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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

ALBERTO DA COSTA E SILVA
publicado em: 25/09/2015 por: William Gambini

BIOGRAFIA

Quarto ocupante da Cadeira nº 9, eleito em 27 de julho de 2000, na sucessão de Carlos Chagas Filho, e recebido pelo acadêmico Marcos Vinicios Vilaça em 17 de novembro de 2000. Recebeu o acadêmico José Mindlin.

Alberto Vasconcellos da Costa e Silva nasceu em São Paulo, em 12 de maio de 1931. Filho do poeta Da Costa e Silva (Antônio Francisco da Costa e Silva) e de Creusa Fontenelle de Vasconcellos da Costa e Silva.

Fez os estudos primários e iniciou o curso secundário no Colégio Farias Brito, em Fortaleza. Em 1943, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde cursou o Externato São José e o Instituto Lafayette. Diplomata pelo Instituto Rio Branco em 1957.

Doutor Honoris Causa em Letras pela Universidade Obafemi Awolowo (ex-Universidade de Ifé), da Nigéria, em 1986 e em História pela Universidade Federal Fluminense em 2009.

Professor do Curso de Aperfeiçoamento de Diplomatas do Instituto Rio Branco em 1971-1972. Presidente da Banca Examinadora do Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, de 1983 a 1985, e vice-presidente de 1995 a 2000.

Membro do Conselho Nacional de Direito Autoral, em 1984 e 1985; membro do Comitê Científico do Programa Rota do Escravo, da UNESCO, de 1997 a 2005.

Membro do Júri do Prêmio Camões em 2001 e 2003.

Prêmio Juca Pato – Intelectual do Ano de 2003, da União Brasileira de Escritores e Folha de S. Paulo.

Homem de Ideias de 2007,escolhido pelo Jornal do Brasil.

Membro do PEN Clube do Brasil e Sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e Sócio correspondente da Academia Portuguesa da História e da Real Academia de História, da Espanha.

Na Academia Brasileira de Letras, foi Secretário - Geral em 2001, Presidente em 2002 e 2003 e Primeiro- Secretário em 2008 e 2009. Diretor das Bibliotecas em 2010 e 2011.

Doutor Honoris Causa, em História, pela Universidade Federal da Bahia, em 2013.

Vencedor do Prêmio Camões, em 2014.

Carreira diplomática

Secretário na Embaixada do Brasil em Lisboa (1960-63) e na Embaixada de Caracas (1963-64);

Cônsul em Caracas (1964-67);

Auxiliar do Secretário-Geral de Política Exterior (1967-69);

Secretário na Embaixada em Washington (1969);

Oficial de Gabinete e Assessor de Coordenação do Ministro das Relações Exteriores (1970-74);

Ministro-Conselheiro na Embaixada em Madri (1974-76);

Ministro-Conselheiro na Embaixada em Roma (1977-79);

Embaixador em Lagos, Nigéria (1979-83) e cumulativamente em Cotonu, República do Benim (1981-83);

Chefe do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores (1983-84);

Subsecretário-Geral de Administração do Ministério das Relações Exteriores (1984-86);

Embaixador em Lisboa (1986-90);

Embaixador em Bogotá (1990-93);

Embaixador em Assunção (1993-95);

Inspetor-Geral do Ministério das Relações Exteriores (1995-98).

Representou o Brasil em numerosas reuniões internacionais, tendo sido delegado do Brasil na reunião da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, em Adis Abeba, em 1961; representante pessoal do Ministro das Relações Exteriores nos encontros ministeriais, realizados em São Domingos, em 1984, pela Organização dos Estados Americanos, para a preparação das comemorações do V Centenário do Descobrimento da América; e representante pessoal do Ministro das Relações Exteriores na Reunião dos Ministros das Relações Exteriores do Mecanismo Permanente de Consulta e Concertação Política (Grupo do Rio), em 1991.

Condecorações

Brasileiras

Grã-cruz da Ordem de Rio Branco; grande oficial da Ordem do Mérito Militar; grande oficial da Ordem do Mérito Aeronáutico; comendador da Ordem do Mérito Naval; Comendador da Ordem do Mérito Cultural; grã-cruz da Ordem Estadual do Mérito da Renascença do Piauí; grã-cruz da Ordem do Mérito de Brasília; medalha do Pacificador; medalha do Mérito Tamandaré; medalha do Mérito Santos Dumont; medalha do Mérito Cultural Oliveira Lima, do Governo de Pernambuco; medalha do Mérito Cultural Da Costa e Silva, do Governo do Piauí. Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico.

