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NÃO ERA PROIBIDO PROIBIR NO CARNAVAL?
publicado em: 06/03/2019 por: Lou Micaldas

Na desconstrução (ou tentativa de desconstrução), problematizaram sambas e marchinhas. ‘Maria sapatão’ seria homofóbica

 O não hit do carnaval deste ano é uma marcha-frevo feita para tocar nos blocos que em 2017 e 2018 animaram seus foliões com o refrão “Fora, Temer”. E só nesses. A letra denuncia que está proibido o carnaval neste país tropical. Tá não.

É mais fácil proibirem a queima de fogos no réveillon devido à poluição sonora, suspenderem os ovos de Páscoa por causa da gordura trans, cancelarem a parada de 7 de setembro por falta de verba. O reinado de Momo, Baco e Dionísio, esse ninguém tasca. Já ultrapassou a religião e transcendeu as ideologias para se tornar a subversão em forma de festa.

De nada adiantaram a censura do Estado Novo e os apelos à moral e aos bons costumes do regime de 64, tampouco o patrulhamento de esquerda nos últimos anos. Como disse o insuspeito anarco-tropicalista Tom Zé, esta é “a época de fazer tudo ao contrário, mas agora querem consertar o mundo.”

O sujeito oculto do verbo querer nessa oração é “os progressistas”. Veio deles a ideia de banir marchinhas que pudessem ferir suscetibilidades, com palavrões como sapatão e mulata . Foi dali também que partiu o veto às fantasias de cigano, mendigo, nega maluca.

Quilombolas e tupinambás poderiam cair na farra — desde que fossem efetivamente quilombolas e tupinambás. Vestir-se de índio seria ridicularizar a cultura de um povo vítima de genocídio. O que dizer do velho Cacique de Ramos, com seus índios de esparadrapo? Como pôde estar enganada todo este tempo a tribo de Arlindo Cruz, Almir Guineto, Jorge Aragão, Jovelina Pérola Negra, Beth Carvalho e Zeca Pagodinho, frequentadores daquela taba de fundo de quintal que já foi até enredo da Mangueira? O que será do festival de Parintins?

Iemanjá também não pode — é desrespeito ao candomblé e à umbanda. Como é que fica a Portela, reverenciando Clara guerreira com sua coroa de conchas? Como é que fica a Terreirada Cearense, que sempre homenageia, além do reisado, a rainha do mar?

O catolicismo, por algum motivo, não entrou no índex. Hábitos e batinas permaneceram “autorizados”, e as ladeiras de Santa Teresa puderam ser ocupadas sem culpa por carmelitas de minissaia e meia arrastão. E ali acontece uma das cenas mais emblemáticas da festa: freiras acenando discretamente das janelas do convento para as suas irmãs caídas na folia. Seria um pecado proibir.

Na desconstrução (ou tentativa de desconstrução) do carnaval, problematizaram sambas e marchinhas. “Maria sapatão” seria homofóbica. Parece que não ouviram a letra toda: “O sapatão está na moda/ O mundo aplaudiu/ É um barato, é um sucesso/ Dentro e fora do Brasil.” Empoderamento LGBT já em 1981.

“O teu cabelo não nega” seria racista. Esqueceram de consultar o Tárik de Souza, crítico musical. A expressão “não pega”, segundo ele, significava “não tem importância”. O que Lamartine Babo e os irmãos Valença queriam dizer era que não importa a cor: mulata, eu quero é o teu amor. Antirracismo já em 1929. E depois disso a mulata continuou louvada no carnaval por Monsueto, Assis Valente, Wilson Baptista, e cantada por Aracy de Almeida, Ciro Monteiro, Silvio Caldas, Ângela Maria. Todos pretos ou mulatos.

A marchinha de 2019 tenta dar uma sobrevida à polêmica cromática, perguntando se “vai de rosa ou vai de azul”. O pantone do carnaval tem mais nuances do que supõe essa vã demagogia. Vai ter de marighella retinto de vermelho a bolsomínion de verde-oliva; de queiroz com orange face a portador de arminha com faixa azul-witzel atravessada no peito. Cada um vai como quiser — desde que homem não se vista de mulher: para a ala progressista, o travestismo no carnaval é machista, desrespeitoso e reforça o preconceito contra pessoas trans e os estereótipos de gênero... Na festa maior da transgressão, os que se fantasiam de vanguarda e os que cortejam o atraso saem no mesmo cordão.

A censura mascarada que tentou coibir os últimos carnavais não colou. No Bola Preta, no Galo da Madrugada, na Banda Mole ou na Timbalada vai continuar sendo proibido proibir. Nunca esteve tão liberado o carnaval neste país tropical.

Autor(a): Eduardo Affonso
Fonte: oglobo.globo.com/opiniao/nao-era-proibido-proibir-no-carnaval-23490308
Colaborador(a): Denise Carvalho

 

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