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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

APÓLLO NATALI
publicado em: 08/12/2016 por: Lou Micaldas

 

→SABEM QUAIS SÃO AS CRÔNICAS MAIS BELAS? AS CANÇÕES!

→LINDEZA DE ÁRVORE!

→GALO

 

SABEM QUAIS SÃO AS CRÔNICAS MAIS BELAS? AS CANÇÕES!

Crônica, o que é? É jogar conversa fora. 

Ah, esses homens e mulheres tocados pelo gênio e seu maravilhoso jogar conversa fora, punhados delas,  embebidas de arte, emoção, paixão. A revirar o fundo das nossas almas. 

Gentes agraciadas pela pindade, esses cronistas! Trilham por todos os mais escondidos caminhos do planeta azul. Pena não chegarem até nós todas as suas delirantes mensagens. Elas se perderão nas noites do tempo.

Na  macia alcova de seus sentimentos, esses seres especiais celebram casamentos. Contraem núpcias um punhado de  palavras de mãos dadas com  ricas melodias e seus intérpretes.  E assim nascem as mais belas crônicas, as canções, puras rezas dos corações cheios de ais. 

O cronista põe a letra.

O compositor empresta a música.

O cantor passa o recado.

Mistura explosiva, essa.

Esqueça-se a aborrecida história da crônica, quando em seu berço era aquela montanha de letras em rede, cansativamente apinhadas no papel jornal, um martelar enfastiante de pseudo saber político.

Então, canções. São elas:

Um: conversas fiadas em torno da mesmice chorosa de amores perdidos. Dois: pranto repetitivo  da paixão que não deu certo, por isso mesmo paixão eterna, viva para sempre. Três: corações a chorar.

Atenção: um bando de linhas, mais música, mais  intérprete e dá-lhe gemidos de amor.  É a conjugação do verbo doer, do inflamante verbo querer. Eu, tu ele, nós vós, eles, queremos, gememos. 

A crônica musical é o hino do fechar do peito pelos golpes da traição, o bambolear das pernas com a separação, a aflição do abandono, as lágrimas do ir embora, a pancada na alma do não te quero mais. Ela já não gosta mais de mim. A aflição dos rejeitados. 

A seguir, alguns escassos exemplos de  incendiadas conversas fiadas.

[Antes de seguir, miserável homem sou eu, a cometer  injustiça aos cronistas musicais e seus intérpretes habitantes de todos as esquinas deste nosso, por enquanto, ainda planeta azul, por não poder alinhar todas as suas preciosas conversas jogadas fora,  tantas, tantas, recheadas de amor, graça, paixão, gemidos, gritos por justiça, anseios por um mundo melhor.]

Seguindo.
— gemidos de amor, a começar pelo homem dono de mais de mil mulheres sem aquela que ele tem no coração. Esse homem não é ninguém. Ele está na crônica-samba de Ataufo Alves: mulher a gente encontra em toda a parte, mas não encontra a mulher que a gente tem no coração. 

— o choro do tudo perdido: ela já não gosta mais de mim, mas eu gosto dela mesmo assim. Que pena, Jorge Ben Jor, cronista, músico, intérprete. 

— perdido na vida: buscando um novo rumo que faça sentido nesse mundo louco. Charles Brown Jr. 

— o estigma do querer: não sei porque insisto tanto em te querer se você sempre faz de mim o que quer. Fagner 

— o sufoco da ausência: não vejo mais você faz tanto tempo, que vontade que eu sinto de olhar em seus olhos, ganhar seus abraços. Caetano Veloso.

— amarga é a aproximação do adeus: me dê motivo para ir embora, estou vendo a hora de te perder. Tim Maia. 

— e a malvada faca do ciúme, a furar a nossa alma: me sentindo enamorado e saber que outro ao teu lado pronto pronto te falará de amor. Carlos Gardel.

— não há ponto final numa história de amor: tudo entre nós terminou, a vida não continuou para nós dois, caminhemos, talvez nos vejamos depois. Francisco Alves.

— o jovem sonhador com sua pequenina crônica Imagine, pequenina no tamanho, a imaginar grandiosamente um novo mundo: eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo será um só. John Lennon.

Continha de somar: palavras, mais música mais intérprete, igual a três professores a registrar a História. Se não vejamos: 

— ah, aquelas pranteadas conversas fiadas ecológicas, benditas defensoras do planeta, temerosas por sua destruição: Será que no futuro haverá flores? Será que os peixes vão estar no mar? Será que os arco-íris terão cores? E os passarinhos vão poder voar? Toquinho.

— ah, aquelas rezas encharcadas de ais contra a tirania: Morte, vela, sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se foi. Revejo nessa hora tudo que aprendi, memória não morrerá. Longe, longe, ouço essa voz que o tempo não vai levar. Fernando Brant. 

— letras, músicas e intérpretes de autoria de combatentes da liberdade e da justiça, a alimentar revoluções: Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que já não é mais primavera. Oh baby, oh baby, a gente ainda nem começou. Raul Seixas.

— o recado falado e cantado a tirar o sossego dos usurpadores da vida: Seu moço, tenha cuidado com sua exploração, se não lhe dou de presente a sua cova no chão. Gilberto Gil. 

— o poder de cantar abate o poder das ditadura: Tanta vida pra viver, tanta vida a se acabar. Com tanto pra se fazer, com tanto pra se salvar. Você que não me entendeu, não perde por esperar. Geraldo Vandré.

Tal é a espada afiada da crônica musical.

