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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

ARIANO SUASSUNA
publicado em: 28/09/2015 por: Netty Macedo

BIOGRAFIA

Sexto ocupante da Cadeira nº 32, eleito em 3 de agosto de 1989, na sucessão de Genolino Amado e recebido em 9 de agosto de 1990 pelo Acadêmico Marcos Vinicios Vilaça.

Ariano Vilar Suassuna nasceu em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa (PB), em 16 de junho de 1927, filho de Cássia Villar e João Suassuna. No ano seguinte, seu pai deixa o governo da Paraíba e a família passa a morar no sertão, na Fazenda Acauhan.

Com a Revolução de 30, seu pai foi assassinado por motivos políticos no Rio de Janeiro e a família mudou-se para Taperoá, onde morou de 1933 a 1937. Nessa cidade, Ariano fez seus primeiros estudos e assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de “improvisação” seria uma das marcas registradas também da sua produção teatral.

A partir de 1942 passou a viver no Recife, onde terminou, em 1945, os estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Osvaldo Cruz. No ano seguinte iniciou a Faculdade de Direito, onde conheceu Hermilo Borba Filho. E, junto com ele, fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1947, escreveu sua primeira peça, Uma Mulher Vestida de Sol. Em 1948, sua peça Cantam as Harpas de Sião (ou O Desertor de Princesa) foi montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. Os Homens de Barro foi montada no ano seguinte.

Em 1950, formou-se na Faculdade de Direito e recebeu o Prêmio Martins Pena pelo Auto de João da Cruz. Para curar-se de doença pulmonar, viu-se obrigado a mudar-se de novo para Taperoá. Lá escreveu e montou a peça Torturas de um Coração em 1951. Em 1952, volta a residir em Recife. Deste ano a 1956, dedicou-se à advocacia, sem abandonar, porém, a atividade teatral. São desta época O Castigo da Soberba (1953), O Rico Avarento (1954) e o Auto da Compadecida (1955), peça que o projetou em todo o país e que seria considerada, em 1962, por Sábato Magaldi “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”.

Em 1956, abandonou a advocacia para tornar-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco. No ano seguinte foi encenada a sua peça O Casamento Suspeitoso, em São Paulo, pela Cia. Sérgio Cardoso, e O Santo e a Porca; em 1958, foi encenada a sua peça O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna; em 1959, A Pena e a Lei, premiada dez anos depois no Festival Latino-Americano de Teatro.

Em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste, que montou em seguida a Farsa da Boa Preguiça (1960) e A Caseira e a Catarina (1962). No início dos anos 60, interrompeu sua bem-sucedida carreira de dramaturgo para dedicar-se às aulas de Estética na UFPe. Ali, em 1976, defende a tese de livre-docência A Onça Castanha e a Ilha Brasil: Uma Reflexão sobre a Cultura Brasileira. Aposenta-se como professor em 1994.

Membro fundador do Conselho Federal de Cultura (1967); nomeado, pelo Reitor Murilo Guimarães, diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPe (1969). Ligado diretamente à cultura, iniciou em 1970, em Recife, o “Movimento Armorial”, interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais. Convocou nomes expressivos da música para procurarem uma música erudita nordestina que viesse juntar-se ao movimento, lançado em Recife, em 18 de outubro de 1970, com o concerto “Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial” e com uma exposição de gravura, pintura e escultura. Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, no Governo Miguel Arraes (1994-1998).

Entre 1958-79, dedicou-se também à prosa de ficção, publicando o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971) e História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana (1976), classificados por ele de “romance armorial-popular brasileiro”.

Ariano Suassuna construiu em São José do Belmonte (PE), onde ocorre a cavalgada inspirada no Romance d’A Pedra do Reino, um santuário ao ar livre, constituído de 16 esculturas de pedra, com 3,50 m de altura cada, dispostas em círculo, representando o sagrado e o profano. As três primeiras são imagens de Jesus Cristo, Nossa Senhora e São José, o padroeiro do município.

