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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

RUI BARBOSA
publicado em: 27/07/2017 por: Lou Micaldas

⇒BIOGRAFIA
⇒ORAÇÃO AOS MOÇOS
⇒CREDO POLÍTICO
⇒NO SÉCULO XX

Biografia

Rui Barbosa (1849-1923) foi um político, diplomata, advogado e jurista brasileiro. Representou o Brasil na Conferência de Haia, foi reconhecido como “O Águia de Haia”. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras e seu presidente entre 1908 e 1919.

Rui Barbosa (1849-1923) nasceu em Salvador, Bahia, no dia 05 de novembro de 1849. Filho de João José Barbosa de Oliveira, médico, deputado provincial e diretor da Instrução Pública da Bahia, e de Maria Adélia Barbosa de Oliveira, recebeu educação rigorosa, com cinco anos foi para a escola e em poucos dias já sabia ler e conjugar verbos. Em casa recebia aulas de piano e oratória. Era uma criança triste e sobrecarregada de estudos. Era obrigado, pelo pai, a ler os clássicos portugueses. Com dez anos recitava Camões e Vieira.

Em 1861, ingressou no Ginásio Baiano e em 1864 terminou o curso em primeiro lugar, recebendo medalha de ouro, e pronunciou seu primeiro discurso em público. Terminando o curso de humanidades, preparava-se para estudar Direito, com apenas 15 anos de idade. Passou então o ano de 1864 estudando alemão, lendo juristas e obras médicas de seu pai. Nessa época escrevia versos tristes e melancólicos.

Em 1866, matriculou-se na Faculdade de Direito da cidade do Recife. Participou da Associação Acadêmica Abolicionista, entrou em conflito com um professor e foi obrigado a terminar o curso em São Paulo. Em 1870, graduou-se em Direito, e com dores de cabeça e vertigens, antecipou sua volta para a Bahia.

Após o pai perder o emprego, Rui foi trabalhar com Manuel Pinto de Souza Dantas, no Diário da Bahia. Manteve longa amizade com Rodolfo Dantas, filho de seu patrão, e junto com a família passou seis meses na Europa, o que lhe fez bem para a saúde. Pouco depois de sua volta, falece seu pai e em seguida morre Maria Rosa, sua namorada. Torna-se diretor do Diário da Bahia e depois é nomeado, pelo conselheiro Manuel Dantas, para o cargo de secretário da Santa Casa de Misericórdia.

Membro do Partido Liberal, Rui Barbosa participa de comícios nos teatros e praças, defendendo eleições diretas, liberdade religiosa e regime federativo. No dia 21 de novembro de 1876, depois de uma disputa com o amigo Rodolfo pelo coração da jovem, casa-se com Maria Augusta Viana Bandeira. Em 1877, com o partido em alta, ingressou na Câmara Baiana e no ano seguinte no Parlamento do Império.

Empenhou-se pela reforma eleitoral, pela reforma do ensino e pela libertação dos escravos sexagenários, que foi derrotada na Câmara. O controle dos votos feito pelos fazendeiros escravistas e uma campanha contra os abolicionistas não reelegeu Rui Barbosa.

Rui Barbosa voltou aos jornais, em março de 1889. Tornou-se redator chefe do Diário de Notícias. Na luta pelo regime federativo, começou a afastar-se do Partido Liberal. Nesse mesmo ano, durante o governo de Deodoro, exerceu as funções de Ministro da Fazenda. Dois fatos marcaram sua passagem: a Constituição de 1891, quase toda de sua autoria, e o encilhamento. Depois de graves crises e violenta inflação, Rui Barbosa deixou o governo.

Em 1893 Rui Barbos assumiu a direção do Jornal do Brasil, onde combatia o governo de Floriano. Em 1895 foi eleito para o Senado. Em setembro eclodiu a Revolta da Armada. Mesmo sem ligação com o movimento, foi acusado de animá-lo e obrigado a exilar-se na Inglaterra. Em 1895, de volta do exilo, lutou pela anistia aos punidos por Floriano.

