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O JOVEM E O VELHO MARX
publicado em: 10/07/2018 por: Lou Micaldas

No ano do bicentenário do filósofo, duas obras revelam fatos desconhecidos e ajudam a desconstruir mitos criados sobre o autor de 'O Capital'

Na gíria inglesa, Old Nick, ou “Velho Nick”, significava “Velho Diabo”, e era assim que Karl Marx assinava as cartas que enviava às filhas ou ao amigo Friedrich Engels. Detratores, e não foram poucos, o acusaram de ser antissemita ou racista. Um padre romeno publicou um livro questionando se ele não era satanista. A história é pródiga em se repetir como farsa, o próprio Marx ensinou isso ao mundo, mas ele se divertia com a comparação.

O Mouro, como também era chamado entre os mais próximos, nunca foi alguém que coubesse em um só apelido. A complexidade de seu pensamento foi difundida como mera oposição entre o “jovem” Marx, filosófico e humanista, e o “velho” Marx, econômico e científico.

Duas biografias da editora Boitempo, lançadas neste ano em que se celebra o bicentenário de seu nascimento, partem justamente dessas duas frentes, mas alargam a compreensão sobre a vida de um dos maiores pensadores do século XIX.

A esta altura da história, quando mais de 30 grandes biografias sobre Marx já foram lançadas, cabe perguntar as razões que fizeram o matemático e cientista político alemão Michael Heinrich, autor de Karl Marx e o Nascimento da Sociedade Moderna – Volume 1 (1818-1841), e o filósofo e cientista político italiano Marcello Musto, de O Velho Marx: Uma Biografia de Seus Últimos Anos (1881-1883), a embarcarem nessa tarefa.

“Marx é o autor cujo perfil mais sofreu modificações no decorrer dos últimos anos”, justifica Musto. Segundo ele, o filósofo foi capaz de examinar as contradições da sociedade capitalista muito além do conflito entre capital e trabalho. No fim da vida, dedicou seu tempo para refletir sobre questões ecológicas, conflitos em países não ocidentais e como o colonialismo exercia um poder destruidor sobre as periferias do sistema capitalista.

Heinrich relembra que o Mouro também era um estudioso de matemática, ciências naturais, antropologia, linguística e história. “Essa diversidade de temas só pode ser compreendida em toda a sua abrangência se levarmos em consideração os inúmeros artigos de jornal e seus cadernos de excertos”, diz. “Marx não foi somente um pesquisador dedicado a trabalhos científicos, mas um jornalista político.”

Um diferente e menos dogmático Marx começou a emergir a partir das recentes publicações da Edição Completa da Obra de Marx e Engels (mais conhecida como Mega, de Marx-Engels-Gesamtausgabe, em alemão), e é sobre essa fonte de originais em alemão que os pesquisadores têm se debruçado.

Constam novas versões de algumas obras, como A Ideologia Alemã (1845), a dissertação e a tese de Marx, o Manifesto Comunista (1848), os manuscritos preparatórios de O Capital (1867), as cartas enviadas ou recebidas por ele a Engels e 200 cadernos de anotações que incluem os livros lidos e comentados pelo “Velho Nick”. Imagina-se que, quando for inteiramente publicada, a coleção seja composta de 114 volumes. Até agora são 66 volumes.

Esta não é a primeira tentativa de publicar os originais. Entre 1927 e 1935, 12 volumes foram publicados pelo Instituto Marx-Engels, de Moscou, mas com a ascensão de Hitler na Alemanha, em 1933, o projeto foi descontinuado. Apenas depois da morte de Stalin é que editores soviéticos e alemães voltaram a trabalhar no material. Em 1975, foi publicado o primeiro volume na chamada fase 2 da Mega, e a nova leva só veio a ser retomada, na prática, em 1998.

Marx no século XXI

O biógrafo Marcello Musto optou por enfrentar alguns mitos, como o de que a curiosidade de Marx teria sido saciada e, nos últimos anos, ele até teria parado de trabalhar. Na verdade, o italiano descobriu que o “Velho Nick” estava atento aos principais acontecimentos da política internacional.

Reunia-se com dirigentes das forças de esquerda da Europa, ajudando-os a organizar a luta para pôr fim ao modo burguês de produção. Criticava economistas americanos pseudossocialistas, que tentavam “convencer a si mesmos e ao mundo de que, com a transformação da renda fundiária em imposto pago ao Estado, desaparecerão automaticamente todas as injustiças da produção capitalista”.

