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NÃO ME MORRA, DEMI LOVATO!
publicado em: 30/07/2018 por: Lou Micaldas

Demi é mais um caso de desperdício de talento a que o mundo assiste em meio à sobrevivência de tanta mediocridade

RIO — Assis Chateaubriand, dono dos jornais da cadeia Diários Associados, chamou o repórter Joel Silveira à sua sala, no final de 1944, e anunciou que o embarcaria para a Itália, como enviado especial ao front da Segunda Guerra Mundial. Chatô relatou ao correspondente o que precisaria de material jornalístico e ao final, em seu estilo folcloricamente autoritário, decretou: “O senhor vai para a guerra, mas sob uma condição. O senhor não me morra!, está ouvindo?, não me morra!”. Foi o que aconteceu. Joel Silveira voltou da Itália como lhe pedira Chatô. Vivo. Dono de um texto espetacular, Joel também tinha sorte — quando chegou ao front a guerra entrava nos últimos dias.

Demi Lovato, a cantora pop americana, está apenas no início de sua guerra particular contra a dependência química. Não está claro até onde vai sua sorte. No momento, Demi perde. Na semana passada, um mês depois de ter lançado um disco em que pedia perdão aos pais por não estar mais sóbria, ela foi internada como nos velhos tempos — overdose, de heroína ou afins, ninguém sabe. Não importa. É mais um caso de desperdício de talento a que o mundo de tempos em tempos assiste em meio à sobrevivência de tanta mediocridade. Milhões de adolescentes choram sem poder fazer muita coisa além de ecoar o pedido de Chatô. Não me morra, Demi Lovato!

Não nos morram, como tem sido cotidiano, tantos artistas jovens. No meio do caminho, quando estão ajudando o mundo a ficar menos careta, com mais janelas abertas para ventilar o inferno da existência, eles sucumbem. Perdem a luta para os dramas privados que até então, como é próprio dos gênios, transformavam em arte. A dor, essa sucata inevitável do dia a dia, quando está sob o controle do artista vira o adubo necessário para que o público se reconheça e tenha material para conversar com seus demônios. Depois de ouvir versos e melodias sensíveis, toca-se o barco com a coragem de não se perceber mais sozinho nessa aventura maluca. Às vezes, porém, o sofrimento, a maldição das drogas e todos seus afins excedem — e aí só resta ao artista, como fez Demi Lovato, arrumar um jeito particular de abrir os pulsos na frente da plateia.

Eu não sou o Chatô não, muito menos sou o Joel Silveira. Mas eu estava lá, cerca de 1980, naquele apartamento do Jardim Botânico, quando seu proprietário, Raul Seixas, apareceu na sala para me dar uma entrevista. Estava molhado da cabeça aos pés. As roupas, inclusive. Sua mulher tinha colocado o autor de “Viva a Sociedade Alternativa” embaixo do chuveiro, na tentativa de que a água gelada espantasse os efeitos do porre em que ele, às duas da tarde, já se consumia. Não conseguiu. Nas primeiras palavras da primeira resposta Raul Seixas caiu no colo deste repórter, um correspondente por acaso — seria apenas uma entrevista sobre o novo disco — no front da guerra de mais um grande artista contra os horrores da dependência química. Aos 44 anos, no intervalo entre uma clínica de reabilitação e outra, havia também éter na parada, Raul bateu as botas.

Demi Lovato está há algum tempo gritando socorro no meio do palco e ameaçando se jogar lá de cima. É a nova tragédia de mais uma juventude desperdiçada. Demi já esteve pior, já esteve melhor, uma gangorra pop no mundo cruel do showbizz. “Simplesmente complicado” é o título autoexplicativo do seu documentário autorizado. Trata-se de uma mulher linda, mas definitivamente quem vê cara, e tudo mais que a acompanha com perfeição estética pelo resto do corpo, não consegue ver que a alma está um lixo. “Você ficaria melhor se me assistisse sangrando?”, ela pergunta dolorosamente debochada em “Skyscraper”.

Janis Joplin passou pelo mesmo desespero, assim como Amy Winehouse, Kurt Cobain, Jimi Hendrix e outros, todos capazes de subir ao palco e com meia dúzia de músicas deixar o mundo melhor. Todos mortos, drogados, aos 27 anos. Demi faz 26 dia 20. Parece querer antecipar as coisas. “Estou morrendo por dentro, me acorde quando os tremores sumirem”, abriu o jogo em “Sober”, a música sobre a recaída, lançada em junho. Podia parecer golpe de publicidade, a volta da doidinha junkie. Na semana passada, a overdose confirmou a canção. Tudo verdade. O outro lado da Dança dos Famosos. Vida real na veia — literalmente.

Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? Por que o power-trio de sexo, drogas e rock and roll perde tanta juventude talentosa para o bolero vitoriosamente fúnebre da dor, angústia e solidão? Se naquela noite, num bar da Tijuca, eu, novamente repórter, tivesse jogado para longe o nonagésimo copo de cachaça pedido por Sérgio Sampaio, o jovem autor de “Quero botar meu bloco na rua”, ele teria sobrevivido ao alcoolismo e melhorado o Brasil com outras obras geniais? Tem alguém aí que explique isso tudo e ajude Demi Lovato a não se deixar morrer? Tem algum médico na plateia?

Autor(a): Joaquim Ferreira dos Santos
Fonte: oglobo.globo.com/cultura/nao-me-morra-demi-lovato-1-22930142
Colaborador(a): Maria Clara Ribeiro dos Santos

 

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