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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

APÓLLO NATALI
publicado em: 08/12/2016 por: Lou Micaldas

O BELO NATAL

⇒VOVÓ DO MATO

→SABEM QUAIS SÃO AS CRÔNICAS MAIS BELAS? AS CANÇÕES!

→LINDEZA DE ÁRVORE!

→GALO

 

O BELO NATAL

O que essa gente não faz para disparar as vendas. 

Numa inspirada jogatina de marketing, homens de negócios dotados de imensa aptidão lançaram fora a comemoração do dia do nascimento do personagem mais celebrado do universo, o nome dele é Jesus, e no lugar dele estamparam no calendário o nome de um novato conhecido como Papai Noel.

Nessa reviravolta, Jesus deve ter sido considerado fraco em revolucionar leis de compra e venda e o escolhido foi Papai Noel, figura essa modelada por exímios empreendedores, nada contra eles, como um alegre velhinho de barbas brancas e, valha-nos Deus, detentor de milagrosa façanha mercadológica: numa só noite, chova ou faça neve, compra e distribui presentes para milhões e milhões de crianças e adultos do mundo inteiro. 

Um só velhinho de voz rouca entoando hô,hô,hô, põe para funcionar todas as atividades econômicas ao mesmo tempo, de tecidos a bancos, de alimentos à indústria do petróleo, porque de petróleo são feitas as roupas,  os presentes de plásticos, calçados, cintos, veículos, tudo. A dinheirama para o Papai Noel sai do bolso dos papais e das mamães.

Monumental o faturamento. Nada contra. Gerar empregos é bom. Pois não é o emprego a salvação dos pais de família e seus rebentos?

De Jesus fala-se há mais de 2 mil anos. Mais, muito mais. Compêndios sagrados perdidos na lembrança, templos misteriosos desaparecidos nas noites do passado, a própria Bíblia, sopram de longe em longe milenários murmúrios de sua vinda à terra. Mesmo no Corão ele e sua mãe são louvados. 

De Papai Noel fala-se há bem menos tempo. Era um frade turco quatrocentos anos depois de Cristo. Fazia o bem. Canonizado como São Nicolau novecentos anos depois de Cristo.

Digam-me, eu não sei, dia ano e mês exatos em que Papai Noel foi alçado a promotor de vendas de sucesso global pelo sistema capitalista. Cada país dá um nome a ele. Em nome da deusa economia, todos se curvam diante desse inventado deus. Por enquanto é assim. Quem quer realidade melhor aguarde novas profecias.

Um empurrãozinho a mais na ciência da riqueza foi apostar numa fantasia colorida de trenós e renas cruzando os céus. Jogada de mestre. Faz 80 anos. De autoria dos publicitários estadunidenses. É o delírio das crianças e de muito adulto por aí. Faz o consumidor salivar e correr para as compras. E como Tio Sam também não é nada fraco em negócios, deu até nome para cada uma das nove renas. Perfeito.

A quem não é ligado a religião organizada nenhuma, como muitos, e mantém um pesinho atrás da religiosidade, melhor dizer solenidades monásticas, é confortador  considerar Jesus como o maior psicoterapeuta que já surgiu neste planeta. Detida análise comprova: os dois, o texto de Jesus e o da psicologia convergem no comportamento. Proceder bem é bom, agir mal é mau, rezam ambos. Quanto aos maus, a natureza deles se vinga, dizia-me o padre Antonio do Colégio D. Bosco na minha paulistana infância querida, na Mooca. Bem feito.

A variante, aqui, mesmo no entender dos terráqueos não religiosos, é o universalmente proclamado e desmedido amor pela humanidade ofertado pelo judeu de Nazaré, perfeito psicoterapeuta, tudo o que é perfeito é divino, e como em amor ele não é nada nada fraco, desvenda todos os enigmas existenciais da espécie humana. Eia, vamos, tentemos emparelhar a semelhança entre sua linguagem religiosa e a da psicologia.  

Detalhe religioso: mesmo aqueles todos não ligados a religião organizada nenhuma, são testemunhas de que a religiosidade não sucumbiu ao socialismo, a teoria da evolução não a asfixiou, a era digital não a silenciou. Palavras do psicanalista Augusto Cury.

