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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

STANISLAW PONTE PRETA
publicado em: 02/08/2017 por: Lou Micaldas

BIOGRAFIA
ÉRAMOS MAIS UNIDOS AOS DOMINGOS
AS FRASES DE STANISLAW  

POR FORA DE "XANÁS"

BIOGRAFIA

Stanislaw Ponte Preta (1923-1968), pseudônimo de Sérgio Porto, foi um escritor, cronista, jornalista e radialista brasileiro. Marcou presença na literatura nacional com a publicação de livros de paródia e humor, com crônicas satíricas e corrosivas, e com a criação de persos personagens, entre eles, “A Velha Contrabandista” e “Tia Zulmira”.
Stanislaw Ponte Petra (1923-1968) nasceu no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, no dia 11 de janeiro de 1923. Filho de Américo Pereira da Silva Porto e de Dulce Julieta Rangel Porto foi registrado com o nome de Sérgio Marcus Rangel Porto. Foi uma criança alegre e despertou cedo sua vocação para o humor e desenvolveu a arte de dar apelidos e fazer imitações.

Sérgio Porto ingressou na Faculdade de Arquitetura até o terceiro ano, quando abandonou o curso para começar a trabalhar no Banco do Brasil, em 1942, onde permaneceu durante quinze anos. Ainda bancário, iniciou sua carreira jornalística fazendo um pouco de tudo, inclusive reportagem policial e comentário esportivo.

Em 1949 começou a escrever para a revista Sombra, e em 1951 passou para o Diário Carioca, onde começou a usar o pseudônimo “Stanislaw Ponte Preta”, inspirando-se no nome de um personagem satírico de Oswald de Andrade – o Serafim Ponte Grande. Inicialmente fazia uma mistura de crítica teatral e crônica social, mas depois se dedicou apenas à crônica da vida artística. Em 1952 casa-se com Dirce Pimentel Araújo, com quem teve três filhas.

Em 1953 transferiu-se para o jornal Tribuna da Imprensa. Grande apreciador da Música Popular Brasileira e do Jazz escreveu “Pequena História do Jazz”, publicado em Cadernos de Cultura do Ministério da Educação. Em 1954 começou a escrever na Última Hora, iniciando-se no estilo satírico, com seu constante bom humor e sua vocação para se pertir. Nesse mesmo ano, começou a trabalhar na rádio Mayrink Veiga, onde permaneceu durante oito anos.

Em 1956, em parceria com Nestor de Holanda, escreveu a revista teatral “TV para Crer”. No ano seguinte colaborou com o Diário da Noite e com O Jornal, voltando depois para a Última Hora. Com Luís Iglesias editou a revista teatral “Quem Comeu Foi Pai Adão”. Criou vários shows para a televisão, entre eles, a célebre eleição das “Dez Mais Certinhas do Lalau”, numa paródia aos concursos das dez mais elegantes, promovidos por cronistas sociais. Todo ano ele escolhia dez das mais bonitas atrizes e vedetes do “teatro rebolado”.

Em 1958 escreveu os diálogos do filme “É de Chuá” e lançou “O Homem ao Lado”, primeiro livro de crônicas de “Sérgio Porto”. Em 1961 publicou “Tia Zulmira e Eu”, o primeiro livro de “Stanislaw Ponte Preta”, que reúne crônicas selecionadas de vários jornais e revistas. Ainda como Stanislaw, publicou: “Primo Altamirando e Elas” (1962), “Rosamundo e os Outros” (1963) e a “Casa Demolida”, uma ampliação e reedição do livro O Homem ao Lado.

Em 1966 Stanislaw escreveu argumentos dos episódios do filme “As Cariocas”. Escreveu “Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País”, crônicas dedicadas, segundo o autor, aos abusos cometidos pela “redentora”, nome que ele deu ao golpe militar de 1964. Em 1967 escreveu “Febeapá nº 2”.

Em 1968 escreve seu último livro “Na Terra do Crioulo Doido”. Nesse mesmo ano, foi vítima de um envenenamento em seu café, no intervalo do “Show do Crioulo Doido”, apresentado no teatro Ginástico, baseado no sucesso do “Samba do Crioulo Doido”, uma sátira aos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro. Logo após o incidente teve seu terceiro enfarte.

Stanislaw Ponte Preta faleceu no Rio de Janeiro, no dia 30 de setembro de 1968.