Em 1907, durante o governo de Afonso Pena, Rui Barbosa alcançou celebridade mundial ao representar o Brasil na Conferência de Haia, que reuniu as grandes personalidades da diplomacia mundial. O grande tema era a criação de uma corte permanente de justiça. Com seus longos discursos e atacando a classificação dos países pela sua força militar Rui Barbosa conquistou o respeito das nações. Sua volta ao Brasil foi uma festa. Já conhecido como a “Águia de Haia”, recebeu do presidente da República uma medalha de ouro.

Rui Barbosa foi candidato à presidência da república em 1909, quando o escolhido foi o Marechal Hermes da Fonseca. Em 1919, o nome de Rui surgiu com fortes possibilidades de ser indicado pelo Partido Republicano, mas Rui se recusou comparecer à convenção, mas mesmo assim recebeu 42 votos. Epitácio Pessoa, paraibano, apoiado por São Paulo e Minas, venceu com 139 votos.

Embora derrotado, Rui Barbosa era respeitado nacionalmente. Foi convidado para chefiar a delegação do Brasil na Liga das Nações, mas recusou o convite. Em 10 de março de 1921, em ofício ao Senado, mostrando sua descrença na velha República, que os princípios e a lealdade que consagrou sua vida pública eram corpo estranho na política brasileira.

Rui Barbosa faleceu em Petrópolis, Rio de janeiro, para onde foi se convalescer de uma pneumonia, no dia 1º de março de 1923. Foi sepultado em Salvador, Bahia, na galeria subterrânea do Palácio da Justiça – Fórum Rui Barbosa.

ORAÇÃO AOS MOÇOS

[...]

Estou-vos abrindo o livro da minha vida. Se me não quiserdes aceitar como expressão fiel da realidade esta versão rigorosa de uma das suas páginas, com que mais me consolo, recebei-a, ao menos, como ato de fé, ou como conselho de pai a filhos, quando não como o testamento de uma carreira, que poderá ter discrepado, muitas vezes, do bem, mas sempre o evangelizou com entusiasmo, o procurou com fervor, e o adorou com sinceridade.

Desde que o tempo começou, lento lento, a me decantar o espírito do sedimento das paixões, com que o verdor dos anos e o amargor das lutas o enturbavam, entrando eu a considerar com filosofia nas leis da natureza humana, fui sentindo quanto esta necessita da contradição, como a lima dos sofrimentos a melhora, a que ponto o acerbo das provações a expurga, a tempera, a nobilita, a regenera. Então vim a perceber vivamente que imensa dívida cada criatura da nossa espécie deve aos seus inimigos e desfortunas. Por mais desagrestes que sejam os contratempos da sorte e as maldades dos homens, raro nos causam mal tamanho, que nos façam ainda maior bem. Ai de nós, se esta purificação gradual, que nos deparam as vicissitudes cruéis da existência, não encontrasse a colaboração providencial da fortuna adversa e dos nossos desafetos. Ninguém mete em conta o serviço contínuo, de que lhes está em obrigação.

Diríeis, até, que, mandando-nos amar aos nossos inimigos, em boa parte nos quis o divino legislador entremostrar o muito de que eles nos são credores. A caridade com os que nos malquerem, e os que nos malfazem, não é, em bem larga escala, senão pago dos benefícios, que, mal a seu grado, mas muito deveras, eles nos granjeiam.

Destarte, não equivocaremos a aparência com a realidade, se, nos dissabores que malquerentes e malfazentes nos propinam, discernirmos a quota de lucro, com que eles, não levando em tal o sentido, quase sempre nos favorecem. Quanto é pela minha parte, o melhor do que sou, bem assim o melhor do que me acontece, freqüentemente acaba o tempo convencendo-me de que não me vem das doçuras da fortuna propícia, ou da verdadeira amizade, senão sim que o devo, principalmente, às maquinações dos malévolos e às contradições da sorte madrasta. Que seria, hoje, de mim, se o veto dos meus adversários, sistemático e pertinaz, me não houvesse poupado aos tremendos riscos dessas alturas, "alturas de Satanás", como as de que fala o Apocalipse, em que tantos se têm perdido, mas a que tantas vezes me tem tendo exalçar o voto dos meus amigos? Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal.

