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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

JOSÉ SARAMAGO
publicado em: 13/12/2016 por: Lou Micaldas

O AMOR NÃO TEM NADA QUE VER COM A IDADE

SE TODOS OS JUÍZES DO MUNDO...

ESPAÇO CURVO E FINITO

NA ILHA POR VEZES HABITADA

POEMA A BOCA FECHADA

 

O AMOR NÃO TEM NADA QUE VER COM A IDADE

Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor.

Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.

José Saramago, in "Revista Máxima, Outubro 1990"

 

SE TODOS OS JUÍZES DO MUNDO...

Ainda que todos os juízes do mundo fossem homens justos, no sentido de serem, todos eles, sem excepção, rigorosos aplicadores de lei, nem assim o mundo estaria vivendo na santa paz da justiça. Os juízes formam-se e existem para acatar e fazer acatar as leis, mas as leis não são justas só por terem o nome de lei: dizer lei sempre foi o mesmo que dizer justiça. Na história dos povos multiplicam-se exemplos desta verdade. Muito pior do que isto, porém, é quando num tribunal, chamado a decidir sobre uma acção presuntivamente criminosa, se vão encontrar reunidas duas injustiças, a da lei e a do juiz. Já não bastava a hipótese de que o juiz fosse daqueles que facilmente tapam os ouvidos à voz da sua consciência, no caso de ainda a terem, aplicando cientemente e à letra, sem o menor gesto de protesto público, uma lei que já sabiam ser injusta ou, pelo menos, desajustada em relação ao caso em juízo. Nesta situação corrupta, isto é, reunidas no mesmo foro as duas injustiças, quer o juiz de antemão prevenido contra o acusado quer a lei forjada para preparar o caminho à condenação, potenciarão alegremente as suas mútuas perversões institucionais e morais, começando logo por desprezar aquele sábio conselho da jurisprudência clássica que determinava que uma dúvida fundamentada, quando a houvesse, deveria favorecer o réu e não a pena.

Há casos, contudo, em que a dúvida não é legítima, nem sequer aceitável à luz clara da razão ou do simples senso comum, casos em que toda a configuração do processo testemunha, pelo contrário, a favor do acusado, e, não obstante, lei e juiz, mancomunados, negam, não já a mera presunção de inocência, mas a própria evidência dela, e condenam uma pessoa sem culpa. Aconteceu isto no Brasil, em 10 de Junho de 1997, quando o Tribunal de Justiça de Vitória (Espírito Santo) condenou a 26 anos e 6 meses de prisão José Rainha, um dos principais dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), acusado de assassínio de um polícia e de um fazendeiro. Ora, no dia do crime, 5 de Junho de 1989, José Rainha encontrava-se, e fez disso prova bastante, a 2000 km do local. O juiz desprezou a prova e os direitos da defesa e, brutalmente, condenou. Se a Justiça, no Brasil, tal como sucede no resto do mundo, é representada com os olhos vendados, passámos, a partir daqui, a ter motivo para supor que, se a infeliz está assim, é para que não possamos aperceber-nos de que lhe arrancaram os olhos...

José Rainha, que, naturalmente, apelou da sentença, voltará ao mesmo Tribunal no próximo dia 13 de Dezembro para o julgamento do recurso. Não sendo crível que a justiça no estado brasileiro de Espírito Santo tenha passado, nestes últimos dois anos, por um processo de regeneração moral e institucional, há razões para temer que a farsa judicial se venha a repetir. Há algum tempo, quando me manifestei publicamente a favor dos trabalhadores sem terra, o presidente do Brasil, Sr. Fernando Henrique Cardoso, embora sem citar o meu nome, aconselhou-me a que me ocupasse dos assuntos do meu país e deixasse os do seu em paz. Não lhe faço a vontade. A mundialização, Senhor Presidente, quando nasce, é para todos. Por muito que lhe desagrade, o seu Brasil, os sem terra seus compatriotas e a justiça que os condena fazem parte do meu mundo. Suporte-me, ainda que lhe custe. E permita-me que lhe pergunte se conseguiu dormir todas estas noites em sossego depois de José Rainha ter sido condenado a 26 anos e 6 meses por um crime que não cometeu.

 

ESPAÇO CURVO E FINITO

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui. 
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

 

NA ILHA POR VEZES HABITADA

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, 
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. 
Então sabemos tudo do que foi e será. 
O mundo aparece explicado definitivamente e entra 
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as 
palavras que a significam. 
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas 
mãos. 
Com doçura. 
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a 
vontade e os limites. 
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o 
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do 
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos 
ossos dela. 
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres 
como a água, a pedra e a raiz. 
Cada um de nós é por enquanto a vida. 
Isso nos baste.

Livro: PROVAVELMENTE ALEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3ª Edição

 

POEMA A BOCA FECHADA

Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça. 
Calado estou, calado ficarei, 
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam, 
Se represam, cisterna de águas mortas, 
Ácidas mágoas em limos transformadas, 
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi: 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, 
Palavras que não digam quanto sei 
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, 
Nem só animais boiam, mortos, medos, 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam 
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi, 
Crispadamente recolhido e mudo, 
Que quem se cala quanto me calei 
Não poderá morrer sem dizer tudo.

Autor: José Saramago 
Colaboração de Marly Santanelli

Autor(a): José Saramago

 

 

 

 

 

 


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