Membro da Academia Paraibana de Letras e Doutor Honoris Causa da Faculdade Federal do Rio Grande do Norte (2000).

Em 2004, com o apoio da ABL, a Trinca Filmes produziu um documentário intitulado O Sertão: Mundo de Ariano Suassuna, dirigido por Douglas Machado e que foi exibido na Sala José de Alencar.

Fonte: www.academia.org.br


A CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU

Nos palcos do firmamento
Jesus concebeu um plano
De montar um espetáculo
Para Deus Pai Soberano
E, ao lembrar de um dramaturgo,
Mandou buscar Ariano.

Jesus mandou-lhe um convite,
Mas Ariano não leu.
Estava noutro idioma,
Ele num canto esqueceu,
Nem sequer observou
Quem foi que lhe escreveu.

Depois de um tempo, mandou
Uma segunda missiva.
A secretária do artista
Logo a dita carta arquiva,
Dizendo: — Viagem longa
A meu mestre não cativa.

Jesus sem ter a resposta
Disse torcendo o bigode:
— Eu vejo que Suassuna
É teimoso igual a um bode.
Não pode, mas ele pensa
Que é soberano e pode!

Jesus, já perdendo a calma,
Apelou pra outro suporte.
Para cumprir a missão,
Autorizou Dona Morte:
— Vá buscar o escritor,
Mas vê se não erra o corte!

A morte veio ao País
Como turista estrangeiro,
Achando que o Brasil
Era só Rio de Janeiro.
No rastro de Suassuna,
Sobrou pra Ubaldo Ribeiro.

Porém, antes de encontrá-lo,
Sofreu um constrangimento
Passando em Copacabana,
Um malfazejo elemento
Assaltou ela levando
Sua foice e documento.

A morte ficou sem rumo
E murmurou dessa vez:
— Pra não perder a viagem
Vou vender meu picinez
Para comprar outra foice
Na loja de algum chinês.

Por um e noventa e nove
A dita foice comprou.
Passando a mão pelo aço,
Viu que ela enferrujou
E disse: — Vai essa mesma,
Pois comprar outra eu não vou!

A morte saiu bolando,
Sem direção e sem tino,
Perguntando a um e a outro
Pelo escritor nordestino,
Obteve informação,
Gratificando um menino.

Ao encontrar João Ubaldo,
Viu naufragar o seu plano,
Se lembrando da imagem
Disse: — Aqui há um engano.
Perguntou para João
Onde é que estava Ariano.

Nessa hora João Ubaldo,
Quase ficando maluco,
Tomou um susto arretado,
Quando ali tocou um cuco,
Mas, gaguejando, falou:
—Ele mora em Pernambuco!

A morte disse: — Danou-se
Dinheiro não tenho mais
Para viajar tão longe,
Mas Ariano é sagaz.
Escapou mais uma vez,
Vai você mesmo, rapaz!

Quando chegou lá no Céu
Com o escritor baiano,
Cristo lhe deu uma bronca:
— Já foi baldado o meu plano.
Pedi um da Paraíba
E você trouxe um baiano.

João Ubaldo é talentoso,
Porém não escreve tudo.
“Viva o Povo Brasileiro”
É sua obra de estudo,
Mas quero peça de humor,
Que o Céu tá muito sisudo.

Foi consultar os arquivos
Pra ressuscitar João,
Mas achou desnecessário,
Pois já era ocasião
Pra ele vir prestar contas
Ali na Santa Mansão.

Jesus olhou para a Morte
E disse assim: — Serafina,
Vejo não és mais a mesma.
Tu já foste mais malina,
Tá com pena ou tá com medo,
Responda logo, menina?!

— Jesus, eu vou lhe falar
Que preciso de dinheiro.
Ariano mora bem
No Nordeste brasileiro.
Disse o Cristo: —Tenho pressa,
Passe lá no financeiro!