Não poucas vezes, pois, razão é lastimar o zelo dos amigos, e agradecer a malevolência dos opositores. Estes nos salvam, quando aqueles nos extraviam. De sorte que, no perdoar aos inimigos, muita vez não vai somente caridade cristã, senão também justiça ordinária e reconhecimento humano. E, ainda quando, aos olhos do mundo, como aos do nosso juízo descaminhado, tenham logrado a nossa desgraça, bem pode ser que, aos olhos da filosofia, aos da crença e aos da verdade suprema, não nos hajam contribuído senão para a felicidade.

Este, senhores, será um saber vulgar, um saber rasteiro, um saber só de experiência feito.

Não é o saber da ciência, que se libra acima das nuvens, e alteia o vôo soberbo, além das regiões siderais, até aos páramos indevassáveis do infinito. Mas, ainda assim, este saber fácil mereceu a Camões o ter a sua legenda insculpida em versos imortais; quanto mais a nós outros, "bichos da terra tão pequenos", a ninharia de ocupar divagações, como estas, de um dia, folhas de árvore morta, que, talvez, não vinguem ao de amanhã.

Da ciência estamos aqui numa catedral. Não cabia em um velho catecúmeno vir ensinar a religião aos seus bispos e pontífices, nem aos que agora nela recebem as ordens do seu sacerdócio. E hoje é féria, ensejo para tréguas ao trabalho ordinário, quase dia santo. Labutastes, a semana toda, o vosso curso de cinco anos, com teorias, hipóteses e sistemas, com princípios, teses e demonstrações, com leis, códigos e jurisprudências, com expositores, intérpretes e escolas. Chegou o momento de vos assentardes, mão por mão, com os vossos sentimentos, de vos pordes à fala com a vossa consciência, de praticardes familiarmente com os vossos afetos, esperanças e propósitos.

[...]

Estudante sou. Nada mais. Mau sabedor, fraco jurista, mesquinho advogado, pouco mais sei do que saber estudar, saber como se estuda, e saber que tenho estudado. Nem isso mesmo sei se saberei bem. Mas, do que tenho logrado saber, o melhor devo às manhãs e madrugadas. Muitas lendas se têm inventado, por aí, sobre excessos da minha vida laboriosa. Deram, nos meus progressos intelectuais, larga parte ao uso em abuso do café e ao estímulo habitual dos pés mergulhados n’água fria. Contos de imaginadores. Refratário sou ao café. Nunca recorri a ele como a estimulante cerebral. Nem usa só vez na minha vida busquei num pedilúvio o espantalho do sono.

Ao que devo, sim, o mais dos frutos do meu trabalho, a relativa exabundância de sua fertilidade, a parte produtiva e durável da sua safra, é às minhas madrugadas. Menino ainda, assim que entrei ao colégio, alvidrei eu mesmo a conveniência desse costume, e daí avante o observei, sem cessar, toda a vida. Eduquei nele o meu cérebro, a ponto de espertar exatamente à hora, que comigo mesmo assentava, ao dormir. Sucedia, muito amiúde, encetar eu a minha solitária banca de estudo à uma ou às duas da antemanhã. Muitas vezes me mandava meu pai volver ao leito; e eu fazia apenas que lhe obedecia, tornando, logo após, àquelas amadas lucubrações, as de que me lembro com saudade mais deleitosa e entranhável.

Tenho, ainda hoje, convicção de que nessa observância persistente está o segredo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no trabalho, mas de quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus concorrentes, em todo o andar dos anos, até à velhice. Muito há que já não subtraio tanto às horas da cama, para acrescentar às do estudo. Mas o sistema ainda perdura, bem que largamente cerceado nas antigas imoderações. Até agora, nunca o sol deu comigo deitado e, ainda hoje, um dos meus raros e modestos desvanecimentos é o de ser grande madrugador, madrugador impenitente.

Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.

Já se vê quanto vai do saber aparente ao saber real. O saber de aparência crê e ostenta saber tudo. O saber de realidade, quanto mais real, mais desconfia, assim do que vai apreendendo, como do que elabora.

Haveis de conhecer, como eu conheço, países, onde quanto menos ciência se apurar, mais sábios florescem. Há, sim, dessas regiões por este mundo além. Um homem (nessas terras de promissão) que nunca se mostrou lido ou sabido em coisa nenhuma, tido e havido é por corrente e moente no que quer que seja; porque assim o aclamam as trombetas da política, do elogio mútuo, ou dos corrilhos pessoais, e o povo subscreve a néscia atoarda. Financeiro, administrador, estadista, Chefe de Estado, ou qualquer outro lugar de ingente situação e assustadoras responsabilidades, é, a pedir de boca, o que se diz mão de pronto desempenho, fórmula viva a quaisquer dificuldades, chave de todos os enigmas.

