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INFORMAÇÃO / ARTIGOS

REFORMAS
publicado em: 30/03/2017 por: Lou Micaldas

Muitos clamam por reformas no Brasil quase como dogma evolutivo
Em momentos de embate ao redor de reformas estruturais na sociedade, inevitavelmente vem à tona um debate sobre o que perdemos e o que ganhamos. Embolados num mesmo saco, privilégios e direitos são postos numa linha equânime de (des)entendimento.
 
Dependendo da perspectiva, o que é conquista vira favor ou, pior, o que é necessidade vira luxo. No caso da Previdência, das reformas trabalhistas e da reforma política, se mudamos os personagens, mudamos os números em jogo. O perigo, porém, é continuarmos numa imobilidade histórica com o mesmo sonho de futuro para poucos.

Muitos clamam por reformas no Brasil quase como dogma evolutivo. São necessárias porque o país e o mundo mudaram — logo, também precisamos, por extensão, mudar. Outros reclamam das mesmas, dizendo que conquistas do século XX são necessariamente para toda a vida, de acordo com seu lugar social. Geralmente, os que mais têm a perder querem conservar, e os que menos têm a perder querem mudar. Uma dinâmica natural no âmbito de um país de brutal desigualdade social. É muito difícil acharmos que a cabeça de um economista de mercado pensará da mesma forma que a cabeça de uma professora de escola municipal. Valores, carreiras e aposentadorias de ambos são tão discrepantes que não se pode imaginar um senso comum. Da mesma forma, devemos levar em conta no Brasil as realidades díspares de situações espaciais — não só o meio urbano e rural, mas as múltiplas regiões totalmente diferentes que temos na nossa federação.

As reformas, portanto, são pontos cruciais de debate em uma sociedade. Elas mexem diretamente com um tema que, lembremos, nunca esteve tão em baixa na economia dos sentidos: vidas. São vidas que devem ser reorganizadas, não apenas em suas premissas profissionais ou políticas, mas na própria ideia de passado, presente e futuro. São atos propostos e executados de forma unilateral por um congresso moral e politicamente desacreditado, legislando sobre a vida de milhões em nome de interesses... de quem mesmo? Do capital em sua marcha inexorável como único princípio universal da humanidade? Do patronato — e sindicatos organizados em Brasília — cujas pautas são defendidas presencialmente nos salões acarpetados? Ou os interesses em jogo são de anônimos e dos mais pobres, como afirmaram textos que circularam nesse fim de semana? E, se for isso, por que deputados e senadores não se elegeram propondo tais mudanças na aposentadoria e na legislação trabalhista? Por que fizeram isso na socapa de um plenário noturno, como diriam os antigos? Por que não se abre um debate em vez de produzirem informação oficial explicando o que já está decidido? Lembremos que estamos sob um governo sem legitimidade eleitoral, conduzido por um ex-vice-presidente que vive o absurdo discursivo de dizer que, se por um lado, era o substituto legal de uma presidência derrubada (com argumentos de que foi tão votado quanto a vencedora do pleito), por outro, na hora dos crimes indicados para a mesma chapa eleita, clama por contas separadas.

O fato é que uma reforma da Previdência, por exemplo, mexe com a nossa própria concepção de tempo. Tempo de trabalho. Tempo de vida. Tempo de contribuição. O meu tempo, que já é diferente do tempo dos meus pais, será diferente do tempo das minhas filhas. A noção de vida útil se alarga enquanto a própria ideia de vida se torna cada vez mais frágil em um país com número chocante de mortes dos jovens e da população em geral. Viveremos mais pelo avanço da medicina, mas seu impacto não prevalece como serviço diário vital para a parte mais pobre da população. Podemos dizer o mesmo sobre a mudança na noção de trabalho. Todo discurso contemporâneo sobre a flexibilização da mão de obra e suas transformações tecnológicas não basta para entendermos como a vida de um trabalhador de carteira assinada — como seus avós e pais — será atingida em sua confiança no futuro. Reformar presentes é também alterar planos de porvir. E é, também, reformar passados que organizam experiências. Elas atingem consensos históricos em prol de velocidades contemporâneas.

Reformar, lembro, é dar nova forma, é melhorar algo já formado. Digo essa obviedade para evitarmos automatismos de classe ou ideologia ao falarmos do tema. Se estamos tratando de mudanças que impactam vidas, reformas precisam melhorá-las. O desafio é justamente entender como propostas que desagradam maiorias podem melhorar as vidas que reclamam. Ou acreditamos no erro comum de acharmos que um “povo” brasileiro é ignorante de seu próprio destino de trabalhadores bovinos, ou continuaremos a armadilha de sermos um país pensado por poucos, para poucos. As pessoas sabem que o grosso da dívida feita para muitos pagarem foi criada pelos mesmos poucos que sempre ganharam muito. Não é o salário do professor, do aposentado comum ou do pequeno produtor rural que quebrou o país. Reformar as coisas deve ocorrer ao mesmo tempo em que afirmamos diariamente ideias democráticas de justiça social.

Autor(a): Fred Coelho
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Jandira, Maria Lucia de Sousa, Joaquim F. de Oliveira

 

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