— Só faço que é pra o Senhor.
Pra outro, juro não ia.
Ele que se conformasse
Com o escritor da Bahia.
Se dependesse de mim,
Ariano não morria.

A morte na internet
Comprou passagem barata.
Quase morria de susto
Naquela viagem ingrata.
De vez em quando dizia:
— Eita que viagem chata!

Uma aeromoça lhe trouxe
Duas barras de cereais.
Diz ela: — Estou de regime.
Por favor, não traga mais,
Porque se vier eu como,
Meu apetite é voraz!

Quando chegou no Recife,
Ficou ela de plantão
Na porta de Ariano
Com sua foice na mão,
Resmungando: — Qualquer hora
Ele cai no alçapão!

A morte colonizada,
Pensando em lhe agradar,
Uma faixa com uma frase
Ela mandou preparar,
Dizendo: “Welcome Ariano”,
Mas ele não quis entrar.

Vendo a tal faixa, Ariano
Ficou muito revoltado.
Começou a passar mal,
Pediu pra ser internado
E a morte foi lhe seguindo
Para ver o resultado.

Eu não sei se Ariano
Morreu de raiva ou de medo.
Que era contra estrangeirismos,
Isso nunca foi segredo.
Certo é que a morte o matou
Sem lhe tocar com um dedo.

Chegou no Céu Ariano,
Tava a porta escancarada.
São Pedro quando o avistou
Resmungando na calçada,
Correu logo pra o portão,
Louvando a sua chegada.

Um anjinho de recado
Foi chamar o Soberano,
Dizendo: - O Senhor agora
Vai concretizar seu plano.
São Pedro mandou dizer
Que aqui chegou Ariano.

Jesus saiu apressado,
Apertando o nó da manta
E disse assim: — Vou lembrar
Dessa data como santa
Que a arte de Ariano
Em toda parte ela encanta.

São Pedro lá no portão
Recebeu bem Ariano,
Que chegou meio areado,
Meio confuso e sem plano.
Ao perceber que morreu,
Se valeu do Soberano.

Com um chapelão de palha
Chegou Ascenso Ferreira,
O grande Câmara Cascudo,
Zé Pacheco e Zé Limeira.
João Firmino Cabral
Veio engrossar a fileira.

E o próprio João Ubaldo
(Que foi pra lá por engano)
Veio de braços abertos
Para abraçar Ariano.
E esse falou: - Ubaldo,
Morrer não tava em meu plano!

Logo chegou Jorge Amado
E o ator Paulo Goulart.
Veio também Chico Anysio
Que começou a contar
Uma anedota engraçada
Descontraindo o lugar.

Logo chegou Jesus Cristo,
Com seu rosto bronzeado.
Veio de braços abertos,
Suassuna emocionado
Disse assim: — Esse é o Mestre,
O resto é papo furado!

Suassuna que, na vida,
Sonhou em ser imortal,
Entrou para Academia,
Mas percebeu, afinal,
Que imortal é a vida
No plano celestial.

Jesus explicou seus planos
De fazer uma companhia
De teatro e ele era
O escritor que queria
Para escrever suas peças,
Enchendo o Céu de alegria.

Nisso Ariano responde:
— Senhor, eu me sinto honrado,
Porém escrever uma obra
É serviço demorado.
Às vezes gasto dez anos
Para obter resultado.

Nisso Jesus gargalhou
E disse: — Fique à vontade.
Tempo aqui não é problema,
Estamos na eternidade
E você pode criar
Na maior tranquilidade.

Um homem bem pequenino
Com chapeuzinho banzeiro,
Com um singelo instrumento,
Tocou um coco ligeiro
Falando da Paraíba:
Era Jackson do Pandeiro.

Logo chegou Luiz Gonzaga,
Lindu do Trio Nordestino,
E apontou Dominguinhos
Junto a José Clementino
E o grande Humberto Teixeira,
Raul e Zé Marcolino.

Depois chegou Marinês
Com Abdias de lado
E Waldick Soriano,
Com um vozeirão impostado,
Cantou “Torturas de Amor”,
Como sempre apaixonado.