ÉRAMOS MAIS UNIDOS AOS DOMINGOS 

As senhoras chegavam primeiro porque vinham diretas da missa para o café da manhã. Assim era que, mal davam as 10, se tanto, vinham chegando de conversa, abancando-se na grande mesa do caramanchão. Naquele tempo pecava-se menos, mas nem por isso elas se descuidavam. Iam em jejum para a missa, confessavam lá os seus pequeninos pecados, comungavam e depois vinham para o café. Daí chegarem mais cedo.

Os homens, sempre mais dispostos ao pecado, já não se cuidavam tanto. Ou antes, cuidavam mais do corpo do que da alma. Iam para a praia, para o banho de sol, os mergulhos, o jogo de bola. Só chegavam mesmo — e invariavelmente atrasados na hora do almoço. Vinham ainda úmidos do mar e passavam a correr pelo lado da casa, rumo ao grande banheiro dos fundos, para lavar o sal, refrescarem-se no chuveiro frio, excelente chuveiro, que só começou a negar água do Prefeito Henrique Dodsworth pra cá.

O casarão, aí por volta das 2 horas, estava apinhado. Primos, primas, tios, tias, tias-avós e netos, pais e filhos, todos na expectativa, aguardando aquela que seria mais uma obra-mestra da lustrosa negra Eulália. Os homens beliscavam pinga, as mulheres falando, contando casos, sempre com muito assunto. Quem as ouvisse não diria que estiveram juntas no domingo anterior, nem imaginaria que estariam juntas no domingo seguinte. As moças, geralmente, na varanda da frente, cochichando bobagens. Os rapazes no jardim, se mostrando. E a meninada, mais afoita, rondando a cozinha, a roubar pastéis, se fosse o caso de domingo de pastéis.

De repente aquilo que Vovô chamava de “ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. Era o grito de Eulália, que passava da copa para o caramanchão, sobraçando uma fumegante tigela, primeiro e único aviso de que o almoço estava servido. E então todos se misturavam para distribuição de lugares, ocasião em que pais repreendiam filhos, primos obsequiavam primas e o barulho crescia com o arrastar de cadeiras, só terminando com o início da farta distribuição de calorias.

Impossível descrever os pratos nascidos da imaginação da gorda e simpática negra Eulália. Hoje faltam-me palavras, mas naquele tempo nunca me faltou apetite. Nem a mim nem a ninguém na mesa, onde todos comiam a conversar em altas vozes, regando o repasto com cerveja e guaraná, distribuídos por ordem de idade. Havia sempre um adulto que preferia guaraná, havia sempre uma criança teimando em tomar cerveja. Um olhar repreensivo do pai e aderia logo ao refresco, esquecido da vontade. Mauricinho não conversava, mas em compensação comia mais do que os outros.

Moças e rapazes muitas vezes dispensavam a sobremesa, na ânsia de não chegarem atrasados na sessão dos cinemas, que eram dois e, tal como no poema de Drummond, deixavam sempre dúvidas na escolha.

A tarde descia mais calma sobre nossas cabeças, naqueles longos domingos de Copacabana. O mormaço da varanda envolvia tudo, entrava pela sala onde alguns ouviam o futebol pelo rádio, um futebol mais disputado, porque amador, irradiado por locutores menos frenéticos. Lá, nos fundos os bem-aventurados dormiam em redes. Era grande a família e poucas as redes, daí o revezamento tácito de todos os domingos, que ninguém ousava infringir.

E quando já era de noitinha, quando o último rapaz deixava sua namorada no portão de casa e vinha chegando de volta, então começavam as despedidas no jardim, com promessas de encontros durante a semana, coisa que poucas vezes acontecia porque era nos domingos que nos reuníamos.

Depois, quando éramos só nós — os de casa — a negra Eulália entrava mais uma vez em cena, com bolinhos, leite, biscoitos e café. Todos fazíamos aquele lanche, antes de ir dormir. Aliás, todos não. Mauricinho sempre arranjava um jeito de jantar o que sobrara do almoço.

