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INFORMAÇÃO / ARTIGOS

UGANDA É AQUI...
publicado em: 19/01/2018 por: Lou Micaldas

Sair de casa para assistir a shows e peças significa apoiar o que a cidade tem de bom

Em Uganda, numa sociedade carola, hipócrita e violenta, começam a fazer listas de homossexuais, que são presos e, muitas vezes, brutalmente assassinados. Suas famílias também sofrem as consequências, e alguns membros são punidos pelo fato de não terem reportado o “crime”. A religião é usada para colaborar, incitar e dar suporte às agressões. Como não pode nunca deixar de ser, em meio ao radicalismo brotam a hipocrisia, a mentira e a violência. Porque, para sustentar um dedo que aponta para o que é humano no outro, como se fosse pecado e desgraça, é preciso esconder-se da própria humanidade, fazendo-se de semideus. Tudo se apresenta tão frágil e perigoso. E sempre a mesma ladainha, batem na tecla da família, como se não viéssemos todos de uma, como se não quiséssemos todos pertencer a um núcleo familiar que nos acolha e onde possamos aprender cumplicidade, proteção e afeto.

Para denegrir ainda mais, inventam que os gays estupram, são pedófilos e cometem atos escatológicos. Como são frágeis os lares radicais, não? Tudo os ameaça nesse mundo, tudo pode fazer ruírem os dogmas, as regras, o que acreditam ser a moral. A construção não se sustenta por si só, precisa do preconceito, precisa semear o medo, para conseguir adeptos. Isso lhe é terrivelmente familiar? Acontece em Uganda, na África, lugar que provavelmente está na nossa memória como a terra do sanguinário Idi Amin Dada, ou onde se matam gorilas. Um mundo absurdo, desumano, desprovido de tudo e distante como uma outra galáxia ou até outra encarnação, não é mesmo? Quem dera fosse... Uganda é aqui.

É o que saímos pensando e sentindo, depois de assistir à peça intitulada “O jornal — The Rolling Stone”, em cartaz nas trincheiras do Teatro Poeira, em Botafogo. Falo assim porque manter um teatro, qualquer teatro, ainda mais no Rio de Janeiro de hoje em dia, é puro ato de resistência, teimosia e amor.

Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos convocaram um elenco fino, que vai das sutilezas ao desespero, sem que ninguém duvide de nada. A plateia respira junto, ou perde o oxigênio, mas sempre em sintonia com cada cena. Luz, movimento, trilha, figurinos, tudo harmonizado, tudo muito bem cuidado e importante. De novo, dentro de um teatro, é onde consigo rastrear um pouco de orgulho do Rio.

Nossa cidade, que abriga e ao mesmo tempo desprestigia o Jongo da Serrinha, por exemplo, que sempre foi um tesouro pra nossa cultura, mas por conta de uma prefeitura, que por não ser laica e nem responsável por todos, quer ver tudo que diz respeito às outras religiões, especialmente as africanas, ir à míngua.

O jongo é pai do samba, foi trazido pelos negros escravos, de origem bantu. É uma dança originária da região do Congo-Angola. Aliviava o sofrimento, acalmava a revolta. No Rio, era jogado nos morros de Mangueira, São Carlos, Salgueiro e, principalmente, na Serrinha, mais isolada da parte central da cidade, onde justamente foi possível preservar essa comovente tradição. Foi tombado pelo Iphan como Patrimônio Imaterial do Sudeste, porém isso nada quer dizer a Crivella e seus fiéis, pois o Jongo da Serrinha teve repasses cancelados, após 17 anos de parceria. Começaram dando evasivas, adiando respostas. Até que mandaram dizer que não havia verba. Vale a pena se informar e ver o quanto as coisas que acontecem por lá envolvem toda comunidade. É um bem social, com vários braços estendidos.

O elenco da peça “O jornal” é todo negro. Que geração linda de artistas, cheios de acabamento nas interpretações. Foi também no Teatro Poeira que assisti ano passado a “BR TRans”, com Silvero Pereira, direção de Jezebel de Carli. E no Poeirinha, vi a estreia de “Antígona”, com Andrea Beltrão, direção de Amir Haddad. No Sesc Ginástico, onde brilhou a montagem dirigida por Dani Barros para “Dançando no escuro”, neste fim de semana acontece “Boca de Ouro”, texto de Nelson Rodrigues, com a trupe de Gabriel Villela. Sair de casa e assistir aos shows, peças, rodas de samba e todas as expressões culturais do cardápio significa também apoiar a cidade e o que ela pode nos oferecer de bom.

Um amigo e diretor argentino me contou que, naquele país, só se pode fechar um teatro se outro for aberto. Sabe o que senti? Inveja! Inveja mesmo. Vontade de fazer essa lei aqui e ainda incluir os cinemas todos que sumiram da nossa paisagem. Calma, calma, controla a ansiedade, respira... tá, acalmei, vou apenas torcer para que o Rio não perca mais nenhum espaço cultural, e que as perseguições religiosas se desintegrem no mar. E que nas próximas eleições, a gente consiga apagar um pouco a imagem de que só se candidata e vence quem não tem nenhum apreço por essa cidade...

Autor(a): Zélia Duncan
Fonte: Jornal O Globo

 

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