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NINGUÉM SEGURA A MÃO DE NINGUÉM
publicado em: 24/01/2019 por: Lou Micaldas

Há um país esperando para ser reconstruído. Não vamos chegar a lugar nenhum com essa história de não soltar a mão

Acho linda essa ideia de passar os próximos quatro anos com alguém segurando a minha mão para que eu não me perca, para que os direitos adquiridos não escorram por entre os dedos. Mas não dá para ficar de mãos dadas tanto tempo, com tanta coisa por fazer.

(“Ninguém solta a mão de ninguém” é uma metáfora, eu sei. Gosto de metáforas, e metáforas gostam de mãos. Uma mão lava a outra. Que a mão direita não saiba o que a esquerda faz. Macaco velho não mete a mão em cumbuca. Pôr a mão na massa, pôr a mão no fogo, e por aí afora. Está claro que esta não é a mão física, literal. Aquela a que me refiro também não.)

Naquele remoto janeiro de 1985, o presidente eleito Tancredo Neves conclamou: “Não vamos nos dispersar. Continuemos reunidos, como nas praças públicas, com a mesma emoção, a mesma dignidade e a mesma decisão”. Era uma convocação (como este texto, cheia de rimas em “ão”) para que os democratas mantivessem o foco, não perdessem o fôlego nem o rumo. Uma espécie de “ninguém solta a mão”, só que mais adulta, mais pé no chão. Tínhamos acabado de sair de uma ditadura — e, sabendo que o vice era o Sarney, talvez fosse também uma premonição.

Muito antes, outro mineiro, Carlos Drummond, já tinha pedido: “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. Pregava a solidariedade aos companheiros que, entre uma guerra e outra, nutriam grandes esperanças sem suspiros românticos, sem estratégias políticas suicidas, sem narrativas delirantes. Drummond cantava a vida presente, o tempo presente. Não era o poeta de um mundo caduco.

Fala-se agora em “ser a resistência”, mais que em fazer oposição. Se o objetivo é lutar pelos direitos fundamentais, pelos valores democráticos, pelo protagonismo do cidadão, o lema poderia ser mais assertivo (que tal “Mãos à obra!”?), em vez desse imobilismo de segurar o outro, no qual se percebe o propósito da tutela sob o manto (enganoso) da proteção.

Dá para entender o medo da volta ao passado — quem não teve pavor de escuro, de ficar sozinho, de injeção? — mas há um país esperando para ser reconstruído, reinventado, e não vamos chegar a lugar nenhum com essa história de não soltar a mão.

Na posse do novo presidente, esta semana, o que houve de mais significativo foi a eloquência — e a liberdade — das mãos. Não aquelas habituadas ao gesto (desnecessário) do dedo no gatilho, mas as do poeta Sandro Santos, desenhando no ar os raios fúlgidos e vívidos, o impávido colosso, o lábaro estrelado. E as da Michelle Bolsonaro indo na contramão do protocolo com seu discurso na Língua Brasileira dos Sinais — a língua portuguesa vindo um passo atrás, quase simultâneo, na tradução. Mãos falando (olhaí de novo a metáfora) por e para uma minoria que não tem voz.

Sem abrir mão de um receituário que nunca deu certo, não vai ser possível mudar “isso que está aí”. E “isso” inclui a violência (na última década, mais de 500 mil brasileiros tiveram morte violenta), o desmatamento (que voltou a crescer depois de 2012), a miséria (55 milhões de nós vivem abaixo da linha de pobreza), a corrupção (que nem a Lava-Jato conseguiu ainda frear), o desemprego (que aflige 13% da população). De mãos ideologicamente atadas, vamos é nos afogar no mar agitado da História, em vez de romper esses obstáculos “como uma quilha corta as ondas”.

Com alguém prendendo a mão para se defender da mudança de curso, da mudança dos ventos, não há como levar adiante a revolução contra o atraso, a impunidade, a irresponsabilidade fiscal, a crise na educação (que, nas palavras do Darcy Ribeiro, não é uma crise: é um projeto...).

Melhor resistir à tentação dos trocadilhos como dar a mão à palmatória, botar a mão na consciência, sair de mãos abanando (ou com uma mão na frente e outra atrás), lavar as mãos. Precisamos menos de mãos dadas, mais de mãos estendidas, para reverter essa década e meia perdida. Para fazer as pazes uns com os outros, e cada um com suas boas intenções.

Feliz ano novo — e depois dos beijos e abraços de praxe, pode soltar a mão.

Autor(a): Eduardo Affonso
Fonte: oglobo.globo.com/opiniao/ninguem-segura-mao-de-ninguem-23344716
Colaborador(a): Maria Clara Vieira

 

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