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VIVEMOS NOUTRO MUNDO
publicado em: 12/03/2018 por: Lou Micaldas

Eleição ainda está indefinida, mas movimentos nascidos na internet ganharam espaço nos últimos anos

O que é a vida digital? São os gadgets que usamos, as redes que acessamos, o drone comprado de presente para fazer fotos do alto? Ou não é algo que começa a permear mais e mais em nossas vidas, de formas que sequer percebemos? Na noite de domingo, a imprensa italiana apostava na vitória do grupo político do ex-premiê Silvio Berlusconi. Seu partido ficou em quarto. Em primeiro chegou o Movimento Cinco Estrelas, ideologicamente indefinido. Um movimento que nasceu na internet.

Em geral, as discussões sobre política no Velho Continente passam por alguns eixos. O resultado das eleições é favorável ou contra a União Europeia? Ou então: como se posicionaram os eleitores a respeito de imigrantes? Por fim, uma preocupação recorrente. A extrema-direita está em ascensão? Claro, fala-se sempre também da deterioração dos partidos tradicionais.

Mas poderíamos ir além.

O Movimento Cinco Estrelas nasceu na internet, fundado por um blogueiro, e sua maior preocupação é instituir uma democracia mais digital. Na Espanha, diferentemente do M5S, o Podemos não tem nenhuma ambiguidade ideológica. É de esquerda. Nas eleições de 2016, tornou-se a terceira força política do país. Tampouco é indefinido o En Marche!, que na França elegeu o presidente Emmanuel Macron e mais de metade dos deputados no fim do ano passado. É um movimento liberal. Ideologicamente distintos, os três têm em comum o fato de serem eleitos com campanhas baseadas principalmente na comunicação digital.

Ora. Donald Trump gastou, em campanha, uma fração do que torrou Hillary Clinton. Se o Partido Republicano se definiu, nos últimos anos, como liberal na economia, antiliberal nos costumes, Trump é outro bicho. Populista na economia, um discurso vagamente reacionário que em nada combina com sua vida pessoal e um flerte aberto com a extrema-direita racista. Sua política em muito pouco se assemelha com a dos Bushes, com Ronald Reagan. Não é um republicano — é alguém que sequestrou o partido por dentro, fez uma campanha pela internet, e há um ano entrou na Casa Branca pela porta da frente.

Em 2009, quando jovens iranianos tomaram as ruas numa revolução sem sucesso, mas se organizando pelo Bluetooth dos celulares, era exótico, porém instigante. Entre 2010 e 2011, a Primavera Árabe tocada via Twitter foi uma esperança de liberdade num canto oprimido do mundo. Quando o Podemos! chegou em terceiro naquele junho de 2016 espanhol, era uma curiosidade e um foco de atenção. Trump, quase seis meses depois, poderia ser uma bizarrice.

Com Macron e o M5S, em democracias estabelecidas, já dá para chamar de regra.

Na quarta-feira, Jair Bolsonaro se filiou ao PSL. Fingimento puro: o partido lhe é irrelevante. Na pesquisa CNT/MDA divulgada esta semana, lá está ele, em primeiro no cenário sem Lula, com os mesmos 20% que tinha uns tantos meses atrás. Pela ferramenta da consultoria Torabit dá para ver de longe: é o candidato mais curtido, com mais fãs, mais compartilhado.

Muita gente boa aposta que ele vai derreter. Talvez.

Esta não é uma previsão, até porque Bolsonaro não é o único a operar de forma inteligente no digital. Tanto a Rede quanto o Novo têm esta ambição. E há movimentos que não são partidos mas tentam influenciar no pleito. O Agora, com um corte ideológico similar ao de Macron. O Brasil 200, conservador. O próprio MBL, com seu histrionismo de direita. A turma do Quero Prévias tentou reorganizar a esquerda pela internet — o PT não deixou.

A eleição ainda está indefinida e o fisiologismo partidário brasileiro entranha, resiste. Mas não custa lembrar. O mundo já é muito diferente daquele que elegeu Dilma Rousseff faz quatro anos.

Autor(a): Pedro Doria
Fonte: oglobo.globo.com/economia/vivemos-noutro-mundo-22470897
Colaborador(a): Paulo Vieira de Oliveira Sobrinho

 

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