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TIRA, BOTA, DEIXA FICAR
publicado em: 24/11/2017 por: Lou Micaldas

Se pensarmos que o secretário de Cultura confundiu Bertolt Brecht com Bertoldo Brecha sentimos nosso drama

Outro dia compartilhei, nas redes, um vídeo de Nanda Costa dando um depoimento sentido em defesa da saúde no Rio. A prefeitura não renovou contrato para continuar mantendo um dispositivo do SUS, chamado CAPSad. Centros de Atenção Psicossocial, Álcool e Drogas. Serviços gratuitos, desde medicamentos até oficinas. Famílias contam com esse apoio. Funcionários capacitados estão sem salários há uns seis meses. Coisa muito séria e urgente. Ela termina dizendo o jargão que serve pra nossa vida em todas as direções, "Não ao retrocesso". Mas...

Domingo fui assistir à primeira direção da premiada atriz Dani Barros. Era “Dançando no escuro”, que teve sua versão original no cinema, em filme de Lars Von Trier estrelado pela cantora Björk. Lembrava-me de ter sofrido com a difícil história no cinema e achava que nada poderia se comparar àquela experiência. A montagem é comovente. Antes de começar, fiquei sabendo que aquele grupo tinha sido um dos que haviam levado calote da mesma prefeitura, que simplesmente não pagou a Programa de Fomento à Cultura Carioca. Eram 204 contemplados, pelo que deveria ser um abençoado benefício para tantos profissionais. Uma das coisas mais importantes do fomento, além de viabilizar muitos ofícios, é dar acesso a todos, portanto seria um programa de formação de plateia. Cultura tem tudo a ver com educação, com autoestima, com senso crítico. Opa, nada disso parece interessar muito aos políticos que ocupam cargos como governador, prefeito e assim por diante. Bem, se pensarmos que o secretário de Cultura do Rio, André Lazaroni, do PMDB, andou confundindo Bertolt Brecht com Bertoldo Brecha, sentimos o drama todo que nos assola. Não foi o secretário de Transportes, que já seria vexaminoso. Foi o de Cultura, minha gente. 

Alguém soprou o nome correto, mas ele não conseguiu se aprumar. Repetia entre o errado e o absurdo da situação, deixando claro que não era um equívoco, mas uma genuína ignorância. E estava alterado (lembrando até uma certa Janaína Paschoal), pois defendia os indefensáveis corruptos da Alerj, querendo, como a maioria ali, se justificar na Constituição. Aliás, a Constituição está, para o estilo de certos políticos cariocas, como Jesus está para a religião. Usam, interpretam, manipulam em proveito próprio apenas. Pois é, quem sabe se o secretário frequentasse mais o teatro, quem sabe se houvesse um programa respeitado pela prefeitura, quem sabe se pelo menos entendessem a ironia que representa esse ato falho. Mas sabemos que é, principalmente, uma imensa tragédia para todos nós como artistas, plateias, eleitores e cidadãos.

No meio da apresentação de “Dançando no escuro”, os atores fazem um silêncio repentino, em protesto pelo direito que foi simplesmente usurpado, desde a gestão de Eduardo Paes. Aquele que, por amar tanto nossa cidade, ao encerrar seu mandato, foi terminar de educar seus filhos nos Estados Unidos e só dá as caras pra repetir aquela reza diária de seus companheiros de profissão: “O ex-prefeito Eduardo Paes repudia as acusações e afirma jamais ter participado de qualquer esquema de propina”. Passou o dever de pagar o fomento de 2016 adiante, mas deve estar assistindo a todas as boas peças da Broadway, quem sabe até um Brecht?

Esta semana, quando vi desembargadores do Rio nos dando um respiro de honestidade, tive medo de acreditar. Eles mandaram prender os já cadastrados presidiários, algo que, para nós, escaldados e roubados diariamente, parecia completamente impensável. São eles: Jorge Picciani, presidente da Alerj, Paulo Melo e Edson Albertassi. Todos companheiros de Lazaroni no PMDB. Quem diria... parece que Picciani deixou a taça de vinho pela metade, quando foi preso pela segunda vez. Ainda não pude ver as notícias de hoje, tenho medo de estar tudo solto outra vez. Adoram brincar de escravos de jó, jogavam caxangá...

De repente, a notícia da prisão dos Garotinhos, almas gêmeas da política carioca. Ainda ouço o advogado dizer na TV que foram levados antes pro Corpo de Bombeiros, porque corriam risco, caso fossem para o mesmo presídio onde se encontram Sérgio Cabral e inimigos do PMDB. Gente, será que Sérgio Cabral já superou os chefões de Bangu? Bem, cacife e experiência pra isso, ele tem. O que pensar de três ex-governadores presos, mais o presidente da Alerj? Guerreiros com guerreiros fazem zigueziguezá!

Mas voltando ao Lazaroni, queria encerrar lembrando a ele que Bertolt Brecht acreditava na interação do ator com a plateia. Pense, sr. secretário, sabe o contrário disso? Pois é, são vocês aí dentro. Ah, pegue a caneta e escreva 50 vezes: BERTOLT BRECHT, BERTOLT BRECHT, BERTOLT BRECHT...

P.S. Melhor não esperar o jornal da noite. Já enjaulei todas as letras que podia aqui!

Autor(a): Zélia Duncan
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/tira-bota-deixa-ficar-22106312

 

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