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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

CACÁ DIEGUES
publicado em: 31/01/2018 por: Lou Micaldas

O MAIOR TEATRO POPULAR DE RUA
A ÚLTIMA QUE MORRE

O MAIOR TEATRO POPULAR DE RUA

Blocos começam a ter que experimentar soluções para o que nunca conheceram antes. Como a intervenção inesperada e indesejada da violência urbana contemporânea

Semana que vem, começa o carnaval. Quer dizer, começa na folhinha, na data oficial do calendário, porque nas ruas ele já está rolando há algumas semanas. Tenho a impressão de que, mesmo que o prefeito da cidade fosse um comissário do Partido Nazista, a esta altura não tem mais quem impeça a realização da festa.

Vamos, por enquanto, deixar política e moral para lá, pensar apenas em de onde vem e para onde vai o carnaval como experiência cultural, formadora da nação.

Vindo de tradições ibéricas e da própria commedia dell’arte, o carnaval se consolidou no Rio de Janeiro através das tias baianas. Vindas quase sempre da Bahia, essas matriarcas negras de comunidades populares que usaram a música como instrumento de poder acabaram por re-inventar o samba na nossa cidade. O carnaval veio também de seu oposto aparente, as procissões católicas impregnadas por espírito popular de mestiçagem religiosa e musical. Essas procissões pareciam desfiles de rancho, os precursores das escolas de samba cariocas, como está em “Memórias de um sargento de milícias”, de Manoel Antônio de Almeida, escrito e passado no final do seculo XIX.

Religiosas ou não, o que essas manifestações coletivas acabaram por criar, formalizado a partir do início dos anos 1930, foi o maior teatro popular de rua da cultura ocidental — os desfiles de escolas de samba que, em 1984, foram parar no Sambódromo, um equívoco cometido por dois gênios brasileiros, Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer.

O Sambódromo tentava “disciplinar” o carnaval, completando um cada vez maior aprisionamento das escolas de samba a um formato oficial. Algumas delas souberam dar a volta por cima, com a sabedoria e o talento de carnavalescos como Fernando Pamplona, Joãosinho Trinta ou Fernando Pinto. Em “Por que perdeu?”, livro excelente de Marcelo de Mello, podemos conhecer as injustiças de alguns resultados oficiais que, no entanto, não acabaram com o brilho da lembrança e dos ensinamentos para o futuro dos ganhadores virtuais.

Essas intervenções “corretoras” da espontaneidade da invenção popular que é o carnaval, como o projeto recente de um “blocódromo” (que felizmente não pegou), são tentativas de controlar o que já nasceu, por definição, incontrolável, tentando escapar de qualquer controle, mesmo que nem sempre seja bem-sucedido.

Os blocos agora voltam a crescer pelos bairros da cidade. E começam a ter que improvisar e experimentar soluções para o que nunca conheceram antes. Como, por exemplo, a intervenção inesperada e indesejada da violência urbana contemporânea. Há poucos dias, na Tijuca, o enfrentamento entre policiais e bandidos, na passagem de um bloco, matou com um tiro o garçom Samuel, conhecido no bairro por Samuca, que queria apenas ver o bloco passar e talvez, se possível, cair no samba atrás dele.

Peter Beck, fundador da empresa Rocket Lab, lançou esta semana seu primeiro Electron, foguete de baixo custo a bordo do qual está uma coisa chamada “Humanity Star”, tipo uma estrela artificial. Parece que, durante nove meses, essa falsa estrela se tornará a coisa mais brilhante no céu do planeta. Cientistas, técnicos e especialistas estão furiosos, manifestando-se contra a “Estrela da Humanidade”, que vai, segundo eles, atrapalhar a observação científica, tornando-se o que chamam de uma “pichação espacial”.

Tudo bem, os cientistas devem ter razão. Mas, desde que li essa notícia, não sonho com outra coisa que não seja ver o céu da Sapucaí lotado de “Humanity Stars”, fazendo daquela noite um dia iluminado de folia no céu da cidade.

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A propósito da pesquisa da Agência Nacional de Cinema (Ancine) sobre a incidência de gênero e raça nas equipes de cinema brasileiro, me ocorreu o seguinte.

Entre 2009 e 2010, produzimos o filme “5XFavela, agora por nós mesmos”, totalmente realizado por cineastas moradores de favelas. Durante seis meses, organizamos palestras, aulas e seminários sobre os diversos aspectos técnicos do cinema, para cerca de 600 moças e rapazes que depois foram fazer o filme.

Uma vez pronto, “5XFavela, agora por nós mesmos” entrou na seleção oficial do Festival de Cannes, ganhou quase todos os prêmios no de Paulínia, foi consagrado pela crítica e pelo público quando lançado no Brasil, em 2010. Hoje, aquela rapaziada está vivendo do audiovisual, trabalhando em equipes de cinema e televisão.

Mas nenhum deles ou delas, até agora, conseguiu recursos para fazer um longa-metragem como diretor.

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Vou tirar um mês de férias de tudo, a partir desta semana de carnaval. Volto a este espaço do jornal no domingo 4 de março, título do sucesso de Nando Reis e dia da entrega dos Oscars deste ano. Depois de um mês de descanso, vai ser no mínimo animado. Até lá.