Condenava os russos pela lentidão do desenvolvimento econômico, em fins do século XIX. Mas, tirando Alemanha, França e Rússia, Musto afirma que Marx “continuava um total desconhecido na Inglaterra” e seus escritos tinham dificuldade de circular na Itália, na Espanha ou na Suíça, onde Mikhail Bakunin (1814-1876) fazia mais sucesso.

Ávido leitor, Marx tinha em sua biblioteca livros de Shakespeare, Dickens, Molière, Racine, Bacon, Goethe e Voltaire, obras políticas em alemão, francês, russo, inglês, espanhol e italiano. Referia-se aos livros como “meus escravos e devem obedecer à minha vontade”. Dobrava as pontas das páginas, fazia pontuações a lápis, sublinhava os textos. O biógrafo italiano procurou construir uma narrativa fluida e ligeira, que flerta com uma versão romanceada, mas sem se descuidar do rigor da pesquisa histórica.

Como em uma novela, o biografado revela-se mais humano quando Musto narra a sucessão de fatos trágicos dos anos finais, desde a morte da mulher, Jenny von Westphalen, até os problemas de saúde dele (sofria com a bronquite e era tratado à base de quinino, morfina e clorofórmio) e das filhas, Eleanor e Jenny.

Para se curar, viajou até a Argélia, depois a Montecarlo, Cannes e Lausanne. Em 14 de março de 1883, Marx morreu em sua casa na periferia de Londres de um colapso repentino. “A humanidade tem agora uma inteligência a menos, a mais importante de que ela poderia se orgulhar hoje em dia”, escreveu o amigo Engels.

As obras de Musto e Heinrich ajudam a clarear o debate em torno da herança deixada por Marx. Em vários campos do saber, incontáveis correntes e leituras, algumas delas conflitantes entre si, ancoram-se em seus pensamentos ou se consideram influenciados por eles. Muitos se autodenominam marxistas, mas não seria improvável que fossem repreendidos. “Tudo o que sei é que não sou marxista”, ironizou ele, certa vez, aos que se diziam seguidores de suas ideias sem conhecê-las profundamente.

Para Heinrich, a obra do filósofo “não é só fragmentária, ela é uma sucessão de fragmentos” e se constitui de “uma série permanente de tentativas interrompidas, de recomeços que não são continuados”.

Em texto mais rigoroso e lento, a biografia dele pormenoriza e contextualiza cada evento significativo da infância e da juventude de Marx, recorte do primeiro de três volumes que almeja concluir até 2022. Como se fosse um escrutinador literário, o biógrafo recorre a fontes originais para apontar erros factuais e desmontar algumas “teses” que outros escritores criaram para lustrar – ou macular – a imagem e a reputação do autor.

Algumas das mais famosas obras de Marx foram os textos de juventude (ou Grundrisse, em alemão), mas esses só foram publicados décadas após sua morte. Dos textos jornalísticos, de grande repercussão na época, grande parte ainda é desconhecida. O cientista político faz uma criteriosa revisão de informações que foram inflacionadas conforme a conveniência, marxista ou não.

Mostra, por exemplo, que nos trabalhos de conclusão do ginásio Marx, com 17 anos, redigia textos que poderiam “contribuir para a prosperidade humana dentro do mundo burguês e como membro de uma elite burguesa”.

Ele cresceu em condições relativamente prósperas em Trier, na então Prússia. De família judaica que se converteu ao cristianismo protestante, foi influenciado pelas ideias iluministas do pai, o advogado Heinrich. Mudou-se para Bonn, a fim de estudar Direito, com direito a prisão universitária por arruaça e embriaguez.

Foi, então, enviado a Berlim, onde havia a maior universidade da Prússia. Lá escreveu alguns poemas românticos e logo tomou conhecimento de filósofos como Demócrito, Epicuro e Kant, além de mergulhar na filosofia de Friedrich Hegel, o mais influente de todos, “extremamente importante para o desenvolvimento intelectual de Marx”, anota o biógrafo.

Aos 19 anos, o prodígio entrou para o “clube dos doutores”, o mais jovem de um grupo de pesquisadores como Karl Althaus, Adolf Rutenberg, Karl Köppen e Bruno Bauer, que discutiam história e filosofia e alinharam-se à corrente dos jovens hegelianos, tidos como pensadores mais à esquerda, enquanto os velhos hegelianos eram vistos como mais à direita.

Já noivo de Jenny, quatro anos mais velha, ele foi cobrado pelo pai para concluir os estudos e assumir o relacionamento amoroso. Marx assumiu ainda jovem esse amor e viveu com Jenny até ambos ficarem “velhos”.

Autor(a): Eduardo Nunomura
Fonte: www.cartacapital.com.br/revista/1009/o-jovem-e-o-velho-marx

 

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