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SEMPRE O ‘BOTA-ABAIXO’
publicado em: 15/03/2018 por: Lou Micaldas

Crivella aplicou na Vila Kennedy a violência que marca há um século as relações do poder público com o povo do Rio

A brutalidade das retroescavadeiras a serviço de Marcelo Crivella contra pequenos comerciantes da Vila Kennedy reapresentou à cidade o padrão de tratamento do poder público à população periférica — seja ela real, pela distância em quilômetros das áreas centrais, ou metafórica, pelo hiato de renda, escolaridade, acesso a bens e serviços. Desde que o Rio é Rio, a ordem é derrubar primeiro, cuidar depois. Melhor dizendo: descuidar sempre. O atual prefeito é o elo recente de uma cadeia que vem de longe. O “bota-abaixo” começou na virada do século XX. E nunca parou.

A expressão foi criada para designar as reformas urbanísticas realizadas a partir de 1903, no então Distrito Federal, por Francisco Pereira Passos (1902-1906), em obediência ao projeto modernizador do presidente Rodrigues Alves. O prefeito se inspirou nas transformações de Georges Haussmann em Paris para fazer do Rio inflado por fluxos migratórios uma cidade “civilizada”. Sanear, higienizar, ordenar, demolir formaram o glossário de argumentos que varreram do Centro cortiços, casas de cômodo, estalagens e velhos casarões. As habitações coletivas faziam da capital uma cidade insalubre, assolada por epidemias de varíola, malária e febre amarela — a mesma que, hoje, alcança centros urbanos Brasil afora.

“Reconhecida como indispensável para o processo de remodelação urbana da capital federal, a operação ‘bota-abaixo’ ficou marcada pela maneira autoritária com que lidou com as milhares de pessoas prejudicadas pela perda de suas moradias e negócios”, escreveu a historiadora Marly Motta no “Atlas histórico do Brasil” (CPDoc/FGV).

A partir das reformas, antigos moradores da região mudaram-se para outras áreas da cidade. Uns foram viver nos cortiços que escaparam, outros partiram para o subúrbio, os demais juntaram-se aos habitantes dos morros, contou Rafael Soares Gonçalves em “Favelas do Rio de Janeiro – História e direito” (Pallas/PUC-Rio).

Meio século depois, a segregação dos pobres continuou com a política de remoções do então governador Carlos Lacerda (1960-1965). Mudou o nome, não a prática. O lacerdismo forjou a Vila Kennedy, um conjunto de cinco mil habitações que recebeu moradores do Morro do Pasmado (Botafogo), das comunidades do Esqueleto (Maracanã) e da Praia de Ramos. As favelas foram todas postas abaixo. Os cineastas Luiz Antônio Pillar e Anderson Quack tratam do assunto no documentário “Remoção”, que entrevistou 60 pessoas, entre moradores, autoridades, pesquisadores.

O historiador Amilcar Araújo Pereira, vice-coordenador da Pós-Gradução em Educação da UFRJ, cresceu num conjunto habitacional em Inhoaíba, na Zona Oeste, também erguido na década de 1970 para abrigar famílias removidas. “Os contextos históricos são diferentes, mas em comum esse projetos têm o desprezo e o desinteresse pela população pobre e negra. As intervenções articuladas por diferentes governos (federais e municipais) produziram exclusão, não bem-estar. Chama atenção a presença do Estado pela via da força e a ausência em serviços e acesso a bens culturais”.

Recentemente, o projeto de cidade olímpica resultou na remoção de mais 70 mil pessoas durante a gestão de Eduardo Paes (2009-2016), segundo estimou o Comitê Popular da Copa e Olimpíadas na publicação “Rio Olímpico”, dedicada ao legado dos megaeventos. Na Vila Autódromo, que deu lugar ao Parque Olímpico, restaram duas dezenas das mais de 800 famílias que lá chegaram a viver.

Agora, de carona na intervenção federal na segurança pública do estado, a prefeitura impôs sob o rótulo de choque de ordem pública o “bota-abaixo” na Praça Miami, na Vila Kennedy. Em escala menor, a falta de diálogo e a violência de sempre. À espera dos resultados de nunca.

Autor(a): Flávia Oliveira
Fonte: oglobo.globo.com/sociedade/sempre-bota-abaixo-22490473
Colaborador(a): Carlos Henrique de Souza

 

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