A determinante é que Jesus anunciou uma nova era, um novo relacionamento, um inédito notável comportamento, com base na afeição profunda, fortalecedora forma de ver e reagir à vida. Do mesmo Augusto Cury em seu livro “O homem mais inteligente do mundo”. 

Quanto a mim, a vós também correndo vou, braços amigos, desde que sem qualquer artifício dogmático. 

Sim, sim, o mundo seria um paraíso se existisse uma gotinha de bem querer um pelo outro, como quer Jesus. Sem cerimônias, por favor.  Tal modo de vida é a síntese da mensagem comportamental do homem mais inteligente do mundo: querer bem. O contrário de falar a língua dos anjos e nem sequer cumprimentar o porteiro do prédio. 

Trocado em miúdos, passou da hora de os integrantes da espécie humana frequentar uma escolinha risonha e franca para aprender as primeiras letras do respeito ao próximo. Tão fácil. 

De resto, quão celestial é a festa de se comemorar a mensagem de bem querer, no Natal de Jesus, com permuta de carinho, abraços, docinhos e salgadinhos e tudo,  em meio  ao repicar dos sinos, do coral dos anjos, do tilintar das caixinhas de música. Que festa bonita!

De resto, quão terreno é o festim de se comemorar o Natal de Papai Noel, o simpático velhinho gorducho dinheirento garbosamente coberto de vermelho, tamanha ruidosa solenidade de distribuição de bens materiais e de geração de empregos. Que divertimento proveitoso!

Sempre em mente: não só de pão vive o homem e todos sabemos quem disse isso. 

Não existe nenhuma foto de Jesus. Nem pintura ou escultura dele. Artistas tiram do nada a inspiração para criar obras de arte representando de diferentes feições o chamado Messias. Multidões comemoram o seu Natal  sem  saber como ele realmente era. 

No entanto, existe um documento histórico precioso, até que bem conhecido, escrito por uma autoridade romana que conheceu Jesus pessoalmente e faz sua descrição física e moral. É uma carta, escrita ao imperador Tibério Cesar pelo então governador da Galileia Publio Lentulus, encontrada no arquivo de um mencionado Duque de Cesadini em Roma e hoje entesourada no Vaticano.

 A narrativa nos privilegia ficar frente a frente, neste exato momento, com o homem mais inteligente e mais amoroso de todos os tempos, contemplar seus olhos claros iluminados – Jesus tinha olhos claros! -  admirar seu semblante majestático, seu porte modesto, conhecer a cor de terra reluzente dos seus cabelos, divididos ao meio, caídos até as espáduas. E confirmar seus milagres.

A carta encerra prodigiosa mensagem de Natal para religiosos e não religiosos:

Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo em nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado de Profeta da Verdade e pelos seus discípulos de Filho de Deus.

Em verdade, ó César, a cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus. Ressuscita os mortos, cura os enfermos. É um homem de justa estatura e é muito belo no seu aspecto, e há tanta majestade em seu rosto, que aqueles que o veem são forçados a amá-lo ou a temê-lo. Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, são distendidos até as orelhas; e das orelhas até as espáduas; são da cor da terra, porém reluzentes.          

Tem o meio da sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso pelos nazarenos. Seu rosto é cheio, de aspecto muito sereno; nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face; o nariz e a boca são irrepreensíveis. A barba é espessa, semelhante aos cabelos, não muito longa; seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, resplandecendo no seu rosto como os raios do Sol, porém ninguém pode olhar fixo seu semblante, pois se resplende, subjuga; e quando ameniza, comove até às lágrimas. Faz-se amar e é alegre, porém com gravidade. Diz-se que nunca alguém o viu rir, mas, antes, chorar.

Tem os braços e as mãos muito belos. Na palestra contenta muito, mas quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo jamais visto por estas partes uma mulher tão bela.

Porém, se a Majestade Tua, ó César, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível. 

Dizem que um tal homem nunca fora visto por estas partes. Em verdade, segundo dizem os hebreus, não se ouviram jamais tais conselhos de tão grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei da Tua Majestade.  

Diz-se que Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele Têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém à Tua obediência estou prontíssimo, aquilo que Tua Majestade ordenar, será cumprido.

Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo, 
       Publio Lentulus, Presidente da Judéia.

