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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

GONÇALVES DIAS
publicado em: 07/10/2016 por: Lou Micaldas

Gonçalves Dias (1823-1864) foi poeta e teatrólogo brasileiro. É lembrado como o grande poeta indianista da geração romântica. Deu romantismo ao tema índio e uma feição nacional à sua literatura. É lembrado como um dos melhores poetas líricos da literatura brasileira. É Patrono da cadeira nº 15 da Academia Brasileira de Letras.
 
Gonçalves Dias (1823-1864) nasceu nos arredores de Caxias, no Maranhão, no dia 10 de agosto de 1823. Filho de um comerciante português e uma mestiça. Iniciou seus estudos no Maranhão e ainda jovem viaja para Portugal. Em 1838 ingressa no Colégio das Artes em Coimbra, onde conclui o curso secundário. Em 1840 ingressa na Universidade de Direito de Coimbra, onde tem contato com escritores do romantismo português, entre eles, Almeida Garret, Alexandre Herculano e Feliciano de Castilho. Ainda em Coimbra, em 1843, escreve seu famoso poema "Canção do Exílio", onde expressa o sentimento da solidão e do exílio.
 
Gonçalves Dias volta ao Maranhão em 1845, depois de formado em Direito. Ocupa vários cargos no governo imperial e realiza diversas viagens à Europa. Vai para o Rio de Janeiro em 1846 e em 1847 publica o livro "Primeiros Cantos", que recebe elogios de Alexandre Herculano, poeta romântico português. Ao apresentar o livro, Gonçalves Dias confessa: "Dei o nome Primeiros Cantos às poesias que agora publico, porque espero que não sejam as últimas". Em 1848 publica o livro "Segundos Cantos".
 
Em 1849, é nomeado professor de Latim e História do Brasil no Colégio Pedro II. Durante esse período escreve para várias publicações, entre elas, o Jornal do Comércio, a Gazeta Mercantil e para o Correio da Tarde. Fundou a Revista Literária Guanabara.
 
Gonçalves Dias publica em 1851 o livro "Últimos Cantos". Regressa ao Maranhão, e conhece Ana Amélia Ferreira do Vale, por quem se apaixona. Por ele ser mestiço, a família dela proíbe o casamento. Mais tarde casa-se com Olímpia da Costa.
 
Gonçalves Dias exerceu o cargo de oficial da Secretaria de Negócios Estrangeiros, foi várias vezes à Europa e em 1854, em Portugal, encontra-se com Ana Amélia, já casada. Esse encontro inspira o poeta a escrever o poema "Ainda Uma Vez — Adeus!".
 
Em 1862, Antônio Gonçalves Dias vai à Europa para tratamento de saúde. Sem resultados embarca de volta no dia 10 de setembro de 1864. No dia 3 de novembro o navio francês Ville de Boulogne em que estava, naufraga perto do Farol de Itacolomi, na costa do Maranhão, onde o poeta falece.
 
 
Minha terra tem palmeiras,
 Onde canta o Sabiá;
 As aves, que aqui gorjeiam,
 Não gorjeiam como lá.
 
Nosso céu tem mais estrelas,
 Nossas várzeas tem mais flores,
 Nossos bosques tem mais vida,
 Nossa vida mais amores.
 
Em cismar, sozinho, à noite,
 Mais prazer encontro eu lá;
 Minha terra tem palmeiras,
 Onde canta o Sabiá.
 
Minha terra tem primores,
 Que tais não encontro eu cá;
 Em cismar - sozinho, à noite -
 Mais prazer encontro eu lá;
 Minha terra tem palmeiras,
 Onde canta o Sabiá.
 
Não permita Deus que eu morra,
 Sem que eu volte para lá;
 Sem que desfrute os primores
 Que não encontro por cá;
 Sem qu'inda aviste as palmeiras,
 Onde canta o Sabiá.
 
Mon Dieu, fais que je puisse aimer!
S. Beuve
 
 Quando, no albor da vida, fascinado
 Com tanta luz e brilho e pompa e galas,
 Vi o mundo sorrir-me esperançoso:
 — Meu Deus, disse entre mim, oh! quanto é doce,
 Quanto é bela esta vida assim vivida! —
 Agora, logo, aqui, além, notando
 Uma pedra, uma flor, uma líndeza,
 Um seixo da corrente, uma conchinha
 À beira-mar colhida!
 