Estrangeiras

De Portugal: grã-cruz da Ordem Militar de Cristo; grã-cruz da  Ordem Militar de Sant' Iago da Espada; grã-cruz da Ordem do Infante Dom Henrique. Da Colômbia: grã-cruz de Boyacá; comendador da Ordem de San Carlos. Do Paraguai: grã-cruz da Ordem do Mérito. Do Peru: grã-cruz da Ordem do Sol; grã-cruz da Ordem do Mérito por Serviços Distinguidos. Da Espanha: comendador com placa da Ordem de Isabel, a Católica. Da Itália: grande oficial da Ordem do Mérito. Da Venezuela: Ordem de Francisco de Miranda, em sua segunda classe; comendador da Ordem do Libertador. Da Bolívia: comendador da Ordem do Condor dos Andes. Do Egito: comendador da Ordem da República. Do Equador: comendador da Ordem Nacional do Mérito. Dos Camarões: oficial da Ordem do Mérito. Da Costa do Marfim: oficial da Ordem do Mérito. Do Gabão: oficial da Ordem da Estrela Equatorial. Da Guatemala: oficial da Ordem do Quetzal. Da Nicarágua: oficial da Ordem de Rubén Darío. Do Togo: oficial da Ordem do Mono.

Fonte: www.academia.org.br

O PRÉMIO CAMÕES 2014 É DO BRASILEIRO ALBERTO DA COSTA E SILVA

Poeta e historiador foi distinguido por unanimidade com o prémio mais importante da criação literária em língua portuguesa. O escritor Mia Couto, o último premiado, diz que o brasileiro faz o trabalho de resgatar a memória de África "com arte e elegância". Ao PÚBLICO o escritor disse ter ficado perplexo e nunca ter cogitado recebê-lo

Uma distinção justa a um nome que merece um reconhecimento maior. O poeta brasileiro, memorialista, ensaísta e historiador especialista em África Alberto da Costa e Silva foi o escolhido do júri, é ele o Prémio Camões 2014, a distinção mais importante da criação literária em língua portuguesa. A escolha pode constituir uma supresa para alguns ( e foi-o para o próprio) mas a decisão foi tomada em unanimidade, anunciou o júri esta sexta-feira. Alberto da Costa e Silva, de 83 anos, sucede assim ao moçambicano Mia Couto, vencedor do Prémio Camões 2013.

"Mantendo a mesma elevada qualidade literária em todos os géneros que praticou, a sua refinada escrita costurou uma obra marcada pela transversalidade", começou por dizer Affonso Romano de Sant’Anna, presidente do júri, que leu a acta da decisão do prémio aos jornalistas. "A obra de Alberto da Costa e Silva é também uma contribuição notável na construção de pontes entre países e povos de língua portuguesa", continuou o brasileiro.

Questionado pelo PÚBLICO sobre a escolha do historiador, Affonso Romano de Sant’Anna explicou que para se chegar ao premiado foram vários os nomes falados, o processo de escolha "passou de alguma maneira em revista o que nós sabemos da cultura brasileira, portuguesa e africana mas fixou por unanimidade no nome de Alberto Passos Silva, um exemplar dessa cultura".

Para o académico e escritor brasileiro Antonio Carlos Secchin, que integrou o júri deste ano, Alberto da Costa e Silva "é um escritor que estuda a História". "Quando se pensa num discurso do historiador muitas vezes não se atenta também para a qualidade literária desse discurso e o Alberto da Costa e Silva consegue ser um escritor antes de tudo", defendeu Secchin, destacando ainda "as qualidades superiores" do premiado. "Espero que a esta distinção corresponda uma projecção do nome dele", acrescentou ainda o jurado para quem Alberto da Costa e Silva "merece ser reconhecido como um dos maiores intelectuais vivos" do Brasil. "O desejo do júri foi expandir o conhecimento da sua obra para um universo lusófono bem maior do que aquele em que ele é actualmente conhecido."

Numa breve conversa telefónica a partir Brasil, com algumas interferências na ligação por não se encontrar em casa e estar ao telemóvel num sítio sem as melhores condições acústicas, o historiador disse ao PÚBLICO que “foi com grande surpresa” que recebeu a notícia de que lhe tinha sido "outorgado" o Prémio Camões 2014 já que não estava nas suas "cogitações". “Um prémio que tem sido instituído aos maiores escritores de língua portuguesa”, acrescentou. “De maneira que foi com grande surpresa, com perplexidade mesmo, só depois é que me dei conta que devia ter manifestado minha alegria e meu grande orgulho por essa alta distinção que me foi agora dada."

Além de Affonso Romano de Sant’Anna e Antonio Carlos Secchin, integraram o júri desta 26ª edição o premiado do ano passado, Mia Couto, em representação de Moçambique, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, Rita Marnoto, professora associada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e José Carlos Vasconcelos, director do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias.

