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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

RACHEL DE QUEIROZ - TEXTOS
publicado em: 07/07/2017 por: Lou Micaldas

BIOGRAFIA
TELHA DE VIDRO
VOTAR
A ARTE DE SER AVÓ
ENVIADA A QUIXADÁ

 

BIOGRAFIA

Autora de destaque na ficção social nordestina, foi primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Em 1993, foi a primeira mulher galardoada com o Prêmio Camões, o nobel da língua portuguesa. Rachel era filha de Daniel de Queiroz e de Clotilde Franklin de Queiroz, descendente pelo lado materno da família de José de Alencar. Em 1925, lançou, em forma de folhetim, o primeiro romance, "História de um Nome".

Aos 20 anos, ficou nacionalmente conhecida ao publicar "O Quinze" (1930), romance que mostra a luta do povo nordestino contra a seca e a miséria. Demonstrando preocupação com questões sociais e hábil na análise psicológica de seus personagens, tem papel de destaque no desenvolvimento do romance nordestino.

Já escritora consagrada, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1939. Passou quase 40 anos sem escrever, até lançar "Memorial de Maria Moura" (1992), saga de uma cangaceira nordestina, adaptada para a TV em 1994. Na juventude apresentou tendências esquerdistas, mas apoiou a ditadura militar que se instalou no país em 1964. Publicou um volume de memórias em 1998. Morreu de problemas cardíacos, no seu apartamento, dias antes de completar 93 anos.

TELHA DE VIDRO

 Quando a moça da cidade chegou 
 veio morar na fazenda, 
 na casa velha... 
 Tão velha! 
 Quem fez aquela casa foi o bisavô... 
 Deram-lhe para dormir a camarinha, 
 uma alcova sem luzes, tão escura! 
 mergulhada na tristura 
 de sua treva e de sua única portinha...

 A moça não disse nada, 
 mas mandou buscar na cidade 
 uma telha de vidro... 
 Queria que ficasse iluminada 
 sua camarinha sem claridade...

Agora, 
 o quarto onde ela mora 
 é o quarto mais alegre da fazenda, 
 tão claro que, ao meio dia, aparece uma 
 renda de arabesco de sol nos ladrilhos 
 vermelhos, 
 que — coitados — tão velhos 
 só hoje é que conhecem a luz doa dia... 
 A luz branca e fria 
 também se mete às vezes pelo clarão 
 da telha milagrosa... 
 Ou alguma estrela audaciosa 
 careteia 
 no espelho onde a moça se penteia.

 Que linda camarinha! Era tão feia! 
 — Você me disse um dia 
 que sua vida era toda escuridão 
 cinzenta, 
 fria, 
 sem um luar, sem um clarão... 
 Por que você na experimenta? 
 A moça foi tão vem sucedida... 
 Ponha uma telha de vidro em sua vida!

VOTAR

Nota: a redação foi mantida de acordo com a regras ortográficas vigentes na época:
(11 de janeiro de 1947)

Não sei se vocês têm meditado como devem no funcionamento do complexo maquinismo político que se chama govêrno democrático, ou govêrno do povo. Em política a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido imediato. 
No entanto, talvez não exista, mais do que esta, expressão nenhuma nas línguas vivas que deva ser tomada no seu sentido mais literal: govêrno do povo. 
Numa democracia, o ato de votar representa o ato de fazer o Govêrno. 

Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o inpíduo ou grupo de inpíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo.
Escolhe-se pelo voto aquêles que vão modificar as leis velhas e fazer leis novas - e quão profundamente nos interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo, até o ar que se respira e a luz que nos alumia, até os sete palmos de terra da derradeira moradia. 
Escolhemos igualmente pelo voto aquêles que nos vão cobrar impostos e, pior ainda, aquêles que irão estipular a quantidade dêsses impostos. 
Vejam como é grave a escolha dêsses “cobradores”. Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gôta de sangue do corpo, nos arrancar o último vintém do bôlso. 
E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhemse não só aquêles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também se escolhem aquêles que vão “fabricar” o dinheiro. 
Esta é uma das missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos. Pois, se a função emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falários. 
Êles desandam a emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais zero. 
Não preciso explicar muito êste capítulo, já que nós ainda nadamos em plena inflação e sabemos à custa da nossa fome o que é ter moedeiros falsos no poder.Escolhem-se nas eleições aquêles que têm direito de demitir e nomear funcionários, e presidir a existência de todo o organismo burocrático. 
E, circunstância mais grave e digna de todo o interêsse: dá-se aos representantes do povo que exercem o poder executivo o comando de tôdas as fôrças armadas: o exército, a marinha, a aviação, as polícias. 
E assim, amigos, quando vocês forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fêz um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que é tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio - lembrem-se de que não vão proporcionar a êsses sujeitos um simples emprêgo bem remunerado.Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para êles comandarem - e soldados são homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhe dá o povo. 
Votando, fazemos dos votados nossos representantes legítimos, passando-lhes procuração para agirem em nosso lugar, como se nós próprios fôssem. 
Entregamos a êsses homens tanques, metralhadoras, canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra - e a flor da nossa mocidade, a êles prêsa por um juramento de fidelidade. 
E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador.
Votem, irmãos, votem. 
Mas pensem bem antes.
Votar não é assunto indiferente, é questão pessoal, e quanto! 
Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva. Porque, afinal, a mulher quando é ruim, briga-se com ela, devolve-se ao pai, pede-se desquite. 
E o govêrno, quando é ruim, êle é quem briga conosco, êle é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da bôca dos nossos filhos e nos faz aprodecer na cadeia.
E quando a gente não se conforma, nos intitula de revoltoso e dá cabo de nós a ferro e fogo.
E agora um conselho final, que pode parecer um mau conselho, mas no fundo é muito honesto. 
Meu amigo e leitor, se você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para sufragar êste ou aquêle candidato, não se preocupe. 
Não se prenda infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é secreto. 
Se o obrigam a prometer, prometa. 
Se tem mêdo de dizer não, diga sim. 
O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha.
Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem mêdo, não se esqueça de que dentro da cabine indevassável você é um homem livre.
Falte com a palavra dada à fôrça, e escute apenas a sua consciência. 
Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno”.