Veio então Silvio Romero
Com Catulo da Paixão,
Suassuna enxugou
As lágrimas de emoção
E Catulo, com seu pinho,
Cantou “Luar do Sertão”.

Leandro Gomes de Barros
Junto a Leonardo Mota,
Chegou Juvenal Galeno,
Otacílio Patriota.
Até Rui Barbosa veio
Com título de poliglota.

Chegou Regina Dourado,
Tocada de emoção,
Juntinho de Ariano,
Veio e beijou sua mão
E disse: — Na sua peça
Quero participação.

Ariano dedicou-se
Àquele projeto novo.
Ao concluir sua peça,
Jesus deu o seu aprovo
E a peça foi encenada
Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano
Só participa alma pura.
Ariano virou santo,
Corrigiu sua postura.
Lá no Céu ganhou o título
Padroeiro da cultura.

Os artistas que por ele
Já nutriam grande encanto
Agora estando em apuros,
Residindo em qualquer canto,
Lembra de Santo Ariano
E acende vela pro santo.

Ariano foi Quixote
Que lutou de alma pura.
Contra a arte descartável
Vestiu a sua armadura
Em qualquer dia do ano
Eu digo: viva Ariano
Padroeiro da Cultura!

Autores: Klévisson Viana e Bule-Bule 
Enviado por: Wanda Pinho / Marly Santanelli


AULA-ESPETÁCULO - ARIANO SUASSUNA

Parte do projeto "Ariano Suassuna - Arte como Missão", esta aula-espetáculo do escritor Ariano Suassuna foi realizada em defesa da cultura brasileira e da identidade nacional. O evento é marcado pela convicção do escritor de que a arte é "missão, vocação e festa". O espetáculo foi gravado na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, em Brasília, em julho de 2013.

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Enviado por: Wanda Barcellos


FRASES

"Há duas raças de gente com as quais simpatizo: mentiroso e doido, porque eles são primos legítimos dos escritores".

"Sempre me vêm com e...statísticas, tentando provar que viajar de carro é mais perigoso, que as estradas são cheias de buracos. E eu respondo: 'Pior é no avião, que o buraco acompanha a gente o tempo inteiro”.

"A alma humana divide-se no hemisfério rei e no hemisfério palhaço. O que há de trágico é ligado ao primeiro, e o que há de cômico, ao segundo. O hemisfério rei se complementa com o hemisfério profeta. O hemisfério poeta, com o palhaço. No meu entender o ser humano tem duas saídas para enfrentar o trágico da existência: o sonho e o riso".

"Eu tenho dentro de mim um cangaceiro manso, um palhaço frustrado, um frade sem burel, um mentiroso, um professor, um cantador sem repente e um profeta".

"Estendo meu horror ao terrorismo aos atos praticados pelos americanos. O pior terrorismo é o de Estado. As pessoas que derrubaram as torres de Nova York: é um ato reprovável, mas são corajosos. Enfrentaram e morreram. O terrorismo de Estado é ao abrigo de qualquer risco."

"Um marco de minha vida foi a leitura de uma frase d'Os Irmãos Karamazov': 'Se Deus não existe, tudo é permitido'. Sartre tirou essa dúvida, porque a frase é duvidosa. Ele disse: 'Deus não existe, portanto tudo é permitido'. Eu tirei a conclusão contrária, eu digo que nem tudo é permitido e portanto Deus existe. Ou a norma moral tem um fundamento absoluto, ou ficaria ao sabor da opinião individual de todo mundo, inclusive de estupradores e assassinos".

"Posso dizer que, como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo (…)"

"A meu ver, o arraial de Canudos —antecedido pelo de Palmares e sucedido pelo do Contestado— é o episódio mais significativo da nossa história. Na verdade, foi ali que o Brasil real pela primeira vez expressou seu sonho religioso e político, formulando uma teoria do poder posta em prática sem imposições ou deformações que lhe viessem de cima ou de fora".