[...]

Ponho exemplo, senhores. Nada se leva em menos conta, na judicatura, a uma boa-fé de ofício que o vezo de tardança nos despachos e sentenças. Os códigos se cansam debalde em o punir. Mas a geral habitualidade e a conivência geral o entretêm, inocentam e universalizam. Destarte se incrementa e desmanda ele em proporções incalculáveis, chegando as causas a contar a idade por lustros, ou décadas, em vez de anos.

Mas justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta. Porque a dilação ilegal nas mãos do julgador contraria o direito das partes, e, assim, as lesa no patrimônio, honra e liberdade. Os juízes tardinheiros são culpados, que a lassidão comum vai tolerando. Mas sua culpa tresdobra com a terrível agravante de que o lesado não tem meio de reagir contra o delinquente poderoso, em cujas mãos jaz a sorte do litígio pendente

Nas sejais, pois, dessas magistrados, nas mãos de quem os autos penam como as almas do purgatório, ou arrastam sonos esquecidos como as preguiças do mato.

Não vos pareçais com esses outros juízes, que, com tabuleta de escrupulosos, imaginam em risco a sua boa fama, se não evitarem o contato dos pleiteantes, recebendo-os com má sombra, em lugar de os ouvir a todos com desprevenção, doçura e serenidade.

Não imiteis os que, em se lhes oferecendo o mais leve pretexto, a si mesmos põem suspeições rebuscadas, para esquivar responsabilidades, que seria do seu dever arrostar sem quebra de ânimo ou de confiança no prestígio dos seus cargos.

Não sigais os que argumentam com o grave das acusações, para se armarem de suspeita e execração contra os acusados; como se, pelo contrário, quanto mais odiosa a acusação, não houvesse o juiz de se precaver mais contra os acusadores, e menos perder de vista a presunção de inocência, comum a todos os réus, enquanto não liquidada a prova e reconhecido o delito.

Não acompanheis os que, no pretório, ou no júri, se convertem de julgadores em verdugos, torturando o réu com severidades inoportunas, descabidas, ou indecentes; como se todos os acusados não tivessem direito à proteção dos seus juízes, e a lei processual, em todo o mundo civilizado, não houvesse por sagrado o homem, sobre quem recai acusação ainda inverificada.

Não estejais com os que agravam o rigor das leis, para se acreditar com o nome de austeros e ilibados. Porque não há nada menos nobre e aplausível que agenciar uma reputação malignamente obtida em prejuízo da verdadeira inteligência dos textos legais.

Não julgueis por considerações de pessoas, ou pelas do valor das quantias litigadas, negando as somas, que se pleiteiam, em razão da sua grandeza, ou escolhendo, entre as partes na lide, segundo a situação social delas, seu poderio, opulência e conspicuidade. Porque quanto mais armados estão de tais armas os poderosos, mais inclinados é de recear que sejam à extorsão contra os menos ajudados da fortuna; e, por outro lado, quanto maiores são os valores demandados e maior, portanto, a lesão argüida, mais grave iniquidade será negar a reparação, que se demanda.

Não vos mistureis com os togados, que contraíram a doença de achar sempre razão ao Estado, ao Governo, à Fazenda; por onde os condecora o povo com o título de "fazendeiros". Essa presunção de terem, de ordinário, razão contra o resto do mundo, nenhuma lei a reconhece à Fazenda, ao Governo, ou ao Estado.

Antes, se admissível fosse aí qualquer presunção, havia de ser em sentido contrário; pois essas entidades são as mais irresponsáveis, as que mais abundam em meios de corromper, as que exercem as perseguições, administrativas, políticas e policiais, as que, demitindo funcionários indemissíveis, rasgando contratos solenes, consumando lesões de toda a ordem (por não serem os perpetradores de tais atentados os que os pagam), acumulam, continuamente, sobre o tesouro público terríveis responsabilidades.

