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GOVERNO E CARNAVAL, FALSO AMOR SINCERO
publicado em: 03/08/2017 por: Lou Micaldas

O show televisivo (e caro) estaria garantido por mais um ano. Mas e a sustentabilidade? Algum mea-culpa para o fato de que as escolas de samba não mais fidelizam público?

O poder público sempre esteve presente no carnaval do Rio — seja para moeda de troca, seja para chegar perto de comunidades para as quais historicamente fecha os olhos nos outros 361 dias do ano. As escolas, desde o princípio, abusaram do flerte com este poder. Foi, aliás, a estratégia de sobrevivência — intuitiva ou não — utilizada a partir de 1932, quando ocorreram os primeiros desfiles. Enquanto outras manifestações titubearam, vacilaram ou sumiram do mapa, os cortejos de samba viraram autênticos divãs sociais do gigante por vezes tão menino, espelhando com lente de aumento os contextos de época. Durante o período militar, sem qualquer pudor, cantaram em verso e prosa os “milagres” do regime. Tempos depois, abraçaram as saudades da escolha direta para presidente. E assim, na carona da agridoce esquizofrenia de velas acesas para santos diversos, passaram por sufocos políticos e econômicos variados, até desembocarem no atual cenário de novíssima e gritante crise, desta vez não apenas por recursos, mas de representatividade para nossa gente.

Ora, a comitiva da Liesa que rumou para Brasília no dia 25 de julho — formada por dirigentes e personalidades — voltou com a perspectiva de injeção de R$ 13 milhões (a serem rateados por quem compõe o Grupo Especial) por parte de Michel Temer. Foi este o valor do primeiro corte anunciado pelo prefeito Marcelo Crivella, e que deixou os sambistas de cabelos em pé. Não, não há nada de novo nesse passar de chapéu para o governo federal. Lula, quando presidente, já intermediara o aporte de R$ 1 milhão para cada bandeira.

O problema é que, pela primeira vez, as escolas de samba não se ligaram num entorno cada vez mais gritante: o seu hoje baixíssimo pertencimento às rodas, aos debates, ao modo de ser do carioca. E é aí que mora o perigo, catapultado por inegável pauta conversadora de negação dos valores e saberes que emanam das ruas, estes a vocação da metrópole-balneário sabidamente construída por misturas.

Sim, o show televisivo (e caro) estaria garantido por mais um ano. Mas e a sustentabilidade da festa? Algum mea-culpa dos gestores para o fato de que as agremiações não mais fidelizam público como outrora, nem conseguem negociar de maneira madura a forma de se posicionarem em eleições? A ida à capital em período tão nebuloso da nossa política resolve um problema, mas claramente abre brechas para outros.

Afinal, o socorro financeiro para os dois dias de Hollywood na Sapucaí não soluciona a falta de grana dos grupos inferiores, com escolas também importantes para suas comunidades e para a engrenagem carnavalesca. Pior: pelo visto, veremos o calar do debate público sobre a força econômica dos quatro dias de Momo, característica sobre a qual a prefeitura da cidade nem se debruçou em análise de forma inteligente.

Só o tempo vai dizer se as selfies e abraços no Planalto foram apenas conforto imediatista em época de poucos amigos para ambos os lados da mesa. O mito Nelson Sargento, que acaba de completar 93 anos, talvez recusasse convite para integrar esta comitiva com versos de um clássico seu: “O nosso amor é tão bonito. Ela finge que me ama. E eu finjo que acredito”. Faz todo o sentido.

Autor(a): Fábio Fabato é jornalista e escritor
Fonte: oglobo.globo.com/opiniao/governo-carnaval-falso-amor-sincero-21660662
Colaborador(a): Ricardo Oliveira

 

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