“O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.”
"A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.”

"Eu digo sempre que das três virtudes teologais chamadas, eu sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança.”.

"Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa.”

"… que é muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos.”

"Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas.”

"Não troco o meu "oxente" pelo "ok" de ninguém!”

"Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte:
o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver."

“Venha sexta musa mensageira, do reino de Eloim, me traga a pena de Apolo e escreve aqui por mim: O Assassino da Honra ou A Louca do Jardim!” 

"Quando eu morrer, não soltem meu cavalo nas pedras do meu pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu dorso alardeado, com a espora de ouro, até matá-lo.”

"Dizem que tudo passa e o tempo duro tudo esfarela.”

"Terceira idade é para fruta: verde, madura e podre."

"Só o tempo determina se o que foi escrito fica."

"A humanidade se divide em dois grupos, os que concordam comigo e os equivocados."

"Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas."

"No Nordeste, a gente chama a morte de Caetana. Eu não gosto dela não. Eu me recuso a morrer. Toda morte tem um componente de suicídio, e eu não me rendo".

"Na minha visão, a literatura –e a arte de modo geral– é uma forma precária, mas ainda assim poderosa de afirmar a imortalidade. Também na minha visão, o homem não nasceu para a morte, nasceu para a vida e para a imortalidade".

"Tudo que é vivo, morre."

Fonte: Enciclopédia Nordeste: Biografia de Ariano Suassuna -http://goo.gl/8jHQEF


NOTURNO

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão...

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?


ARIANO SUASSUNA FOI TEMA NO CARNAVAL 
[Por: Anderson Baltar/UOL, no Rio]

Com o tema "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, a escola de samba
Pérola Negra subiu para o grupo especial
 
Julia Chequer/Folhapress

Mais do que um grande escritor, Ariano Suassuna sempre foi um defensor da cultura nacional e um admirador da cultura popular, tão presente em suas obras, inspiradas, sobretudo, na literatura de cordel. Engana-se, no entanto, quem pensa que apenas o rico folclore nordestino fez parte da vida do autor.
 
Em vários momentos, o Carnaval passou pela vida de Suassuna, apesar de ele não ter sido um grande folião. O mais recente foi em março deste ano, quando foi homenageado pelo bloco Galo da Madrugada, o mais tradicional do carnaval de rua de Recife. E, como não poderia deixar de ser, nos últimos anos sua vida e obra desfilaram pelos principais sambódromos do Brasil.

IMPÉRIO SERRANO: "Sou imperador lá do sertão"
O Império Serrano, uma das escolas de samba mais tradicionais do Carnaval carioca com nove títulos em seu currículo, escolheu para o Carnaval de 2002 uma das principais obras de Suassuna para o tema de seu desfile. "Aclamação e coroação do Imperador da Pedra do Reino: Ariano Suassuna" era um antigo sonho do carnavalesco Ernesto Nascimento, que levou três anos pesquisando todo o universo do escritor para poder transpô-lo para a Sapucaí.
Neste processo, um personagem importante foi Nilton Fernandes. Atualmente presidente do Conselho Fiscal da verde e branco, ele, por conta de uma coincidência familiar, auxiliou o carnavalesco, falecido em 2004, na pesquisa do enredo.

"Tenho uma irmã em Recife e, ao visitá-la, soube que o marido da minha sobrinha é da cidade de Belmonte. Ele se ofereceu para me levar até lá. Fiquei 15 dias mergulhado no universo de Suassuna e levei um vasto material em fotos e vídeos para o carnavalesco", lembra Nilton, que destaca que o escritor foi um entusiasta do enredo desde o primeiro momento: "Ele recebeu o Ernesto em Recife e acompanhou todo o desenvolvimento do trabalho. Esteve no barracão para conhecer as alegorias e, na quadra, foi o primeiro a ver os figurinos. Ele ficou muito emocionado com a homenagem".