(Discurso na Faculdade de Direito de São Paulo, 1920. Editado em livro, 1921.)

CREDO POLÍTICO

MEU PAÍS CONHECE O MEU CREDO POLÍTICO, PORQUE O MEU credo político está na minha vida inteira. Creio na liberdade onipotente, criadora das nações robustas; creio na lei, emanação dela, o seu órgão capital, a primeira das suas necessidades; creio que, neste regímen, não há poderes soberanos, e soberano é só o direito, interpretado pelos tribunais; creio que a própria soberania popular necessita de limites, e que esses limites vêm a ser as suas Constituições, por ela mesma criadas, nas suas horas de inspiração jurídica, em garantia contra os seus impulsos de paixão desordenada; creio que a República decai, porque se deixou estragar confiando-se ao regímen da força; creio que a Federação perecerá, se continuar a não saber acatar e elevar a justiça; porque da justiça nasce a confiança, da confiança a tranqüilidade, da tranqüilidade o trabalho, do trabalho a produção, da produção o crédito, do crédito a opulência, da opulência a respeitabilidade, a duração, o vigor; creio no governo do povo pelo povo; creio, porém, que o governo do povo pelo povo tem a base da sua legitimidade na cultura da inteligência nacional pelo desenvolvimento nacional do ensino, para o qual as maiores liberalidades do tesouro constituíram sempre o mais reprodutivo emprego da riqueza pública; creio na tribuna sem fúrias e na imprensa sem restrições, porque creio no poder da razão e da verdade; creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição, no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades.

Rejeito as doutrinas de arbítrio; abomino as ditaduras de todo o gênero, militares ou científicas, coroadas ou populares; detesto os estados de sítio, as suspensões de garantias, as razões de Estado, as leis de salvação pública; odeio as combinações hipócritas do absolutismo dissimulado sob as formas democráticas e republicanas; oponho-me aos governos de seita, aos governos de facção, aos governos de ignorância; e, quando esta se traduz pela abolição geral das grandes instituições docentes, isto é, pela hostilidade radical à inteligência do País nos focos mais altos da sua cultura, a estúpida selvageria dessa fórmula administrativa impressiona-me como o bramir de um oceano de barbaria ameaçando as fronteiras de nossa nacionalidade.

"Resposta a César Zama". Discurso no Senado Federal em 13 de outubro de 1896. Obras Completas de Rui Barbosa, Vol. XXIII, 1896, tomo V, p. 37-38.

NO SÉCULO XX

PARA SE ORIENTAR NA SUA PASSAGEM MOMENTÂNEA PELA IMENSIDADE dos tempos, balizou o homem essas vastas pisões da história, à extrema das quais se debruça de uma para outra com as impressões de um mundo que acaba e outro que principia, como se as nossas demarcações coincidissem com os momentos da Providência, e as fases da nossa evolução respeitassem a uniformidade geométrica da nossa cronologia. A luz e as trevas ensinaram-nos o dia e a noite, o nictêmero invariável, cujas vinte e quatro horas distribuem de meridiano em meridiano a claridade e as trevas. As fases da lua indicaram-nos, talvez, as semanas. Sugeriu-nos os meses a revolução sinódica do satélite da Terra. Nos movimentos celestes fomos buscar a medida dos anos. Mas com os séculos começa o domínio das convenções humanas, arbitrárias na sua relatividade e indiferentes à marcha dos sucessos.

Quando nós traçamos os nossos círculos na esfera infinita, temos os astros, imutáveis e inconfundíveis, para os pontearem de focos rutilantes. Quando baixamos com o compasso das amplidões siderais à superfície do globo, as nossas curvas imaginárias assinalam zonas, climas, hemisférios, persidades naturais e situações perpetuamente distintas, do Levante ao Ocidente, do Equador aos Pólos. Mas, quando lançamos ao passado e ao futuro as nossas linhas seculares, tentamos no futuro o desconhecido, infringimos, no passado, a verdade.

