copiar?

Você: não, gostar de todo mundo. Pode?

Eu: é a única saída.

Você: isso não parece você.

Eu: tô diferente.

Você: eu sabia.

Eu: mas a primeira pergunta.

Você: qual era mesmo?

Eu: do medo.

Você: sim.

Eu: eu tava falando dele.

Você: ah, tá...

Eu: um homem tão tosco...

Você: sim... mas o problema não é ele, coitado.

Eu: coitado?

Você: sim... coitado.

Eu: não entendi.

Você: Um idiota completo... mas ele é quem ele é. Há uma inteireza ali. Grave são os outros. Que fazem vista grossa, apesar da consciência absoluta.

Eu: não tô acompanhando, mas, talvez, seja culpa da sua barba.

Você: tá grande, né?

Eu: tem fios brancos. Que não me conhecem. Preciso me apresentar.

Você: Se eu percebo a desumanidade se aproximando, a minha obrigação é gritar.

Eu: e o que o amor tem a ver com isso?

Você: com o amor é a mesma coisa. Não dá pra saber que ele existe e fingir que não me diz respeito.

Eu: então a gente pode comer uma pizza e contar um pro outro sobre tudo o que a gente viveu nesse tempo?

Você: não é que a gente pode. A gente tem que. É nosso dever como cidadão. Isso se chama revolução.

Autor(a): Maria Ribeiro
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/eu-voce-a-revolucao-23160563
Colaborador(a): Luciana Fernandes

 

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