Em 2002, a escola de samba carioca Império Serrano homenageou o escritor Ariano Suassuna no grupo especial:
http://click.uol.com.br/?rf=geramodulo_foto-carregamento&u=http://h.imguol.com/x.gif?ariano-suassuna-no-carnaval-da-imp233rio-serrano
Terceira escola a desfilar na segunda-feira de Carnaval, o Império Serrano pisou forte na Sapucaí e, com um belo samba-enredo, assinado por Aluísio Machado, Maurição, Lula, Carlos Sena e Elmo Caetano, fez uma apresentação empolgante, a despeito do visual modesto por conta dos problemas financeiros.
Dentre os 4 mil componentes da verde e branco, estavam cerca de cem moradores da cidade de Belmonte, que, de ônibus, encararam uma verdadeira peregrinação para participar da coroação do Imperador da Sapucaí.
No último carro da escola, Ariano Suassuna não cabia em si de felicidade. Emocionado, sob os aplausos da passarela, afirmou: "Machado de Assis dizia que, no Brasil, existem dois países, um oficial e um real. Quando fui eleito para a Academia Brasileira de Letras, considerei o fato como uma homenagem do Brasil oficial. A de hoje, é a primeira grande homenagem que recebi do povo do Brasil real".
O Império Serrano terminou em nono lugar.

MANCHA VERDE: " És Imortal!"
(Uma biografia autorizada no Anhembi)
Em São Paulo, a Mancha Verde, escola de samba da tradicional torcida do Palmeiras, também se rendeu ao talento de Suassuna no Carnaval de 2008. Mais ainda: foi a única a homenagear o autor com um desfile que procurou enfocar toda a sua obra, além de passagens marcantes de sua biografia. Com o tema " Ariano Suassuna: Sua Vida, Sua Obra, Patrimônio Cultural!", a escola ficou em sétimo lugar. O carnavalesco da escola na época, Eduardo Caetano, lembra que o enredo surgiu por um acaso.
Ariano Suassuna e sua esposa Zélia de Andrade Lima foram ao desfile da escola de samba Mancha Verde, que em 2008 homenageou o escritor no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo.
"Estávamos desenvolvendo um outro enredo, mas tudo mudou quando, numa madrugada, o presidente Paulinho Serdan me telefonou e pediu para eu sintonizar a TV no programa do Jô Soares. Suassuna estava lá e deu uma entrevista memorável, que tomou o programa inteiro. A partir dali, vimos que ele merecia um enredo. Começamos a pesquisar e entramos em contato com o Suassuna, que aprovou na hora", lembra o carnavalesco, que atualmente integra a Comissão de Carnaval da Vai-Vai.
Eduardo lembra que Suassuna foi bastante presente no processo de criação do Carnaval. Semanalmente, entrava em contato para saber todos os detalhes do que estava sendo transposto das páginas dos livros para alegorias e fantasias. E ainda fez sugestões: "A fantasia do nosso primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira seria uma homenagem a Pernambuco. Ele perguntou se poderíamos fazer o mestre-sala como Pernambuco e a porta-bandeira como Paraíba. E disse: 'sou pernambucano, mas nasci na Paraíba'".
Eduardo Caetano afirma que o mergulho na obra de Suassuna foi uma viagem inesquecível e guarda saudades do convívio com o escritor. "Uma grande pessoa. Inteligente, divertida, que buscava inspiração nas histórias do dia-a-dia e era um nacionalista ferrenho. Tenho muito orgulho de ter levado sua vida para a avenida", afirma.

PÉROLA NEGRA: 
E o Auto foi campeão.
Em 2013, a obra mais famosa de Ariano Suassuna foi para a pista de desfiles do Anhembi. Apresentando o enredo "O Espetáculo Vai Começar, Pérola Negra Apresenta o Auto da Compadecida", a escola da Vila Madalena foi campeã do Grupo de Acesso e conquistou o direito de desfilar no Grupo Especial paulistano no Carnaval deste ano.
Para o carnavalesco André Machado, responsável pelo desfile, o segredo do sucesso da escola foi a riqueza da obra literária de Suassuna, que permitiu um desfile de fácil leitura e identificação popular. "A estética de Suassuna é muito bem detalhada nos livros e é de fácil transposição para os figurinos e as alegorias. É tudo muito vivo e 'carnavalizável'.", conta ele, que atualmente está na X-9 Paulistana.