 
Tinha trem de madeira puxado pela Maria Fumaça. Era tudo mato. Uma casinha aqui outra ali, alguns índios, tanto tempo faz. Árvores para seis homens abraçar, tanto cheiro de capim.

Lá vivia minha vovó do mato, mãe da minha mãe, assim chamada porque no mato morava.
  
Era na antiga e fabulosa Vila Ré, assim chamada porque foi o italiano Giacomo Ré que a instituiu, no final do século dezenove, inicialmente 90 hectares de matas entre a antiga Estrada de Ferro Central do Brasil e o córrego Tanquinho.

A mãe do meu pai, era a vovó do Bixiga, assim chamada porque no Bixiga morava.

O vovô do Bixiga era dono de fábrica de chapéus quando chapéus eram usados por todos os homens e todas as mulheres. Haja chapéu, daí o seu sucesso.

O vovô do mato era carregador de malas na estação do Brás. Fortão, bonitão, cabeleira escura gigante, voz de trovão, pobretão, desejado por um punhado de mulheres que por lá mourejavam. Já vi moço ali, moça acolá, com seu sobrenome. Não quer dizer nada. Mas como são parecidos com ele!

O vovô do Bixiga, e também a vovó do mesmo apelido nasceram no norte da Itália. O ricaço falava até árabe.

O vovô do mato e a vovó do mato, um da aldeia Valelungo, na Sicília, outro de Nápoles, nem italiano falavam, muito menos durante a segunda guerra, tempo em que não se podia falar italiano, alemão e japonês. Ainda cheguei a falar um pouco de italiano quando criança mas ninguém mais falou italiano comigo e eu já esqueci.

Então.

A chácara do vovô do mato e da vovó do mato era grande, recheada de árvores, caqui, pêssego, pera, goiaba, uva e um cachorrão bobão que a gente pedia para tomar cuidado para não pisar nele. Galinhas e porquinhos se atropelavam nos pés da nossa gente.

A morada do vovô e da vovó do Bixiga era um casarão de janelas enormes. Um palácio. Os vidros coloridos pintavam de verde, azul, vermelho, amarelo, os pratos de risoto nos almoços de domingo.

O vovô e a vovó do Bixiga tiveram 24 filhos.
O vovô e a vovó do mato tiveram 17.
O vovô e a vovó do Bixiga eram católicos.
A vovó do Mato era evangélica.

O vovô do mato reclamou uma vez na saída de uma sessão espírita: sempre comigo se pega esse pai Benedito. Que tipo de bronca será que o pai Benedito dava nele?

A eletricidade não havia chegado na chácara. Eu pequenininho, a vovó do mato gordinha linda linda me pegava pela mão para sentar ao lado dela. Na mesa rústica, um lampião, um velho despertador barulhento e a Bíblia, espaço suficiente para o desfile dos exércitos de Deus e fogueiras e raios e espadas sobre os pecadores.

O vovô do mato chegou uma noite na chácara com uma de suas amantes e ordenou: sirva comida a ela. Hoje ela vai dormir aqui. A vovó do mato pegou a moça toda enfeitada pela mão e a fez sentar à mesma mesa com o velho despertador barulhento, o lampião e a Bíblia.  

Abriu a Bíblia, falou do amor de Jesus pela humanidade, da mulher que ele não condenou, da sua recomendação de parar com aquela vida. Suas palavras despejavam amor.

Na mesma Bíblia, lembrei agora, tem uma passagem interessante com conselhos para o homem e para a mulher acerca de uniões conjugais neste vale de lágrimas.

Para o homem: alegra-te com a mulher da tua mocidade, corsa de amores, gazela graciosa. Por que razão te envolverias com outras? O vovô do mato viveu essas duas situações. A fase do usufruto da gazela graciosa corsa de amores da vovó do mato rendeu os 17 filhos mencionados acima.

Para a mulher: seja submissa ao teu marido.
 
Diz minha parentada que aquela mulher enfeitada se converteu e passou a frequentar a igreja que a própria vovó do mato havia fundado. A valer a verdade, ela deve ter dado o fora no vovô do mato.