A ÚLTIMA QUE MORRE

Acho até que sou capaz de mudar de ideia e, mais uma vez, acabar votando de novo, em outubro deste ano. A gente tem sempre que ter alguma esperança

Este ano, não pretendo votar nas eleições de outubro. Não me entusiasmo por nenhum candidato à vista, não acho que nenhum dos até aqui citados e seus partidos representem o que penso do país e de mim mesmo. A lei me facilita as coisas, na minha idade não sou mais obrigado a votar. Melhor assim, me abstenho sem culpas.

Mas não quero que sigam meu exemplo, acho que todos devem sempre votar. Sobretudo os mais jovens, que ainda não experimentaram a crucial, embora parcial, responsabilidade de eleger o próximo governo. Aquele governo que, durante os próximos quatro anos, nos fará sofrer por perdas, danos e fracassos de nossos sonhos. Como sempre.

Meu tempo de vida me permitiu viver em vários países diferentes. O Brasil do ditador Getulio Vargas e o do presidente eleito Getulio Vargas. O do jovial e esperto Juscelino Kubistchek, o do triste e esquizofrênico Jânio Quadros. O Brasil de uma ditadura longa e cruel, o Brasil da chanchada democrática do Sarney. Da pompa culta de FHC e do populismo simpático de Lula. Nunca fomos o mesmo.

Votar deve ser sempre o melhor, o mais prazeroso momento de uma vida num regime democrático. O momento em que, na solidão da cabine eleitoral, escolhemos o futuro do país, com o sentimento febril de que nossa escolha é decisiva. E a expectativa de que o país é muito grande e, mais cedo ou mais tarde, se livrará das merdas em que sempre se mete.

Acho até que sou capaz de mudar de ideia e, mais uma vez, acabar votando de novo, em outubro deste ano. A gente tem sempre que ter alguma esperança.

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A Ancine (Agência Nacional de Cinema) está fazendo uma pesquisa com os 142 filmes brasileiros lançados no ano passado. O objetivo é levantar a incidência de gênero e raça dos profissionais envolvidos nesses títulos. A injusta discrepância do resultado não é muito diferente daquela que encontramos em outras atividades no Brasil, culturais ou não. Mas nunca é demais lembrá-la, para começar a corrigir nossa vergonhosa desigualdade.

Hoje, as mulheres representam 51,5% da população do país e os homens, 48,5%. No entanto, apenas 19,7% de nossos filmes foram dirigidos por mulher, enquanto 75,4% foram dirigidos por homens. A população preta e parda no Brasil é de 54% dos brasileiros. Mas apenas 2,1% de nossos filmes são dirigidos por cineastas pretos ou pardos, contra 75,4% de diretores brancos. Nenhum filme foi dirigido por mulher negra.

Podemos explicar esses absurdos com a velha fórmula culta de Joaquim Nabuco (no Brasil, a escravidão acabou, mas seus efeitos ainda vão durar por muito tempo). Mas alguma coisa tem que ser feita para romper, o mais rápido possível, com essa discriminação silenciosa, patriarcal e racista. Se isso não acontecer, o Brasil nunca estará plenamente representado em nossos filmes.

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Há controvérsias sobre o personagem da coluna da semana passada.

O proprietário daquele terreno sob a Avenida Niemeyer, onde um lavrador mineiro, depois de deixar o lamaçal de Mariana, teria se instalado, afirma que não é verdade que nosso personagem, Joaquim, descobrira a área em estado de abandono, cheia de entulhos, jogada às baratas. Como não encontrei mais o nosso herói, passo a contar o que me foi contado.

A área já teria sido limpa dos restos da demolição ordenada pela prefeitura. Ela fora cercada com portão de alumínio a cadeado para iniciar a construção autorizada por licitação municipal. Um dia depois de terminada a limpeza e instalado o portão, o local fora invadido e transformado em ponto de venda de drogas.

Segundo o proprietário, quando Joaquim chegou à área, não estaria vindo de Mariana e sim da Rocinha, de cuja comunidade havia sido expulso. Um encarregado do empreendimento lhe teria solicitado que deixasse o lugar. Além de tratar-se de um projeto privado, não havia segurança para que alguém pudesse permanecer ali. O encarregado deu-lhe então algum dinheiro, para que pudesse ir embora. Depois disso, construíram um muro de alvenaria para novamente cercar a área. Dois dias depois, o muro tinha sido derrubado.

A ideia de seu proprietário é fazer da área um beach club, atração para moradores e turistas da cidade. Ele planeja contratar mão de obra da ONG que o chef Atala mantém na favela do Vidigal, logo ali adiante. Segundo o proprietário, o Hotel Sheraton, vizinho da área, está apoiando a iniciativa. Ao lado dessas informações, me foi enviada também uma cópia do projeto que será submetido à aprovação da prefeitura.

Aí está. Como não encontrei mais Joaquim, passo a história como me foi contada pelo proprietário do terreno. Quem sabe, Gustavo Goulart, o competente repórter do GLOBO, se anime a fazer uma continuação da reportagem que chamou minha atenção para o caso.

Autor(a): Cacá Diegues é cineasta
Fonte: https://oglobo.globo.com/opiniao/o-maior-teatro-popular-de-rua-22360461
Colaborador(a): Fernando Peres

 

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