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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
publicado em: 27/12/2016 por: Lou Micaldas

 
 
A notícia de que as tropas estão na rua outra vez me enche de revolta, mas também de nostalgia. Saudade não do golpe e do que viria depois, mas de nós, naqueles dias
Lucia e eu nos casamos em março de 1964. Fomos morar num quarto-e-sala da Rua Figueiredo Magalhães, em Copacabana. Eu, sem emprego, tentava começar um negócio que só provaria minha total inabilidade para negócios. Vivíamos do dinheiro mandado de casa, o bastante para pagar o aluguel e pouca coisa mais. E éramos felizes.

Quando marcamos a data do casamento, me ocupei em saber o que o ano de 64 nos reservava. Não tinha nenhuma crença em desígnios ocultos, mas nunca se sabe. Encontrei uma lista num livro chamado “Símbolos”.

Descobri que 64 são os caminhos da Cabala para o conhecimento.
Que a mãe do Buda era de uma família com 64 tipos de virtude.

Que 64 gerações separavam Confúcio do começo da dinastia Hoang Ti.

Que Jesus Cristo era o sexagésimo-quarto na linha de descendentes diretos de Adão, segundo São Lucas.

Que 64 mulas puxaram a carruagem fúnebre de Alexandre Magno.
Que 64 pessoas carregavam os restos mortais dos imperadores da China.
Que 64 são as casas num tabuleiro de xadrez.

E que 64, oito vezes oito, é o numero da plenitude humana.

Deduzi que 64 era um bom ano para começar um casamento. Mal sabia eu…
A lista não dizia nada sobre o general Mourão.

A notícia de que as tropas estão na rua outra vez me enche, portanto, de revolta, mas também de nostalgia. Saudade não do golpe e do que viria depois, mas de nós, naqueles dias.

Minha única atividade antigolpe, além de comprar o “Correio da Manhã” para ler o Cony, era preparar a fuga de uma tia que estava sendo hostilizada no trabalho, caso fosse necessário.

Mas quando penso em 64, penso no nosso pequeno apartamento na Figueiredo Magalhães, na festa que era quando sobrava algum dinheiro para jantar no “Rondinela”.

Não sei se teremos 64 de novo. Nem sei se a tropa já não foi, sensatamente, recolhida aos quartéis. Nossa juventude é que certamente não volta mais.
 
 
Não entendo por que o próprio Tribunal Eleitoral não pode esclarecer quanto da dinheirama foi declarada e aprovada por ele e de quanto ele nem sentiu o cheiro

A Operação Lava-Jato foi descrita por um dos seus alvos como uma “sangria” a ser estancada antes que causasse mais estragos.
Se está em andamento, nos corredores sombrios do poder, um processo de abafa da Lava-Jato sem dar muito na vista, só sabe quem frequenta os corredores sombrios.
 
O recém-empossado ministro da Justiça declarou que não tocará na Polícia Federal e não intervirá na Lava-Jato. Em outras palavras, que vai deixar sangrar.
 
Quando eu era guri, na Idade Média, cruzava-se dedos para dizer uma mentira, o que absolvia o mentiroso.
Ninguém observou os dedos do novo ministro enquanto ele falava. Mas dizem que ele é um cara legal e fará o que falou, ou não fará o que se teme.
 
O “Jornal Nacional” dá os nomes dos investigados pela Lava-Jato e por outras operações, mas nunca deixa, corretamente, de procurar representantes dos citados ou os próprios citados para ouvir suas defesas.

Com a enxurrada de novos denunciados aparecendo todos os dias e com as delações se multiplicando, pode-se prever que em breve todo o “Jornal Nacional” será tomado pelos nomes dos acusados e pelas suas explicações, não sobrando tempo nem para a meteorologia com a Maju.
 
As explicações se repetem, sem muita variação. Todos são inocentes. Nada do que receberam foi para o caixa dois ou para seus bolsos, tudo foi para o caixa um, devidamente registrado pelo Tribunal Eleitoral.
 
Não entendo por que o próprio Tribunal Eleitoral não pode esclarecer quanto da dinheirama foi declarada e aprovada por ele e de quanto ele nem sentiu o cheiro, ou se tem competência para fazer isso, ou não quer se envolver.
 
A esquerda, ainda ressentida com a condução coercitiva do Lula e a gravação e o vazamento ilegais de conversa da Dilma, então na Presidência, pode se consolar com a ideia de que Moro e seus justiceiros desencadeiam um ataque sem precedentes ao capitalismo de compadres brasileiro.
 
Não se pode nem dizer que a Odebrecht, as empreiteiras e outras empresas flagradas comprando favores de políticos sejam anomalias, e o propinato, uma perversão a ser exorcizada para que os negócios voltem à normalidade.

A normalidade, no capitalismo de compadres brasileiro, é a promiscuidade do capital predador com o poder à venda, e assim tem sido há décadas.
 
O que vem depois da Lava-Jato? A que normalidade se volta, uma nova ou a de sempre? E até que ponto a sangria será tolerada?
No passado se recorria à sangria para fins terapêuticos. No nosso caso, talvez o paciente não aguente.

