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INFORMAÇÃO / ARTIGOS

MARAVILHOSA E ETERNA
publicado em: 09/10/2017 por: Lou Micaldas

Uma metrópole-capital à beira-mar, usufruível o ano todo. O Rio se constituiu como a cidade dos melhores, mais amplos e mais bonitos espaços públicos

As cidades se estruturam pelo espaço público, síntese da cultura e do lugar. Por ele flui a vida urbana.

Nas décadas iniciais do século XX, o Rio tornou-se a primeira metrópole brasileira, fruto da reforma urbana à moda parisiense, da modernização da rede de trens suburbanos e da descoberta do mar como lugar de lazer.

A abertura de avenidas litorâneas definiu a praia como um novo espaço público, de alto prestígio e poderoso fator de interação. A sinergia entre a nova orla e a cidade “parisiense” criou um revolucionário fato urbano, a Cidade Maravilhosa. Uma metrópole-capital à beira-mar, usufruível o ano todo.

O Rio se constituiu como a cidade dos melhores, mais amplos e mais bonitos espaços públicos.

Até que ponto a bossa nova, o cinema novo, a geração 60, a moda e tantas expressões de vitalidade carioca se apoiaram na interação vivida nesses espaços?

Mas, nos anos 1960, as cidades brasileiras foram impactadas pelo rodoviarismo, imposto como política de Estado. Eliminados os bondes e aniquilados os trens, enfraqueceram-se os espaços públicos do Rio. Isso se deu tanto pela descaracterização ambiental rodoviarista como pela expansão territorial desmedida, que lhes tirou densidade demográfica. Um dado: desde a transferência da capital, a área ocupada pela cidade triplicou e a população só dobrou.

Tal equação eleva os custos, por morador, em infraestrutura e nos serviços públicos. Seria igual às demais cidades, não tivesse o Rio maior proporção de espaços públicos. Só a orla da Zona Sul equivale, como área de interação, a mais de dez Avenidas Paulista, o centro social de São Paulo.

Em simultâneo, também no modo expansionista, os investimentos públicos privilegiaram a ocupação da Barra da Tijuca, território do tamanho de toda a cidade dos Anos Dourados.

Ao expandir desmedidamente, sem os recursos de capital federal, o Rio foi abandonando seus espaços públicos, em especial os localizados em áreas pobres e até de classe média. Os bairros do sistema ferroviário são exemplos gritantes. Segundo alta autoridade da República, 800 lugares (favelas ou bairros) se encontram sob domínio da bandidagem armada, onde os direitos de cidadania estão subtraídos.

A reversão desse quadro pede políticas articuladas e permanentes. A experiência das UPPs demonstrou a complexidade envolvida, mas iluminou a questão. E o êxito de Nova York e Medellín, e algumas de nossas vitórias, podem nos servir de estímulo — a partir da mobilização de cariocas e brasileiros.

Não é simples, pois é essencial recuperar o Estado. Falido, corrompido, não garante a cidadania e, de modo célere, pode se dirigir para a anomia. E só tem um caminho democrático: a política. Recuperar o Estado é uma frente de trabalho que pede a colaboração mesmo daqueles que não desejam participar eleitoralmente.

Mas outras frentes também são essenciais; podem ser muitos os grupos organizados da sociedade desejosos de colaborar para a reerguimento do Rio. Nesse caso, a recuperação dos espaços públicos, condição da vida urbana, quem sabe poderá ser acolhida por alguns deles? Fazer o caminho de volta, do abandono ao cuidado, da delinquência à legalidade, demandará muito tempo, muitos recursos e, em especial, uma mudança do paradigma urbanístico. Será um bonito — e indispensável — cavalo de pau na organização espacial da cidade.

Ainda, capaz de alavancar novas possibilidades, destaca-se a transformação em metrô dos trens da Supervia. O trecho Central-Deodoro pode ser uma meta bem acessível. Com ela, a qualificação dos espaços públicos dos 24 bairros lindeiros será o seu corolário — e um novo ambiente urbano estará disponível para o desenvolvimento urbano, econômico e social, e uma força ao empreendedorismo carioca.

Contudo, não poderemos estar sozinhos. O país não pode se iludir: a violência no Rio é apenas a ponta avançada da degradação do sistema urbano brasileiro, e, em não havendo cooperação federativa, boa parte do sistema será tragado no médio prazo.

Com o espaço público tomado pelas armas ou pelo medo, não flui a vida urbana. A cidade dos melhores e mais bonitos espaços públicos não pode se submeter. Comecemos reconhecendo o valor da nossa própria cidade que ela nos ajudará a prosseguir. A mágica da Cidade Maravilhosa não é efêmera.

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Com tantas questões graves, chega de diversionismo oficial. Não, à censura à arte; não, à mudança de nomes de ruas na Maré.

Autor(a): Sérgio Magalhães é arquiteto
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Silvio Alves

 

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