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INFORMAÇÃO / ARTIGOS

O APERITIVO DA CENSURA
publicado em: 22/07/2019 por: Lou Micaldas

Por que devemos ter medo de Bruna Surfistinha

Das duas, uma. Ou o presidente Jair Bolsonaro, após uma semana de tiros no pé, decidiu desviar a atenção do Brasil usando uma das mais manjadas manobras da direita populista (“Vamos falar contra prostitutas porque pega bem com as famílias e as esposas”)... ou decidiu usar o que chama de “filmes pornográficos e ativistas” para instituir a volta da censura cultural sob o pseudônimo de “filtro”.

No Enem, nos livros, currículos escolares e no vestibular, o governo Bolsonaro insinuou intervir, depois tirou o pé do acelerador. Agora o alvo são as artes. Podemos já aguardar censuras a exposições, filmes, peças de teatro, balés. O que parecer a ele indecente ou esquerdista estará condenado. O discurso sobre Bruna Surfistinha foi só o aperitivo do que vem por aí. Entrando na mente de Bolsonaro, ele estaria apenas “protegendo” a família, filtrando o que considera inadequado. Esse é o princípio básico da censura.

Como nem o Exército brasileiro conseguiu lidar serenamente com a indisciplina e a metralhadora giratória do capitão Jair Bolsonaro, é natural que o país – e não somente os artistas e as prostitutas – fique estarrecido com o presidente e sua ânsia de controle amplo e irrestrito da vida dos cidadãos. Direitos, leis e liberdades aparentemente existem hoje para ser revistos e revogados.

Bruna Surfistinha, uma jovem prostituta real, vivida por Deborah Secco no telão, não é nem pornográfica nem ativista. Não fui ver no cinema, não faz meu gênero, vi na televisão, o melhor é a interpretação da protagonista. Foi um filme com enorme sucesso de bilheteria e crítica. Mas concentrar-se em Bruna Surfistinha é um exercício inócuo de hipersimplificação.

O problema é que Bolsonaro tem duas obsessões: sexo e esquerda. A esquerda ele quer eliminar da face da Terra. Todos os 50 tons de esquerda. O sexo, Bolsonaro já demonstrou encarar com preconceito. Foi um deputado que dizia usar o auxílio-moradia “para comer gente” e é um presidente que se refere ao órgão genital masculino de maneira depreciativa ao encontrar um turista oriental: “Tudo pequenininho aí?”. Também condena publicamente o “turismo gay” no Brasil mas “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”.

Por que devemos ter medo da repulsa a Bruna Surfistinha? Porque a fala do presidente pode marcar o início de uma cruzada contra a liberdade de expressão. Começa assim com um “filtro” oficial e veto a financiamento, usando critérios e valores pessoais. Escrevi em maio de 2017 uma coluna intitulada “O Jardim das Aflições”, onde defendia a divulgação, no Festival de Pernambuco, de um filme sobre Olavo de Carvalho. Um documentário de 81 minutos.

Diretores de sete filmes haviam se retirado do festival, em boicote ao filme sobre o direitista. Um absurdo cometido pelo establishment de esquerda. A patrulha intelectual, de esquerda ou de direita, não é só burra, primária e insuportável. É perigosa. Favorece o obscurantismo, a ignorância. Não existe “a censura do bem” e a “censura do mal”.

Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam o cineasta maldito, matam o contraditório, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho na sala escura, rouba o projetor e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.

Essa é uma paródia do poema “No caminho com Maiakóvski” (1968), de Eduardo Alves da Costa. Ilustra por que devemos temer não Bruna Surfistinha mas o boicote ideológico e moral a qualquer expressão de arte ou de cultura. Miriam Leitão e Sergio Abranches foram vítimas dessa intolerância numa Feira de Livros em Santa Catarina. Se Bolsonaro quisesse governar para todos, deveria ter se apressado a condenar as ameaças e o boicote aos escritores palestrantes, em vez de reforçar a pataquada, inventando mentiras facilmente desmascaradas pela História.

Autor(a): Ruth de Aquino
Fonte: blogs.oglobo.globo.com/ruth-de-aquino/post/por-que-devemos-ter-medo-de-bruna-surfistinha.html

 

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