Aqui a simetria constante dessas pisórias intercepta cegamente a continuidade a uma cadeia inpisível de fatos. Ali agrupa, mistura e amalgama entre as mesmas fronteiras cronológicas acontecimentos antagônicos e inconciliáveis, que a harmonia das causas e efeitos obrigaria a classificação a inscrever no pretérito, ou no porvir. Não há, pois, de que nos comovermos tão profundamente, ao transpor essas barreiras, como se penetrássemos numa região nova de maravilhas e imprevistos. O curso dos nossos destinos tem alhures, nos segredos indevassáveis do tempo, os seus marcos reais, aqueles por onde efetivamente se discriminam os estádios sucessivos do progresso.

Essas delimitações fictícias assinam datas: nada mais. O desenvolvimento humano, nas suas tendências sucessivas, procede por durações irregulares, vagas, indefinidas, que não cabem nos quadros prefixos da nossa mnemotecnia.

Se houvéssemos de extremar as idades segundo as grandes mutações morais do nosso planeta, o século dezenove se abriria em 1776, com a independência americana, ou em 1789, com a Revolução Francesa. Desses dois grandes termos nasce o problema contemporâneo da emancipação exterior e interior das nações, que agitou, numa série de revoluções nacionais e internacionais, até 1870, os dois continentes.

Mas, assim como a era das reivindicações separatistas e da liberdade política verdadeiramente se instaura no antepenúltimo lustro da centúria passada, o século vinte, se os séculos se discernissem pela irradiação de novos signos na órbita do mundo, dataria do antepenúltimo decênio do atual. É de então, após as vitórias alemãs, que assomaram claramente no horizonte as duas questões, os dois perigos e os dois enigmas, em cujo circulo de tormentas vai entrar o gênero humano: o socialismo e o imperialismo. São as duas idéias fixas da civilização moderna: a primeira sob a forma de um pesadelo cruciante; a segunda com as seduções de uma atração irresistível.

Tirante a Áustria, encerrada nos Balcãs, todas as demais potências, na Europa e na América, se abrasam na aspiração expansionista. A Itália não renunciou com o desastre de Adua e o malogro do seu império no Mar Vermelho, o espírito da sucessão de Roma, Gênova e Veneza, os seus direitos adquiridos à sucessão dos imperadores e dos doges. Massuah e Ópia não a consolam da usurpação francesa, que lhe roubou o Mediterrâneo. A Alemanha estende-se pela África Oriental; pelo Tratado de Berlim em 1878, pela aliança com Abdul-Hamid, pela viagem de Guilherme II ao Oriente em 1898, pelas homenagens da romaria imperial ao Santo Sepulcro e ao túmulo de Saladino, firma uma importante posição econômica no Levante; no Extremo Oriente põe a mão sobre o Celeste Império, ocupa Kiaotcheo, enceta a exploração das riquezas de Shantung; adquire as Carolinas, as Marianas, Palaos, Samoa. A França, mutilada na Alsácia, reconstitui um império francês maior que o império alemão; conquista a Tunísia e a Indochina; por ai penetra nalgumas das mais ricas províncias chinesas; possui Madagascar; absorve o Noroeste africano; envolve, pelo deserto, Marrocos; exerce sobre o mundo árabe uma espécie de suserania política e moral. A Rússia, depois de aniquilar as liberdades polacas, aniquila as liberdades finlandesas; depois de esmagar os elementos alemães nas províncias bálticas, favorece a exterminação da autonomia armênia pela Turquia; estende em todas as direções estratégicas as suas imensas ferrovias: a Transiberiana para Pequim, a Transcaucásia para o Golfo da Pérsia, a Transcaspiana para a Índia; cresce, num impulso contínuo, por um movimento análogo ao dos glaciares, com a massa incomparável dos seus cento e vinte milhões de almas, para o Mar Negro, para Constantinopla, para o Eufrates, para o Golfo de Oman, para a Manchúria, a Coréia, abrangendo no traçado assombroso do pan-eslavismo a Europa e a Ásia, dos Dardanelos ao Oceano Índico e ao Oceano Pacífico.

Mas nada se compara à dilatação da Inglaterra. Seu imperialismo liberal abarca os continentes. Todas as suas rivais uma a uma involuntariamente a vão servindo: a França, em 1840, quando impele Mehemet Ali à conquista da Síria e da Ásia Menor; em 1869, quando inaugura o Canal de Suez; a Rússia, em 1853, quando ameaça Istambul e os Estreitos, assim como depois quando transmonta o Ararat, e arremessa os seus exércitos até o Mar de Mármara, em San Stefano; a Alemanha, afinal, em 1899, quando, abrindo mão das suas afinidades holandesas e das suas simpatias pelos vencedores de Jameson, entrega os bôeres à desgraçada fortuna das resistências suicidas. Na América abraça o Canadá, a Terra Nova, a Guiana, a Jamaica e as mais ricas das pequenas Antilhas. Ocupa a foz do Níger e do Hinterland até ao Lago Tchad.

