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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

ALEXANDRE GARCIA
publicado em: 03/01/2017 por: Lou Micaldas

 
 
 
Multiplique por três o número de mortos no presídio de Manaus. É muito, é escandaloso? Pois 164 mortos é a média diária de homicídios no Brasil. E isso não nos escandaliza. Reagimos quando acontecem no mesmo lugar. Ou quando ocorre a invasão de uma casa em Campinas no réveillon por um tresloucado a matar todos, inclusive o próprio filho de oito anos. O banho de sangue não é apenas o do presídio manauara; é o dia-a-dia do nosso país tropical, habitado pelo brasileiro cordial de que falou Sérgio Buarque de Hollanda.

Foi uma guerra entre facções. O PCC, importado de São Paulo para a Amazônia e a FDN – a Família do Norte – que mostrou quem manda, matando 56 integrantes do grupo inimigo. A polícia decidiu não intervir, por decisão sábia do Secretário de Segurança, um delegado federal. Se interviesse, seria responsabilizada pelas mortes, tal como no Carandiru, em 1992, em que os PMs foram condenados a mais de 600 anos de prisão. A síndrome do Carandiru poupou a polícia de mais um ônus, embora já a estejam criticando por não intervir. Paga por ir e paga por não ir.

Aliás, é incrível essa nossa preferência por bandidos e nossa antipatia em relação à polícia. Paradoxalmente, reclamamos da falta de segurança. Parece uma posição psicótica. Aos noticiarmos a ação de bandidos, não poupamos para eles adjetivos elogiosos. “Numa ação audaz, assaltaram o carro forte”; ou: “Quadrilha especializada em explosão de caixas eletrônicos”. No país de amedrontados e amadores, audaz e especializado são elogios raros, em geral reservados para bandidos, nas nossas páginas e microfones. Em vez de quadrilha de ladrões de automóveis, a notícia sai assim: “Quadrilha especializada em roubo de automóveis.” Os bandidos agradecem e devem pôr os recortes na parede.

O povo está acuado e amedrontado. As autoridades recomendam que não reajam. A leis desarmou as pessoas de bem, impedindo o elementar direito de defesa e dando tranquilidade ao bandido, enquanto a polícia carece de meios e de apoio dos governos e dos meios de informação. As leis, feitas por nossos representantes, mais parecem ter sido feitas por representantes de foras-da-lei. Depois do presídio de Manaus, ainda há quem sugira soltar condenados, por causa da superlotação. Pois os que estavam no semi-aberto  levaram as armas que mataram.  Só tem um lugar em que o bandido pára de assaltar e matar: atrás das grades. Para isso, é preciso perguntar de que lado estamos. Pois o banho de sangue pode aumentar.
 
 
O excelente articulista Percival Puggina propõe uma pergunta: Se o Poder Público lhe oferecesse seus serviços de segurança, saúde, educação, transporte, justiça, como um pacote pago de serviços, você o compraria? No Brasil real, você pode responder que não, porque a qualidade dos serviços é péssima, mas você é obrigado a “comprar”, mediante pagamento de impostos que consomem de 30% a 50% do que você ganha. Para sustentar um estado pesado, ineficiente, que dá para os seus próprios integrantes  benefícios e salários bem acima dos que estão fora dele. Um estado injusto, que vende o que não tem, que cobra caro, que se endivida e que é você quem arca com as consequências, com a recessão, o desemprego, os juros altos, a falta de futuro. Um estado que é grande mais no que não precisamos e pequeno demais no que precisamos. E quando se erguem governadores, prefeitos e presidente propondo medidas para encontrar soluções, o corporativismo estatal cerra fileiras para impedir.

Assim foi com a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista de Lula, anos atrás, ainda no primeiro mandato. A da Previdência era até mais ousada e mais completa que a atual proposta, e estava sendo tocada pelo Secretário-Geral da Fazenda, Bernardo Appy, em tempos de Palocci. A Trabalhista era negociada com êxito pelo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Luiz Marinho, íntimo de Lula. Não foram adiante porque barradas pelos sindicatos do funcionalismo. Quando chegou o governo Dilma, aí tudo se degringolou. Agora, estranhamente, o PT está contra Temer apresentar uma proposta que era do Partido dos Trabalhadores, para salvar empregos e a previdência. 

País estranho, esse. PT e PMDB eram companheiros de chapa. Os petistas votaram em Temer e os peemedebistas elegeram Dilma.

E agora são os que gritam “fora Temer”, e ficam contra quando Temer apresenta projetos que eram do PT.  Vão lembar que foi um peemedebista que abriu caminho para o impedimento de Dilma. Pois um amigo mineiro me afirmou, na noite de Natal, que o pixuleco recebido por Eduardo Cunha é pouco para pagar o que ele fez pelo país, ao abrir caminho para que a nação se livrasse do desastre Dilma. É de pensar. Seria uma atenuante para a pena que ele vai receber? Pobre país!

Entre o Natal e o Ano-Novo, talvez a palavra mais pronunciada no Brasil seja esperança. Eu diria que quanto mais decepções e frustrações que se tenha, maior é a esperança. Como temos um presente de recessão e desemprego, o futuro fica ainda mais cheio de esperança. E a esperança em 2017 está na Lava-Jato.

Que essa grande operação, tal como a Mãos Limpas da Itália,  seja um marco que ponha um basta na cultura da corrupção, que impregna os três poderes nos três níveis da Federação. Que se investigue e se puna, para que possamos ter esperança em 2018, quando vamos eleger deputados, senadores, presidente e governadores. Se 2017 pegar e punir, os partidos se sentirão na obrigação de apresentar candidatos menos ruins. E pode ser que o estado se sinta constrangido a nos vender um melhor pacote de serviços a mais baixo custo.

Fonte: http://www.sonoticias.com.br/coluna/pacote-de-natal#sthash.ZMgLluoA.dpuf

 

 

 

 

 

 


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