Fico pensando. A minha santa vovó do mato era de outro planeta, embora fosse mulher, mulher, mulher, mulher, meu Deus do céu! O que outra mulher teria feito no lugar dela? O que todas as outras mulheres fariam no lugar dela? Derramariam lágrimas amargas, certamente, e devorariam canções, talvez, que falam de amores traídos, não correspondidos, donzelas e cavalheiros separados sei lá eu por que cargas d’água. Desculpem, sei sim. É a danada da poligamia, invenção da natureza, sai pra lá monogamia, invenção humana.

Não me foi dado a conhecer com qual das duas o vovô do mato dormiu naquela noite, na cama iluminada a lampião.
 

SABEM QUAIS SÃO AS CRÔNICAS MAIS BELAS? AS CANÇÕES!

Crônica, o que é? É jogar conversa fora. 

Ah, esses homens e mulheres tocados pelo gênio e seu maravilhoso jogar conversa fora, punhados delas,  embebidas de arte, emoção, paixão. A revirar o fundo das nossas almas. 

Gentes agraciadas pela pindade, esses cronistas! Trilham por todos os mais escondidos caminhos do planeta azul. Pena não chegarem até nós todas as suas delirantes mensagens. Elas se perderão nas noites do tempo.

Na  macia alcova de seus sentimentos, esses seres especiais celebram casamentos. Contraem núpcias um punhado de  palavras de mãos dadas com  ricas melodias e seus intérpretes.  E assim nascem as mais belas crônicas, as canções, puras rezas dos corações cheios de ais. 

O cronista põe a letra.

O compositor empresta a música.

O cantor passa o recado.

Mistura explosiva, essa.

Esqueça-se a aborrecida história da crônica, quando em seu berço era aquela montanha de letras em rede, cansativamente apinhadas no papel jornal, um martelar enfastiante de pseudo saber político.

Então, canções. São elas:

Um: conversas fiadas em torno da mesmice chorosa de amores perdidos. Dois: pranto repetitivo  da paixão que não deu certo, por isso mesmo paixão eterna, viva para sempre. Três: corações a chorar.

Atenção: um bando de linhas, mais música, mais  intérprete e dá-lhe gemidos de amor.  É a conjugação do verbo doer, do inflamante verbo querer. Eu, tu ele, nós vós, eles, queremos, gememos. 

A crônica musical é o hino do fechar do peito pelos golpes da traição, o bambolear das pernas com a separação, a aflição do abandono, as lágrimas do ir embora, a pancada na alma do não te quero mais. Ela já não gosta mais de mim. A aflição dos rejeitados. 

A seguir, alguns escassos exemplos de  incendiadas conversas fiadas.

[Antes de seguir, miserável homem sou eu, a cometer  injustiça aos cronistas musicais e seus intérpretes habitantes de todos as esquinas deste nosso, por enquanto, ainda planeta azul, por não poder alinhar todas as suas preciosas conversas jogadas fora,  tantas, tantas, recheadas de amor, graça, paixão, gemidos, gritos por justiça, anseios por um mundo melhor.]

Seguindo.
— gemidos de amor, a começar pelo homem dono de mais de mil mulheres sem aquela que ele tem no coração. Esse homem não é ninguém. Ele está na crônica-samba de Ataufo Alves: mulher a gente encontra em toda a parte, mas não encontra a mulher que a gente tem no coração. 

— o choro do tudo perdido: ela já não gosta mais de mim, mas eu gosto dela mesmo assim. Que pena, Jorge Ben Jor, cronista, músico, intérprete. 

— perdido na vida: buscando um novo rumo que faça sentido nesse mundo louco. Charles Brown Jr. 

— o estigma do querer: não sei porque insisto tanto em te querer se você sempre faz de mim o que quer. Fagner 

— o sufoco da ausência: não vejo mais você faz tanto tempo, que vontade que eu sinto de olhar em seus olhos, ganhar seus abraços. Caetano Veloso.

— amarga é a aproximação do adeus: me dê motivo para ir embora, estou vendo a hora de te perder. Tim Maia. 

— e a malvada faca do ciúme, a furar a nossa alma: me sentindo enamorado e saber que outro ao teu lado pronto pronto te falará de amor. Carlos Gardel.

— não há ponto final numa história de amor: tudo entre nós terminou, a vida não continuou para nós dois, caminhemos, talvez nos vejamos depois. Francisco Alves.