AS FRASES DE STANISLAW

Inúmeras frases, conceitos e bordões criados por Sérgio passaram à memória nacional, o que o tornava o mais autorizado intérprete de nosso cotidiano :
@ Tem nêgo que adora virar fenômeno.
@ Estava mais duro do que nádega de estátua.
@ Parecia uma onça com sinusite.
@ Mais incomodado do que um búfalo no verão da Dinamarca.
@ Era um especialista em vias urinárias e não tinha preferências, qualquer que fosse a via, em sendo urinária, ele encarava.
@ No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixam de acontecer.
@ Uma nota novinha em folha, dessas que saem logo depois de uma revolução em emissão especial para cobrir as despesas democráticas.
@ Carro é como mulher: só é bom pra quem tem dois.
@ Mais feio que mudança de pobre.
@ Estava tão mal que mais parecia reserva do Bonsucesso.
@ Conversa de bêbado não tem dono.
@ Antes só do que muito acompanhado.
@ Quando aquele cavalheiro nervoso entrou no hospital dizendo "eu sou coronel eu sou coronel", o médico tirou o estetoscópio do ouvido e quis saber: "Fora esse, qual o outro mal do qual o senhor se queixa?"
@ Ser imbecil é mais fácil.
@ Mais remendado que paletó de mendigo.
@ Não sei porque tem gente que acha que eu tenho que defender tudo, igual goleiro de Seleção.
@ Está dando mais do que cará no brejo.
@ Na idade de Tia Zulmira não existe desejo sexual, existe é reminiscência sexual, que é coisa bem diferente e muito menos cansativa.
@ Mais monótono do que itinerário de elevador.
@ Macrobiótica é um regime alimentar para quem tem 77 anos e quer chegar aos 78.
@ Consciência é como vesícula, a gente só se preocupa com ela quando dói.
@ Lavar a honra com sangue suja a roupa toda.
@ Difícil dizer o que incomoda mais, se a inteligência ostensiva ou a burrice extravasante.
@ Mania de grandeza é a desses suplementos literários que têm um aviso dizendo que é proibido vender separadamente.
@ Se mosquito fosse malandro mordia antes e zunia depois.
@ Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!
@ Esperanto é uma língua universal que não se fala em lugar nenhum.
@ Quem dá aos pobres e empresta, adeus!
@ Levou um susto e ficou mais branco do que bunda de escandinavo.
@ Ficou numa melancolia de pingüim no Piauí.
@ Mais por fora do que umbigo de vedete.
@ Tirante mulher, a gente só deve recomendar o que experimentou e gostou.
@ O terceiro sexo já está quase em segundo.
@ Em rio de piranha jacaré nada de costas.
@ Se a senhora está mesmo disposta a se despir de todos os seus preconceitos então porque não tira logo as calcinhas também?
@ Dono de cartório de protesto é uma espécie de cafetão da desgraça alheia.
@ Minissaia é um traje que quando a mulher senta aparece o que a saia tinha obrigação de fazer sumir.
@ Por mais eficaz que sejam os métodos novos de fazer criança, a turma jamais abandonara o antigo.
@ A polícia prendendo bicheiros? Assim não é possível. Respeitemos ao menos as instituições.
@ O rapaz era militar e Flamengo, portanto duplamente supersticioso.
@ Quando o casal começou a dançar o chá-chá-chá Tia Zulmira disse que já conhecia aquilo, apesar de que, de pé, era a primeira vez que via.
@ A dúvida dele não era a de que pudesse não ser um homem mas a de que talvez nem chegasse a ser um rato.
@ Mais inútil do que um vice-presidente.
@ Há sujeitos tão inábeis que sua ausência preenche uma lacuna.
@ Pra não se sentir diminuído no meio dos amigos, confessou: "Não é pra me gabar não, mas eu também sou meio tarado!"
@ Era uma empregada tão perfeita que a patroa concordou em cozinhar para ela.
@ Os valores morais são os únicos que conservaram os preços de antigamente.
@ Ele tinha um medo terrível de se apaixonar pela esposa.
@ Mais vale um filé no prato do que um boi no açougue.
@ Quando estamos fora, o Brasil dói na alma; quando estamos dentro, dói na pele.
@ Quando acabou aquele velório teve-se a impressão de que o morto ficou mais aliviado.
@ Amor, dinheiro e lua, parando de crescer começam logo a diminuir.
@ Nem todo rico tem carro, nem todo ronco é pigarro, nem toda tosse é catarro, nem toda mulher eu agarro.
@ Coitado, freqüentou tantas noites de autógrafos que acabou alcoólatra.
@ Se você não acredita que o reino do céu é aqui, repare então como os pobres de espírito se pertem.
@ O cachorro abana o rabo quando quer agradar, a mulher, quando quer agrado.
@ Mulher e livro, emprestou, volta estragado.
@ O sol nasce para todos, a sombra pra quem é mais esperto.

