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QUE FUTURO NOS ESPERA?
publicado em: 05/10/2018 por: Lou Micaldas

No caldo de caos, crise e medo gesta-se o autoritarismo

O Brasil está à beira do precipício. Nossa democracia periga. Embora não seja a primeira vez em que isso ocorra, o atual momento é profundamente delicado. A polarização PT vs. PSDB dos últimos 20 anos se exauriu.

De um lado, o PSDB boicotou a República (desde o pedido de recontagem de votos até o impedimento da presidente eleita) unicamente para desestabilizar o governo que claudicava.

De outro, o PT, além de sofrer um impeachment, teve seu mentor e líder preso. E há um sentimento amplo na sociedade de rejeição à esquerda.

Independentemente do juízo de valor que se faça sobre ideologia e responsabilizações, o fato é que as lideranças políticas recentes estão em xeque.

A população tem se mostrado ostensivamente cansada e decepcionada. Além disso, o Legislativo é incapaz de assumir o leme do País, ao menos como ente fiscalizador. Como sempre, tem se portado como mercador na bacia das almas. Atua exclusivamente em benefício próprio.

A anomia gerada pela exaustão dos principais entes partidários (PT e PSDB pelas razões expostas) e MDB (por sua trajetória de oportunismos) propiciou relações nada republicanas. O centro político se esgarçou.

Os atores mais proeminentes nessa eleição foram os que, em algum sentido, radicalizaram. À direita, o nanico PSL. À esquerda, o experiente PT.

O Judiciário, que até bem pouco tempo atrás gozava de credibilidade, apesar de sua longa história de favorecimentos, revelou-se como mais um ator no tabuleiro político. Eleitoral, inclusive. Também o Ministério Público age seletivamente.

E, de novo, setores militares se apresentam como mediadores. Têm ecoado a insatisfação social com base na incompetência do Estado no tocante à segurança pública, por exemplo. Há inclusive iniciativas intervencionistas na ordem do dia. E, pior, com aplausos da grande massa.

A mídia age como partido. Escolhe lado, elabora estratégias. Eleva uns, defenestra outros. Atua como porta-voz e, ao mesmo tempo, mentora. É a grande instituição ideológica da contemporaneidade. A notícia tornou-se propaganda.

As redes sociais potencializaram essa notícia/propaganda. E deram voz às multidões historicamente silenciadas. Mas o que prometia ser a democratização da informação, tornou-se arena de embates e ódio. Um outro componente é a convergência política dos setores mais conservadores do catolicismo com as alas emergentes do neopentecostais igualmente reacionários e avessos às pautas liberais de direitos humanos.

Nesse caldo de caos, crise e medo gesta-se o autoritarismo. O País, que sempre foi conservador, agora é tomado por uma onda fascista que inundou rapidamente as mentalidades. Há uma cegueira em massa. A crise econômica criou a expectativa de intervenções messiânicas no Estado, ao lado, paradoxalmente, da repulsa com relação às iniciativas de inclusão.

Os pobres, imoralmente, foram condenados como responsáveis por uma crise mundial do capitalismo. As denúncias de corrupção causaram repulsa ao jogo democrático e à própria ação política.

A política passou a ser tida como negativa. O País mergulha em retrocessos econômicos, políticos e sociais. Tudo fomentado por uma pauta neoliberal que, atendendo aos interesses dos grandes conglomerados transnacionais, fazem no Brasil uma espécie de laboratório em escala planetária.

Ações que nas sociedades mais liberais não seriam realizadas aqui encontraram chão. O sequestro do pré-sal é o símbolo e a moeda maior nessa negociação. A política anda a reboque da economia. Serve a ela. As salas de aula são alvo permanente de controle e censura. A atuação docente e o dever civilizatório de formação para a cidadania foram capturados por uma narrativa que polariza família e escola e, pior, criminaliza a consciência crítica e o papel do professor.

Se os números das pesquisas recentes se configurarem acertados, qualquer que seja, o cenário dos próximos quatro anos é trágico e dramático ao mesmo tempo. Se vence a extrema-direita, haverá retrocessos institucionalizados que nem uma geração toda dará conta de reverte-los. Se for a esquerda, amargaremos mais um bom tempo de plena desestabilização política.

O que está em jogo não é apenas - antes fosse - um projeto de poder ou programa de governo, mas a própria democracia. E, infelizmente, o próprio futuro. 

Autor(a): Ricardo Lengruber* 
Fonte: https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-socio/que-futuro-nos-espera
Colaborador(a): Antonio Queiroz

 

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