— o jovem sonhador com sua pequenina crônica Imagine, pequenina no tamanho, a imaginar grandiosamente um novo mundo: eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo será um só. John Lennon.

Continha de somar: palavras, mais música mais intérprete, igual a três professores a registrar a História. Se não vejamos: 

— ah, aquelas pranteadas conversas fiadas ecológicas, benditas defensoras do planeta, temerosas por sua destruição: Será que no futuro haverá flores? Será que os peixes vão estar no mar? Será que os arco-íris terão cores? E os passarinhos vão poder voar? Toquinho.

— ah, aquelas rezas encharcadas de ais contra a tirania: Morte, vela, sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se foi. Revejo nessa hora tudo que aprendi, memória não morrerá. Longe, longe, ouço essa voz que o tempo não vai levar. Fernando Brant. 

— letras, músicas e intérpretes de autoria de combatentes da liberdade e da justiça, a alimentar revoluções: Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que já não é mais primavera. Oh baby, oh baby, a gente ainda nem começou. Raul Seixas.

— o recado falado e cantado a tirar o sossego dos usurpadores da vida: Seu moço, tenha cuidado com sua exploração, se não lhe dou de presente a sua cova no chão. Gilberto Gil. 

— o poder de cantar abate o poder das ditadura: Tanta vida pra viver, tanta vida a se acabar. Com tanto pra se fazer, com tanto pra se salvar. Você que não me entendeu, não perde por esperar. Geraldo Vandré.

Tal é a espada afiada da crônica musical.

Ah,  pudéssemos ouvir, cantar, rezar todas as canções nascidas nos mais ocultos cantos e  recantos da nossa morada terrestre, brotadas em mil e um corações dedicados a falar o idioma da emoção. 

LINDEZA DE ÁRVORE!

É, sim, a maior e mais bela árvore de Natal de todos os tempos. Podem conferir.

Ato de adoração é sondar seus enfeites, bolas gigantescas, pintadas de mais e mais cores, suspensas nessa imensidão para lá do alcance dos olhos humanos. Espetáculo etéreo o ritmo arredondado de seus bailados, obedientes a mágicos impulsos.

Ora, sucedeu à matéria primitiva nascida do Verbo se incendiar, girar, girar e lançar blocos incandescentes, resfriados a seu tempo. E assim se fêz nascer os globos com os nomes de Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Urano, Netuno, Saturno, Plutão. Vigiados, todos, pelo fogo principal, o Sol.

Dessas esferas se desprenderam outras, seus satélites e luas, premeditadamente equilibrados na amplidão. Ora, sucedeu a alguns não terem dado origem a nenhum globo secundário. Prende a respiração assisti-los sustentados no vazio, solitários no silêncio cósmico, pincelados de crepúsculos e noites esplendorosas.

Noites esplendorosas interceptadas por astros errantes, os cometas, viajantes do Universo, apressados em explorar domínios celestes sem fronteiras, escuridões eternas salpicadas de estrelas. Ligeiros, lá vão eles com suas cabeleiras esfogueadas, a profanar o santuário das obras criadas. Festeiros, a enveredar por estradas empoeiradas de ouro, a aturdir nossa imaginação.   

O globo Sol, seus elegantes planetas e luas, também debaixo de outros distantes sóis mais refulgentes. Quantos deles a desfilar na passarela do infinito? A vaguear, iluminar, fecundar. Aconchegados também eles por outros desmesurados frutos iluminados do jardim dos astros, adornados como noivas no altar por seus cortejos de súditos fulgurantes.

 Flores vivas das campinas celestes, esse estonteante lençol esbranquiçado sobre nossas cabeças. Por sua aparência leitosa os antigos chamaram de Via Láctea.

Via Láctea, regato de leite da mitologia, vasto campo de inconcebíveis maravilhas do céu. Olhos humanos alcançam suas irradiações magníficas na abóboda da noite. Sabe os sóis luminosos da Via Láctea acima dos nossos planetas e luas? Do mesmo modo, eles, faiscantes, ladeados por outros sóis e súditos. Espicaçam a imaginação a crer em iguais milagres a se repetirem pela vastidão sem fim. Outros sóis abraçando outros, e outros sóis acariciando outros, em comunhão respeitosa com seus súditos e súditos reluzentes.