Alberto Costa e Silva, nascido em São Paulo em 1931, foi embaixador do Brasil em Portugal. Papel destacado pelo director do Jornal de Letras. "Nos seus dois volumes de memória, até agora publicados, o segundo tem uma parte que é exactamente passada em Portugal", lembrou José Carlos Vasconcelos. "É um excelente testemunho sobre um período da história de Portugal."

O brasileiro, africano e português

O escritor angolano José Eduardo Agualusa afirma que este "é um prémio também para África". "Para um africano não é possível passar ao lado de Alberto", disse Agualusa, acrescentando depressa: "É um brasileiro que é também africano". "E português", soma ainda José Carlos Vasconcelos.  Agualusa destacou ainda a poesia deste historiador. "É uma poesia que me acompanha desde há muito tempo e que tem também a ver com África", explicou. "Alberto da Costa e Silva nunca deixou de ser um poeta mesmo quando foi um historiador."

A poesia de Costa e Silva não é uma poesia extensa, defendeu a académica Rita Marnoto, "mas por si poderá ser considerada enquanto momento simbólico de todas as facetas" deste escritor brasileiro. É uma "poesia fundamental, essencial", destacou ainda a jurada.

Já o escritor moçambicano Mia Couto diz que Alberto da Costa e Silva faz o trabalho de resgatar a memória de África "com arte e elegância". "É um poeta que está a escrever" reagiu o anterior premiado, acrescentando que o que "se está a premiar aqui não é só o trabalho de alguém que caminha pela história e pela reconstituição do passado mas que faz isso com qualidade literária". Mia Couto mostrou-se ainda "grato", como escritor africano, pelo trabalho que Alberto da Costa tem vindo a desenvolver.

Fonte: www.publico.pt
Autor: Cláudia Carvalho

Algumas poesias do poeta e historiador Alberto da Costa e Silva:

TRISTE VIDA CORPORAL

Se houvesse o eterno instante e a ave
ficasse em cada bater d'asas para sempre,
se cada som de flauta, sussurro de samambaia,
mover, sopro e sombra das menores cousas
não fossem a intuição da morte,
salsa que se parte... Os grilos devorados
não fossem, no riso da relva, a mesma certeza
de que é leve a nossa carne e triste a nossa vida
corporal, faríamos do sonho e do amor
não apenas esta renda serena de espera,
mas um sol sobre dunas e limpo mar, imóvel,
alto, completo, eterno,
e não o pranto humano.

VERA CANTA

Dissesse agora o sonho sobre o mar
 em que garimpo as ondas e os luares,
 saltimbancos de azul e alvos bordados
 de touros, sóis e pãs descabelados,
 compreenderias que ouço a tua voz
 de avena clara e pão, que os bichos voltam
 de suas solidões para o teu canto
 e vêm pastar nesta planície enorme,

que te vejo na flor, na lã, no cacto,
 sentada, interrogando as tuas mãos
 e aquário, peixes, câncer…. lua e sol,

que não te crio para um sonho raro,
 pois és bela, real, mais do que a fábula,
 ó dinamene, ó macieira, ó prado!

Alberto da Costa e Silva, um altiplano denso de ternura e encantamento. Megulhar, é o melhor verbo para exprimir a artesania clarificada desse Poeta extraordinário, que sabe o que faz, realizando uma tecelagem do belo nas muitas engrenagens de seu interior amante de Vera, que canta ou vibra em cada linha de seu percurso de homem e semideus:

Logo será tempo de amar e não amar,
amando, não o amor que em nós se faz
como os pêlos das feras, que surgem de seu sangue,
mas o que corta a nossa carne como a chuva
e arde como um sol não recordado
ao relento, de noite, junto à fonte
do orvalho, mas terroso, estupro e cacto.
Febre do céu, o que amar amamos
não é tempo de amar agora, mas
o huno amor, o chão que corrompemos
com boi e grão, este partir em fome.

"SONETO A VERA" é um clássico da poesia brasileira:

Estavas sempre aqui, nesta paisagem.
E nela permaneces, neste assombro
do tempo que só é o que já fomos,
um céu parado sobre o mar do instante

Vives subitamente em despedida,
calma de sonhos, simples visitante
daquilo que te cerca e do que fica
imóvel no que é breve, pouco e humano.

As regatas ao sol vêm da penumbra
onde abria as janelas. E de então,
vou ao campo de trevo, à tua espera.

O que passa persiste no que tenho:
a roupa no estendal, o muro, os pombos,
tudo é eterno quando nós o vemos.

Os encontros poéticos e imaginários de Alberto da Costa e Silva são exemplares para o cânone de sua autêntica linguagem:

Quando nos criaram,
as mãos do deus já estavam
cansadas.

Por isso,
somos frágeis e mortais. E amamos,
para resgatar o que no deus
foi sonho.

Colaborador(a): Marly Santanelli

 

 

 

 

 

 


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