Ninguém se lhe atravessa no seu caminho da Índia. Imensos tentáculos do seu domínio universal, as suas forças navais enlaçam os oceanos; as suas vias férreas alongam os sulcos pelo Afeganistão e a Pérsia Meridional, pelo Tibete, pela Birmânia e a China, através dos desfiladeiros do Lan-Tan, para o Yunnan e o Yangtze Kiang; as suas linhas de navegação estendem-lhe o comércio, a influência e o poder até aos mares chineses, de Hong Kong a Weihaiwei, até Melbourne e Sydney, na Austrália, e do Cairo ao Cabo, das fontes do Nilo à Zambézia, à Rodésia, pelas costas africanas. De Natal a Calcutá, de Calcutá a Pequim, de Pequim a Auckland, de Auckland a Quebec, de Quebec ao estuário do Tâmisa, das margens do Tâmisa ao vértice do Himalaia, esse colosso, em cujo seio se abriga uma civilização inteira, derrama a universalidade da sua raça, do seu idioma, das suas instituições e das suas armas.

Mas, como se a arena já não transbordasse, um gigante de proporções incalculáveis invade inopinadamente a cena. Em cinqüenta anos se improvisou a Austrália. Em trinta, o Japão. O advento da soberba potência norte-americana conta menos de um lustro. Há dois anos a Espanha lhe deixava nas mãos as últimas jóias do seu império colonial, os derradeiros retalhos da sua antiga majestade: Cuba, Porto Rico, as Filipinas. Em fevereiro de 1898 desembarcam nas Ilhas de Hawaii as primeiras tropas yankees. Em março Dewey incendeia a esquadra de Montojo no porto de Cavite. Em julho se destrói a de Cervera, ao sair de Santiago. A Alemanha sente para logo, em Manila, o orgulho da embriaguez, em que a loucura das conquistas estonteia a nova potestade militar. Se uma esquadra americana imediatamente se não mostra em pleno Mediterrâneo aos europeus, bombardeando o litoral ibérico, é que a vencida capitula, e se apressa em tratar. Mas logo depois os seus soldados se encontram com os da Europa no Império do Meio, e a espada, que Washington embainhara, para não sair à luta senão em defesa da liberdade, vai disputar à avidez ocidental, nas costas chinesas, o seu quinhão régio nos despojos do Oriente.

Eis como madruga para nós o século vinte. A guerra sino-japonesa, a guerra hispano-americana, a guerra anglo-bôer, três guerras de ambição, três guerras de conquista, três guerras de aniquilamento, esboçam os pródromos do mais desmarcado conflito, a que nunca assistiu a espécie humana. As grandes nações aprestam recursos inauditos, para concorrer à pisão dos países semicivilizados, e ocupar os últimos lugares vagos na área terrestre. A teoria da absorção dos fracos pelos fortes legitima de antemão a hipótese iminente. Não resta às nacionalidades ameaçadas senão apelarem para a sua própria energia, a rápida educação dos seus elementos humanos na escola da guerra.

E, enquanto esta liquidar até nas profundezas submarinas, a vindoira carta política do globo, o espectro social lhe terá semeado à retaguarda procelas e revoluções, de cujo embate não se sabe como sairá esse progresso cristão, que dezenove séculos de lavragem tormentosa tem custado ao Evangelho.

Para nós os desta parte do orbe terrestre não é também desnublado o crepúsculo desta manhã. Ao raiar do século, que ontem expirou, sentíamos o presságio da redenção. Começamos o século dezenove as nações das duas Américas, sacudindo o cativeiro colonial. Agora que a reação colonial torna a soprar sobre o mundo, não desses estreitos recantos de Portugal e Castela, mas por assim dizer de todos os pontos do firmamento, não podemos estar seguros de que no primeiro ou segundo quartel do século entrante não tenhamos de volver à defesa destas paragens contra a cobiça estrangeira.