POR FORA DE "XANÁS"

Todo dito popular funciona e ficaria o dito pelo não dito se os ditos ditos não funcionassem, dito o que, acrescento que há um dito que não funciona ou, melhor dito, é um dito que funciona em parte uma vez que, no setor da ignorância, o dito falha, talvez para confirmar outro velho dito: o do não-há-regra-sem-exceção. Digo melhor: o dito mal-de-muitos-consolo-é encerra muita verdade, mas falha quando notamos que ignorância é o que não falta pela aí e, no entanto, ninguém gosta de confessar sua ignorância. Logo, pelo menos aí, o dito dito falha.

Tenho experiência pessoal quanto à má-vontade do próximo para com a própria ignorância, má-vontade esta confirmada persas vezes em poucos minutos, graças a uma historinha vivida ao lado do escritor Álvaro Moreira, num dia em que fomos almoçar juntos, na cidade. Já não me lembro qual o motivo do almoço.

Lembro-me, isto sim, que íamos caminhando, quando Alvinho disse, em voz alta: — Leônio Xanás. 
— O quê? — perguntei, e Alvinho explicou que Leônio Xanás era o nome do pintor que estava pintando seu apartamento. Até me mostrou um cartãozinho, escrito "Leônio Xanás — Pinturas em Geral — Peça Orçamento".

— Hoje acordei com o nome dele na cabeça. A toda hora digo Leônio Xanás — contava o escritor. — Ainda agorinha, ao entrar no lotação, disse alto "Leônio Xanás" e levei um susto, quando o motorista respondeu: "Passa perto". Ele pensou que eu estava perguntando por determinada rua e foi logo dizendo que passa perto, sem, ao menos, saber que rua era. Foi aí que nos nasceu a vontade de experimentar a sinceridade do próximo e nos nasceu a certeza de que ninguém gosta de confessar-se ignorante mesmo em relação às coisas mais corriqueiras. Entramos numa farmácia para comprar Alka-Seltzer (pretendíamos tomar vinho no almoço) e Alvinho experimentou de novo, perguntando ao farmacêutico: — Tem Leônio Xanás? — Estamos em falta — foi a resposta. Saímos da farmácia e fomos ao prédio onde tem escritório o editor do Alvinho.

No elevador, nova experiência. Desta vez quem perguntou fui eu, dirigindo-me ao cabineiro do elevador: — Em que andar é o consultório do Dr. Leônio Xanás? — Ele é médico de quê? — Das vias urinárias — apressou-se a mentir o amigo, ante a minha titubeada. Então é no sexto andar — garantiu o cara do elevador, sem o menor remorso. E se não tivéssemos saltado no quarto andar por conta própria, teria nos deixado no sexto a procurar um consultório que não existe.

E assim foi a coisa. Ninguém foi capaz de dizer que não conhecia nenhum Leônio Xanás ou que não sabia o que era Leônio Xanás. Nem mesmo a gerente de uma loja de roupas, que — geralmente — são senhoras de comprovada gentileza. Entramos num elegante magazine do centro da cidade para comprar um lenço de seda para presente. Vimos vários todos bacanérrimos, mas — para continuar a pesquisa — indagamos da vendedora: — Não tem nenhum da marca Leônio Xanás? A mocinha pediu que esperássemos um momento, foi até lá dentro e voltou com a prestativa senhora gerente. Esta sorriu e quis saber qual era mesmo a marca: — Leônio Xanás — repeti, com esta impressionante cara-de-pau que Deus me deu. Madame voltou a sorrir e respondeu: — Tínhamos, sim, senhor. Mas acabou. Estamos esperando nova remessa. Foi uma pena não ter.

Compramos de outra marca qualquer e fomos almoçar. Foi um almoço simpático com o velho amigo. Lembro-me que, na hora do vinho, quando o garçom trouxe a carta, Alvinho deu uma olhadela e disse, em tom resoluto: — Queremos uma garrafa de Leônio Xanás tinto. O garçom fez uma mesura: — O senhor vai me perdoar, doutor. Mas eu não aconselho esse vinho. Devia ser uma questão de safra, daí aconselhar outro: — O Ferreirinha não serve? Servia. É irmãos, mal de muitos consolo é, mas ignorante que existe às pampas, ninguém quer ser.

Autor(a): Stanislaw Ponte Preta

 

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