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O PESADELO VOLTOU
publicado em: 18/07/2018 por: Lou Micaldas

Saímos da colorida nuvem do futebol e encaramos Crivella, Temer, os ardis partidários, o teatro dos juízes e as circunvoluções do capital financeiro

RIO — Para dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras ligados em futebol, a Copa do Mundo de 2018 foi, como as anteriores, um bálsamo anestesiante. Um exercício comunitário de autoengano, que começou no dia 14 de junho e terminou ao raiar de uma segunda-feira de cinzas — mais precisamente, ontem. Valeu, como sempre, aquele acordo tácito estabelecendo que, nas quatro semanas de festa e drama, fica em suspenso, num buraco negro da História, o pesadelo em que estamos imersos. De algum lugar perdido na nuvem do inconsciente coletivo, emanou o sonho clássico, no qual o relógio da vida se congelou e o tempo foi contado em 64 etapas de 90 minutos, mais acréscimos, intervalos, prorrogações e disputas de pênaltis. Entre cada um desses eventos, vivemos, trabalhamos, pagamos contas, mas nada aconteceu de fato além de transmissões (ou VTs), mesas redondas, resenhas, melhores momentos, posts, memes, zaps e tweets.

Num primeiro momento, toda dor humana foi represada pelas lágrimas e pelas quedas histéricas de Neymar; cada derrota pessoal ou grupal transferiu-se para a conta dos cálculos de Tite: nas ocasiões de triunfo, até as quartas de final, nosso fiasco foi vingado; e na consumação do fracasso, contra a Bélgica, nossas mãos foram lavadas. Sentimo-nos, mesmo, aliviados e recompensados: amantes do bom futebol, e das representações geopolíticas e psicossociais que o envolvem, e livres da angustiada Seleção, ainda teríamos duas semanas de bola rolando; e está escrito, como um dictat, que, com ou sem o Brasil, não há espetáculo maior na Terra do que uma Copa do Mundo.

Até o último domingo, aproveitamos, com avidez, o que restou deste manjar de emoções multiculturais, e lambemos o prato com gosto, até o fim. Nos próximos quatro anos, assistiremos a dezenas de filmes, séries e shows, iremos ao teatro e leremos livros, só para fazer hora. Até que, enfim, aproxime-se a Copa do Qatar, quando o pacto mágico será renovado. Nada do que contemplarmos terá uma parcela ínfima do encanto mesmerizante do grande torneio: estamos no Brasil, o Brasil está quebrado, atrasado, desmontado, e não teremos mais onde nos segurar vinte e quatro horas por dia. Nossas muletas são as mesmas que tínhamos antes da Copa, mas oxidadas pela ressaca da ilusão auto-impingida, pelo verdinho dos estádios, pelas curvas da bola, pelos malabarismos dos craques, pelas lambanças dos infelizes; pelas estatísticas, análises táticas, listas, metáforas; pelas cúpulas da Praça Vermelha, pelos closes nas crianças vestindo flâmulas nacionais, pela miragem de um mundo congregado, pela utopia de um fair play global.

Sabíamos que era tudo um sonho, mas tínhamos permissão de varrer a sujeira civilizacional, da qual tivemos notícia pelos jornais e pela TV durante a Copa, para debaixo do tapete de nossas consciências, e postergar a faxina diária de que necessitamos para suportar a realidade que nos cerca. Único acontecimento extracampo a chegar à superfície no período de trégua esportiva, a batalha jurídica em torno da decisão de um juiz de plantão ordenando a soltura de Lula (logo após a eliminação do escrete), teve o impacto de um relâmpago. Foi como um lance duvidoso de pênalti solucionado pelo VAR, e abafado pela sequência da eletrizante fase do mata-mata — na qual ficamos mergulhados até o apito final de França e Croácia.

Como disse o locutor Milton Leite, do SporTV, “Gostaríamos que a final durasse cinco horas. Mas, infelizmente, serão só noventa minutos”. Depois, as despedidas das equipes que, com talento e paixão, mantiveram-nos colados às telas, telinhas e telões como bebês que se agarram aos seios maternos até secar o leite. Agora, chegou a hora do desmame. De acordar para a vida. Estamos na segunda metade de julho de um ano de eleições presidenciais. Agosto vem aí e não temos uma ideia segura de quem serão os candidatos. Ou uma noção mínima dos programas de governo. Restam no horizonte três meses para um debate de políticas públicas que já deveria estar em curso, vital para traçar um panorama de reconstrução nacional.

Saímos da açucarada e multicolorida nuvem do futebol-Fifa e encaramos, na lata, os semblantes de Crivella e Michel Temer, as artimanhas partidárias, o teatro sombrio dos promotores e juízes, as circunvoluções do capital financeiro. Fomos ali assistir à Copa e voltamos, no repuxo, ao violento turbilhão. Como um real lacaniano ao avesso, a tormenta, submersa, rompe a membrana da negação e, em vez de “insistir em não se inscrever”, estilhaça nossa percepção. Vence o imaginário e o simbólico e mostra, no espelho do cotidiano reencontrado, o retrato de o quão perdidos estamos.

Nesse espetáculo aterrador, os destinos de Tite, de Neymar ou da Seleção estarão em pauta, mas convertidos em purpurina diante do enfrentamento que nos espera nos próximos meses. Terminada a Copa, agora o mata-mata é para valer. Será disputado no lamentável esquema de polarizações com o qual nos acostumamos nos últimos anos. Vitoriosos serão os que conseguirem tocar a bola como se trocam ideias, escapando às botinadas, à estupidez, à dissimulação e ao antijogo. Parafraseando o Galvão, haja razão!

Colaborador(a): Ricardo Pereira de Sá

 

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