A ARTE DE SER AVÓ

Quarenta anos, quarenta e cinco. Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensações - todos dizem isso, embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto - mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade.

Não de amores nem de paixão; a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade.

Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aqueles que você recorda.

E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis - nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.

Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avô, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto...

No entanto! Nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do neto. Não importa que ela hipocritamente, ensine a criança a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha" e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o, embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.

Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha pisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café, mexer na louça, fazer trem com as cadeiras na sala, destruir revistas, derramar água no gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser - e até fingir que está discando o telefone. Riscar a parede com lápis dizendo que foi sem querer - e ser acreditado!

Fazer má-criação aos gritos e em vez de apanhar ir para os braços do avô, e lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna...

Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto!

E quando você vai embalar o neto e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz "Vó", seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade.

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menino - involuntariamente! - bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beicinho pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.

ENVIADA A QUIXADÁ

A recepção é a mesma. A acolhida com sorrisos e abraços, o convite para entrar na casa, os mimos, a mesa farta, a conversa que pode até demorar o dia todo. Maria Luíza, irmã mais nova de Rachel de Queiroz tem a mesma receptividade da escritora para quem visita a Fazenda "Não Me Deixes", em Quixadá, no Sertão Central. Este ano, é a segunda visita que faz ao local onde Rachel morou, a partir dos anos 50, com o marido e, após ficar viúva (1982), quando passava os "meses de chuva" (fevereiro até junho).

E a vinda ao Ceará tem um motivo especial: O centenário da escritora que será comemorado amanhã com uma programação especial feita pelo Grupo de Comunicação O POVO e a Fundação Demócrito Rocha em parceria com a Academia Brasileira de Letras. Serão agraciados com o Prêmio Rachel de Queiroz de Literatura, no gênero romance, os vencedores das categorias: Autor Nacional, Novo Autor e Autor Cearense. O prêmio faz parte do Ano Rachel de Queiroz que, além de marcar os 100 anos de nascimento da escritora cearense, também lembra os 80 anos da publicação de sua primeira obra “O Quinze”. “As homenagens começam este ano e continuam até novembro de 2011 quando ela completaria 101 anos”, diz Maria Luiza.

Luiza sempre foi muito ligada a Rache. As duas tinham mais três irmãos: Roberto, Flávio e Luciano ( já falecidos). “Quando ainda era pequena, minha mãe ficou muito triste com a morte de meu pai e Rachel fez as vezes de uma mãe para mim, por isso ficamos tão ligadas. Tanto que ela tinha como netos os meus dois filhos Daniel e Flávio”.

Daniel está na fazenda acompanhando Maria Luiza e fala com muito carinho da “avó” Rachel. Ele pide com a mãe a participação nos eventos que prestam homenagens à escritora. “Vovó era mais do que jornalista e escritora, foi ela quem projetou esta casa com Oyama. As portas, janelas e os móveis, foram feitos com a madeira retirada da própria fazenda”, Daniel lembra também o cuidado do casal em preservar a área de caatinga arbórea e arbustiva, tanto que se tornou uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) por uma portaria do Ibama em novembro de 1998. É usada como área de soltura de aves nativas apreendidas pelo órgão em feiras e comércio irregular.

Os móveis e objetos rústicos da fazenda são conservados por Maria Luíza: as cantareiras com potes de barro, o fogão a lenha com as panelas, o chalé onde Rachel terminou de escrever o livro Dôra, Doralina (1975). E Maria Luíza ainda conserva a boa hospitalidade da irmã. Hora de deixar “Não Me Deixes” e ela disposta para continuar a conversa no alpendre que rodeia a casa grande, ainda com as redes onde Rachel costumava deitar. Como disse Maria Luíza, tudo lembra a escritora e a saudade é inevitável.

Autor(a): Rachel de Queiroz
Colaborador(a): Zeca Pizzolato

 

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