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O FUTEBOL COMO SINTOMA
publicado em: 11/07/2018 por: Lou Micaldas

O jogo britânico, introduzido aqui como lazer da elite, foi ‘reencantado’ pelas camadas dominadas, ganhando múltiplos significados.

Ninguém duvida que, no Brasil, o futebol ocupe um lugar de centralidade na produção da identidade nacional e na invenção daquilo que caracterizaria um “ser brasileiro”. Na construção da brasilidade, o futebol percorre uma trajetória inversa à percorrida pelo samba como um componente daquilo que nos caracterizou no imaginário como povo.

O samba é visto como manifestação oriunda das culturas subalternizadas. Ele bebe na célula rítmica dos tambores ancestrais centro-africanos e, nas encruzilhadas do Novo Mundo, se reelabora a partir da tragédia da diáspora como um empreendimento inventivo no precário, dinamizado por cruzamentos com distintas manifestações culturais.

O futebol faz caminho inverso, já que surge como jogo praticado pelas elites brasileiras no fim do século XIX. Os mitos de origem do futebol no Brasil — o esporte introduzido por Charles Miller; o jogo difundido em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro; a difusão do esporte pela região da Bacia Platina; o esporte praticado nos colégios de padres de São Paulo etc — não questionam o caráter elitista da sua prática.

O jogo britânico, introduzido aqui como lazer de jovens das camadas dominantes e nas fábricas com trabalhadores ingleses, foi “reencantado” pelas camadas dominadas, ganhando múltiplos significados. Seduziu o poder público, impactado pela velocidade da popularização do esporte, e segmentos da intelectualidade, sobretudo a partir dos anos de 1930, empenhados em imaginar a solução da identidade brasileira a partir do idealizado — e, muitas vezes, encobridor do racismo estrutural da nossa formação — caráter mestiço do povo e da cultura.

O jogo representou para o imaginário de certo Brasil o que representou, no mesmo contexto, a umbanda no terreno dos ritos religiosos. A versão mais famosa para a criação da umbanda remete-se ao dia em que, na cidade de São Gonçalo, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, por meio do médium Zélio de Moraes, anunciou a criação da religião, no início do século XX.

Estudiosos da história da umbanda chamam a atenção para o fato de que ela é fruto do amálgama dos ritos de ancestralidade bantos, dos calundus, pajelanças, encantarias, cristianismo popular e espiritismo kardecista. Há quem ache que essa síntese representou a cristianização dos ritos africanos, e há quem ache que africanizou o cristianismo e se definiu como uma religião tipicamente brasileira. As duas hipóteses não se excluem.

O futebol, popularizado, começou a ser visto por aqui como um jogo reinventado e encantado (umbandizado) pelos modos brasileiros de se jogar bola.

A atual Copa do Mundo coloca questões pertinentes para o Brasil do século XXI. É possível ainda se pensar em povo brasileiro ou essa categoria já foi para cucuia? Há algum resquício do modo brasileiro de jogar bola como síntese original e alternativa ao esporte europeu nos dias de hoje? A seleção ainda representa, no território mítico da produção de identidades, o símbolo de pertencimento que representou um dia?

Ao pensar em questões aparentemente circunscritas ao território do jogo, acabaremos enfrentando os dilemas sobre a possibilidade de se pensar o Brasil como uma comunidade imaginada e um projeto minimamente original de mundo. É sobre o país como viabilidade ou como comunidade esfacelada inviável, mais do que sobre a seleção brasileira como sintoma, que essas questões gritam sem gols.

Autor(a): Luiz Antonio Simas
Fonte: oglobo.globo.com/rio/o-futebol-como-sintoma-22869872
Colaborador(a): Jaime Queiroz

 

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