E essa bola, aqui, a deslizar na fileira de planetas ao redor do Sol, estão vendo? A Terra! Também ela um festival de cores e luzes com seus magníficos crepúsculos e noites resplandecentes, berço de criaturas abrigadas nas asas da Providência. Deste nosso formoso planeta azul se desprendeu a Lua. Devedora de calor, fria, é para sempre sentenciada a adoçar com seus olhos de prata mansamente azulados os corações dos enamorados, tornando-os infantis e sentimentais.

Perceba o ponto brilhante encimando a árvore. É o farol luminoso há dois mil anos a iluminar nossos caminhos e guiar nossos passos. É o clarão daquele Pixotinho judeu agora aniversariante. Afeição entre as criaturas é o seu eterno sermão. Deseja nos ver crianças.

Crianças; mais luz, mais esperança, até nas lágrimas. O adulto-criança, esse é exortado a ser manso como as pombas. Por seu direito de viver, prudente como as serpentes.

Sendo esse clarão o Educador maior a lecionar por estas paragens, seu ofício é ensinar bons modos à humanidade. Seu Reino de Deus não é um lugar. É um estado de alma voltado para o bem.

Sendo esse farol luminoso o Linguista do Cosmo, lançou os fundamentos do idioma do bem-querer, para ser falado em todos os lares, tribunas, púlpitos, todos os globos e seus súditos, todas as poeiras de ouro e riachos de leite, todos os luzeiros do firmamento pendentes dessa mais fascinante árvore de todos os tempos. É bom.

GALO

Você cantou 22 vezes hoje: de madrugada até o raiar do dia, e ainda não vai parar. Pensava que os galos cantassem uma vez à meia noite, avisando que passou dá hora de todo mundo ir para a cama, e outra de manhã, avisando que é hora de pular da cama. Mas não é assim, não. Você não para.

Não, não vou te pôr na panela. Na minha casa os animais morrem de velhice. Você é um galo grandão, todo branco, imponente, machão, nervoso. Vive batendo na tua mulher. Tem gravata, tem bravata.

Canta de madrugada, na hora do almoço, à tarde, à noite, cinco para as onze, onze e dez, onze e vinte e cinco, dez para a meia noite, meia noite e dez, no auge da madrugada, de manhã, e começa tudo de novo à meia noite.

Mas sim senhor. O outro pintinho, vindo do mesmo berçário, a feira, é hoje uma galinha. Mas ela é humilde. Você vive batendo nela. Não vê que ela é tua mulher, mãe dos teus filhos? É porque você só tem uma, é? Você é daqueles que montam um lar e não entram nele?

Ouça, galo, as bênçãos que minha mãe e meu pai derramaram sobre mim, dia após dia, ano após ano – Deus te abençoe, meu filho, e guarda teus passos – curaram meus desvarios. Você pode não ter tido essa sorte, mas mal não está porque você canta, e elas adoram um artista, um vagabundo até, e não um pobre trabalhador braçal. Que misterioso senso estético e moral envolve a atração sexual!

Mas eu não aguento mais tuas agressões. Você não sabe que a mulher é a fonte da vida, do amor, da suavidade? Eu prefiro treinar para ser solidário, leal, amigo, peito aberto. Mas como eu gostaria, valente cantor, de ter a clarividência para poder me desviar dos golpes tristes pelas costas. Desculpa, mas de madrugada, amores perdidos nos fazem delirar.
   
Você não é feliz com tua galinha? Nada mais desgraçado do que os casais que, obrigados por quaisquer circunstâncias a permanecerem juntos, não tomam a iniciativa de se harmonizarem para tornar a vida agradável.

Criatura, você me acordou, e eu vou ter de ficar rolando na cama sem sono. Agora, aguenta e escuta. Tem dó da tua mulher. Ela é uma escrava, de uma escravidão profunda, total, para sempre, ela é escrava de um marido.

Procura a harmonia com ela e vê se me deixa dormir. Você não tem objetivo na vida? Na minha opinião, o maior objetivo é procurar a harmonia com os outros, para todos viverem sem dor e sofrimento e poder dormir, em todos os galinheiros do mundo.

Autor(a): Apóllo Natali

 

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