Desabou o frágil refúgio da doutrina de Monroe, e a sorte dos povos americanos, como a dos africanos e asiáticos, há de liquidar-se, sem barreiras continentais, no teatro do mundo, ao arbítrio dos interesses e das forças, que se medirem na campanha mais cedo ou mais tarde ferida entre os poderosos.

Debalde os votos dos filantropos, os sonhos dos idealistas e as esperanças dos cristãos, evocam, no limiar desta idade, a imagem benfazeja da paz. A realidade ilacrimável há de respondar-lhe como Frederico o Grande, no século dezoito, às desequilibradas impaciências de Rousseau: "Quer ele que eu celebre a paz: não lhe conhece o bom do homem a dificuldade." Nunca esse desideratum esteve mais longe de nós que após o congresso de Haia. Verdade é que dele saiu preconizado o princípio da justiça internacional pelo arbitramento. Mas esta instituição pina terá de passar por muitas repulsas, e sofrer, como as mais belas pindades antigas, muitas feridas, quando o delírio das batalhas arremessar umas contra as outras essas medonhas moles armadas.

Apressemo-nos, entretanto, em atalhar equívocos, que a nossa opinião não subscreve. Se propendemos para Maquiavel em desconfiar da nossa mácula primitiva, em acreditar que a humanidade está sempre vizinha da corrupção natural, em recear nos homens, por mais longas aparências de sublimidade que apresentem, o reproduzir-se da mesma natureza, reproduzidas as mesmas ocasiões, longe estamos de contestar, duvidar ou amesquinhar a obra progressiva das idéias e dos costumes. Ainda no terreno do mal se destacam os progressos inegáveis do bem. Ao alvorar do século dezenove, Napoleão transpunha como o raio o Grande S. Bernardo, dava a Batalha de Marengo, e, subjugando a Itália, de um golpe, anunciava o eclipse do mundo no disco de um gênio. Durante quinze anos a estrela de um homem foi a estrela da civilização européia. Hoje as figuras, que se desenham no campo visual do nosso destino, são as nações e as raças. Aquelas grandes ditaduras acabaram. Os povos obedecem às suas vontades. Tudo está em saber que leis, ou que arcanos supremos animarão essas correntes vivas, e preservarão de terminar em catástrofes os seus encontros formidáveis.

Como quer que for, porém, não regateemos a esse magnífico período secular o seu rnerecimento. Seu caráter foi, em geral, magnânimo e radioso. Aboliu a escravidão. Resgatou, na família européia, quase todas as nacionalidades opressas. Generalizou o governo do povo pelo povo. Elevou os direitos da consciência a uma altura sagrada. Depurou a liberdade, a justiça e a democracia. Criou a opinião pública, e deu-lhe a soberania dos Estados. Entronizou a igualdade legal. Fundou a educação popular. Extraiu da ciência benefícios e portentos, que deslumbram a fantasia. Mudou a paz e a guerra. Transfigurou a face dos continentes e dos mares.

Mas até onde tocou o coração do homem, só Deus o sabe, e o saberemos nós, quando a centelha atmosférica inflamar os combustíveis, cuja aglomeração silenciosa inquieta os grandes e apavora os pequenos. Então os que assistirem ao espetáculo, poderão dizer se a um século, em que a ciência serviu principalmente à força, terá sucedido um século, em que a força se incline, afinal, ao direito.

Entrementes vamo-nos dando ao ingênuo prazer, ou à vaidade inofensiva de sentirmo-nos entre os mortais, a quem tocou o privilégio de assistir a um dos centenários da humanidade. Os marinheiros de primeira viagem recebem alegremente o batismo náutico, ao cruzarem a vez primeira o círculo equinocial. Este círculo do tempo não se transpõe duas vezes. Digamos, pois, adeus a esta baliza da eternidade, com o sentimento de um encontro que se não repete.
Terça-feira, 1 de janeiro de 1901.
Obras Completas de Rui Barbosa, "A Imprensa", vol. XXVIII, tomo III, 1901, p. 3-8.

Autor(a): Rui Barbosa
Fonte: Fundação Casa de Rui Barbosa - www.casaruibarbosa.gov.br

 

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