Foi esta a infância minha; a juventude
 Falou-me ao coração: — amemos, disse,
 Porque amar é viver.
 E esta era linda, como é linda a aurora
 No fresco da manhã tingindo as nuvens
 De rósea cor fagueira;
 Aquela tinha um quê de anelos meigos
 Artífice sublime;
 Feiticeiro sorrir dos lábios dela
 Prendeu-me o coração; — julguei-o ao menos.
 
Aquela outra sorria tristemente,
 Como um anjo no exílio, ou como o cálix
 De flor pendida e murcha e já sem brilho.
 Humilde flor tão bela e tão cheirosa,
 No seu deserto perfumando os ventos.
 —- Eu morrera feliz, dizia eu d'alma,
 Se pudesse enxertar uma esperança
 Naquela alma tão pura e tão formosa,
 E um alegre sorrir nos lábios dela.
 
A fugaz borboleta as flores todas
 Elege, e liba e uma e outra, e foge
 Sempre em novos amores enlevada:
 Neste meu paraíso fui com ela,
 Inconstante vagando em mar de amores.
 
O amor sincero e fundo e firme e eterno,
 Como o mar em bonança meigo e doce,
 Do templo como a luz perene e santo,
 Não, nunca o senti; — somente o viço
 Tão forte dos meus anos, por amores
 Tão fáceis quanto indi'nos fui trocando.
 Quanto fui louco, ó Deus! — Em vez do fruto
 Sazonado e maduro, que eu podia
 Como em jardim colher, mordi no fruto
 Pútrido e amargo e rebuçado em cinzas,
 Como infante glutão, que se não senta
 À mesa de seus pais
 
Dá, meu Deus, que eu possa amar,
 Dá que eu sinta uma paixão,
 Toma-me virgem minha alma,
 E virgem meu coração.
 
Um dia, em qu'eu sentei-me junto dela,
 Sua voz murmurou nos meus ouvidos,
 — Eu te amo! — ó anjo, que não possa eu crer-te!
 Ela, certo, não é mulher que vive
 Nas fezes da desonra, em cujos lábios
 Só mentira e traição eterno habitam.
 Tem uma alma inocente, um rosto belo,
 E amor nos olhos... — mas não posso crê-la.
 
Dá, meu Deus, que eu possa amar,
 Dá que eu sinta uma paixao;
 Torna-me virgem minha alma,
 E virgem meu coração.
 
Outra vez que lá fui, que a vi, que a medo
 Terna voz lhe escutei: — Sonhei contigo! —
 Inefável prazer banhou meu peito,
 Senti delícias; mas a sós comigo
 Pensei — talvez! — e já não pude crê-Ia.
 Ela tão meiga e tão cheia de encantos,
 Ela tão nova, tão pura e tão bela ...
 Amar-me! — Eu que sou?
 Meus olhos enxergam, enquanto duvida
 Minha alma sem crença, de força exaurida,
 Já farta da vida,
 Que amor não doirou.
 
Malgrado meu, crer não posso,
 Malgrado meu que assim é;
 Queres ligar-te comigo
 Sem no amor ter crença e fé?
 
Antes vai colar teu rosto,
 Colar teu seio nevado
 Contra o rosto mudo e frio,
 Contra o seio dum finado.
 
Ou suplica a Deus comigo
 Que me dê uma paixão;
 Que me dê crença à minha alma,
 E vida ao meu coração.
 
Fonte: www.revista.agulha.nom.br
 
 
 Debruçada nas águas dum regato
 A flor dizia em vão
 À corrente, onde bela se mirava:
 "Ai, não me deixes, não!
 
"Comigo fica ou leva-me contigo
 "Dos mares à amplidão;
 "Límpido ou turvo, te amarei constante;
 "Mas não me deixes, não!"
 
E a corrente passava; novas águas
 Após as outras vão;
 E a flor sempre a dizer curva na fonte:
 "Ai, não me deixes, não!"
 
E das águas que fogem incessantes
 À eterna sucessão
 Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
 "Ai, não me deixes, não!"
 
 Por fim desfalecida e a cor murchada,
 Quase a lamber o chão,
 Buscava inda a corrente por dizer-lhe
 Que a não deixasse, não.
 
A corrente impiedosa a flor enleia,
 Leva-a do seu torrão;
 A afundar-se dizia a pobrezinha:
 "Não me deixaste, não!"

Autor(a): Gonçalves Dias
Fonte: www.ebiografia.com/goncalves_dias/

 

 

 

 

 

 


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