O enredo era um sonho antigo de André. A ideia surgiu há 12 anos, quando ele leu "O Auto da Compadecida" pela primeira vez. Em 2006, quase conseguiu desenvolvê-lo na Nenê de Vila Matilde. Ao contrário dos colegas da Império Serrano e da Mancha Verde, André não teve a oportunidade de conhecer Suassuna pessoalmente. Mas, mesmo assim, o escritor apoiou o enredo e forneceu subsídios para as pesquisas.


AQUI MORAVA UM REI

Aqui morava um Rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão
Pedra da sorte sobre o meu destino
Pulsava junto ao meu seu coração

Para mim, seu cantar era divino
Quando ao som da viola e do bordão
Cantava com voz rouca o desatino
O sangue o riso e as mortes do sertão

Mas mataram meu pai, desde esse dia
Eu me vi como um cego sem meu guia
Que se foi para o sol, transfigurado

Sua Efígie me queima, eu sou a presa
Ele a brasa que impele ao fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto Ensangüentado


A MORTE DO TOURO MÃO DE PAU

Musicado por Antonio Nóbrega

"Ariano Suassuna escreveu 
esse poema em memória de 
seu pai, assassinado em 1930"

Corre a Serra Joana Gomes
galope desesperado:
um touro se defendendo,
homens querendo humilhá-lo,
um touro com sua vida,
os homens em seus cavalos.

Cortava o gume das pedras
um bramido angustiado,
se quebrava nas catingas
um galope surdo e pardo
e os cascos pretos soavam
nas pedras de fogo alado,
enquanto o clarim da morte,
ao vento seco e queimado,
na poeira avermelhada
envolvia os velhos cardos.

Rasgavam a serra bruta
aboios mal arquejados
e, nas trilhas já cobertas
pelo pó quente e dourado,
um gemido de desgraça,
um gemido angustiado:

- "Adeus, Lagoa dos Velhos!
adeus, vazante do gado!
adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
O touro só tem a vida:
os homens têm seus cavalos"!

O galopar recrescia:
brilhavam ferrões farpados
e algemas de baraúna
para o touro preparados.
Seu Sabino tinha dito:
- "Ele há de vir amarrado"!

Miguel e Antônio Rodrigues,
de guarda-peito e encourados,
na frente do grupo vinham,
montados em seus cavalos
de pernas finas, ligeiras,
ambos de prata arreados.
E, logo à frente, corria
o grande touro marcado,
manquejando sangue limpo
nos caminhos mal rasgados,
cortadas as bravas ancas
por ferrões ensangüentados.

A Serra se despenhava
nas asas de seus penhascos
e a respiração fogosa
dos dois fogosos cavalos
já requeimava, de perto,
as ancas do manco macho
quando ele, vendo a desonra,
tentando subjugá-lo,
mancando da mão preada
subiu num rochedo pardo:

Num grito, todos pararam,
pelo horror paralisados,
pois sempre, ao rebanho, espanta
que um touro do nosso gado
às teias da fama-negra
prefira o gume do fado.
E mal seus perseguidores
esbarravam seus cavalos,
viram o manco selvagem
saltar do rochedo pardo:

-"Adeus, Lagoa dos Velhos!
Adeus, vazante do gado!
Adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
Assim vai-se o touro manco,
morto mas não desonrado"!

Silêncio. A Serra calou-se
no poente ensangüentado.
Calou-se a voz dos aboios,
cessou o troar dos cascos.
E agora, só, no silêncio
deste sertão assombrado,
o touro sem sua vida,
os homens em seus cavalos.

 

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