 

‘Caríssimo! Beijos secos, para poupar saliva. Sim, estamos todas empenhadas na campanha contra o desperdício de água’
Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não revela sua idade para ninguém, mas nega que já viu o Cometa Halley passar duas vezes. Só o Pitanguy e Deus sabem a sua verdadeira idade, e um está aposentado e o outro está quase. Dorinha tem se reunido com o seu grupo de carteado e pressão política, as Socialaites Socialistas, que lutam pela implantação no Brasil do socialismo soviético na sua fase terminal, que é a volta ao feudalismo (mas esclarecido desta vez, segundo elas). As reuniões das Socialaites Socialistas também tratam do trabalho social do grupo. Por exemplo: todas se comprometeram a doar seus botox para transplante, caso venham a morrer. O assunto predominante nas reuniões, claro, tem sido os escândalos das empreiteiras. Três do grupo estão com maridos presos, o que acham ótimo. “Assim pelo menos a gente sabe onde eles estão dormindo", diz Suzana (“Su”) Cata, para inveja das que têm maridos soltos. Mas a preocupação maior de todas é... Deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio escrita com tinta púrpura em papel magenta cheirando a “Mange Moi", um perfume proibido pelo Vaticano, mas que, dizem, o Papa Francisco está prestes a liberar.

“Caríssimo! Beijos secos, para poupar saliva. Sim, estamos todas empenhadas na campanha contra o desperdício de água. Senti como o problema é grave quando fiz uma enquete no grupo e se revelou que todas — todas! — estão dando banhos nos seus cachorros com água mineral S. Pellegrino. Menos eu, que lavo a ‘Desirée de Goumont’, meu poodle (o nome é maior do que ela), com champanhe rosê. A Tatiana (‘Tati’) Bitati, vice-líder do grupo, abaixo de mim, acha que devemos começar a pensar num plano D, de dar o fora, se a crise hídrica piorar muito. Ela propõe o exílio e já se informou sobre um condomínio em Miami que só recebe brasileiros fugitivos da crise e tem o nome sugestivo de ‘Bye, bye Brazil’. Nos mudaríamos para lá até que os reservatórios enchessem de novo ou o país virasse um imenso Piauí e não houvesse mais razão para voltar. Mas assez de misère! Como o próximo carnaval periga ser o ultimo antes do Juízo Final, decidi voltar a desfilar. Sim, estarei de novo na avenida! Só preciso encontrar meu agogô e meu tapa-sexo. O tapa-sexo foi visto pela última vez na boca da ‘Desirée de Goumont’, que brincava com ele distraída, sem se dar conta do simbolismo da cena. Meu único sentimento é que o Pitanguy não poderá estar ao meu lado, para ouvir o povo aplaudir meu corpo e pedir ‘O autor! O autor!’”.
 
O bar pertence a um grupo chamado “The usual suspects”, uma das frases memoráveis do filme, dita pelo capitão Renault
Li que o Encouraçado Potemkin é visitado por turistas, atraídos pelo seu significado histórico. A rebelião dos seus marinheiros em 1905 foi precursora da revolução comunista que tomaria o poder em 1917, na Rússia. Mas também li que o encouraçado foi capturado e destruído pelos alemães em 1922 e que o exército branco, que se opunha à revolução, acabou de desmantelálo.

O que, então, é visitado, exatamente? Seria uma reprodução do navio?
Muitos dos turistas que percorrem as famosas caves de Lescaux, na França, não sabem que estão dentro de réplicas das caves verdadeiras, cujas pinturas nas paredes não resistiriam ao trânsito de visitantes. Teriam construído um falso Encouraçado Potemkin para evocar a rebelião?

Romeu e Julieta nunca existiram. Shakespeare se inspirou num poema chamado “A trágica história de Romeu e Julieta”, de um tal Arthur Brooke, para criar seu desafortunado casal. A peça se passa em Verona mas poderia se passar em qualquer outra cidade, italiana ou não, inventada ou não. O que não impediu que a imaginação popular a localizasse numa Verona real e até identificasse o balcão do quarto de Julieta na casa dos Capuletos.

Vinha tanta gente olhar o balcão escalado por Romeu para os braços de Julieta que a prefeitura de Verona resolveu oficializá-lo e garantir sua autenticidade. Afinal, um balcão por qualquer outro nome é um balcão, e que não falta na bela Verona são balcões.

Quem chega em Casablanca, no Marrocos, esperando encontrar o Ric’s Cafe Americain — encontra! Existe um bar chamado Ric’s Cafe Casablanca que é uma copia perfeita do café do filme, incluindo um piano da época e um pianista que passa o tempo todo atendendo a pedidos para tocar “As time goes by”.

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não aparecem — o tempo passou para eles — mas o bar pertence a um grupo chamado “The usual suspects”, uma das frases memoráveis do filme, dita pelo capitão Renault, que em caso de atentados manda prender os suspeitos de sempre.

Uma sugestão para agências de turismo: oferecer viagens fantasmas para lugares que nunca existiram ou não existem mais, ou ainda existem, mas falsificados

Autor(a): Luis Fernando Veríssimo é escritor
Fonte: Jornal O Globo

 

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