Ah,  pudéssemos ouvir, cantar, rezar todas as canções nascidas nos mais ocultos cantos e  recantos da nossa morada terrestre, brotadas em mil e um corações dedicados a falar o idioma da emoção. 

LINDEZA DE ÁRVORE!

É, sim, a maior e mais bela árvore de Natal de todos os tempos. Podem conferir.

Ato de adoração é sondar seus enfeites, bolas gigantescas, pintadas de mais e mais cores, suspensas nessa imensidão para lá do alcance dos olhos humanos. Espetáculo etéreo o ritmo arredondado de seus bailados, obedientes a mágicos impulsos.

Ora, sucedeu à matéria primitiva nascida do Verbo se incendiar, girar, girar e lançar blocos incandescentes, resfriados a seu tempo. E assim se fêz nascer os globos com os nomes de Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Urano, Netuno, Saturno, Plutão. Vigiados, todos, pelo fogo principal, o Sol.

Dessas esferas se desprenderam outras, seus satélites e luas, premeditadamente equilibrados na amplidão. Ora, sucedeu a alguns não terem dado origem a nenhum globo secundário. Prende a respiração assisti-los sustentados no vazio, solitários no silêncio cósmico, pincelados de crepúsculos e noites esplendorosas.

Noites esplendorosas interceptadas por astros errantes, os cometas, viajantes do Universo, apressados em explorar domínios celestes sem fronteiras, escuridões eternas salpicadas de estrelas. Ligeiros, lá vão eles com suas cabeleiras esfogueadas, a profanar o santuário das obras criadas. Festeiros, a enveredar por estradas empoeiradas de ouro, a aturdir nossa imaginação.   

O globo Sol, seus elegantes planetas e luas, também debaixo de outros distantes sóis mais refulgentes. Quantos deles a desfilar na passarela do infinito? A vaguear, iluminar, fecundar. Aconchegados também eles por outros desmesurados frutos iluminados do jardim dos astros, adornados como noivas no altar por seus cortejos de súditos fulgurantes.

 Flores vivas das campinas celestes, esse estonteante lençol esbranquiçado sobre nossas cabeças. Por sua aparência leitosa os antigos chamaram de Via Láctea.

Via Láctea, regato de leite da mitologia, vasto campo de inconcebíveis maravilhas do céu. Olhos humanos alcançam suas irradiações magníficas na abóboda da noite. Sabe os sóis luminosos da Via Láctea acima dos nossos planetas e luas? Do mesmo modo, eles, faiscantes, ladeados por outros sóis e súditos. Espicaçam a imaginação a crer em iguais milagres a se repetirem pela vastidão sem fim. Outros sóis abraçando outros, e outros sóis acariciando outros, em comunhão respeitosa com seus súditos e súditos reluzentes.

E essa bola, aqui, a deslizar na fileira de planetas ao redor do Sol, estão vendo? A Terra! Também ela um festival de cores e luzes com seus magníficos crepúsculos e noites resplandecentes, berço de criaturas abrigadas nas asas da Providência. Deste nosso formoso planeta azul se desprendeu a Lua. Devedora de calor, fria, é para sempre sentenciada a adoçar com seus olhos de prata mansamente azulados os corações dos enamorados, tornando-os infantis e sentimentais.

Perceba o ponto brilhante encimando a árvore. É o farol luminoso há dois mil anos a iluminar nossos caminhos e guiar nossos passos. É o clarão daquele Pixotinho judeu agora aniversariante. Afeição entre as criaturas é o seu eterno sermão. Deseja nos ver crianças.

Crianças; mais luz, mais esperança, até nas lágrimas. O adulto-criança, esse é exortado a ser manso como as pombas. Por seu direito de viver, prudente como as serpentes.

Sendo esse clarão o Educador maior a lecionar por estas paragens, seu ofício é ensinar bons modos à humanidade. Seu Reino de Deus não é um lugar. É um estado de alma voltado para o bem.

Sendo esse farol luminoso o Linguista do Cosmo, lançou os fundamentos do idioma do bem-querer, para ser falado em todos os lares, tribunas, púlpitos, todos os globos e seus súditos, todas as poeiras de ouro e riachos de leite, todos os luzeiros do firmamento pendentes dessa mais fascinante árvore de todos os tempos. É bom.

GALO

Você cantou 22 vezes hoje: de madrugada até o raiar do dia, e ainda não vai parar. Pensava que os galos cantassem uma vez à meia noite, avisando que passou dá hora de todo mundo ir para a cama, e outra de manhã, avisando que é hora de pular da cama. Mas não é assim, não. Você não para.

Não, não vou te pôr na panela. Na minha casa os animais morrem de velhice. Você é um galo grandão, todo branco, imponente, machão, nervoso. Vive batendo na tua mulher. Tem gravata, tem bravata.

Canta de madrugada, na hora do almoço, à tarde, à noite, cinco para as onze, onze e dez, onze e vinte e cinco, dez para a meia noite, meia noite e dez, no auge da madrugada, de manhã, e começa tudo de novo à meia noite.

Mas sim senhor. O outro pintinho, vindo do mesmo berçário, a feira, é hoje uma galinha. Mas ela é humilde. Você vive batendo nela. Não vê que ela é tua mulher, mãe dos teus filhos? É porque você só tem uma, é? Você é daqueles que montam um lar e não entram nele?

Ouça, galo, as bênçãos que minha mãe e meu pai derramaram sobre mim, dia após dia, ano após ano – Deus te abençoe, meu filho, e guarda teus passos – curaram meus desvarios. Você pode não ter tido essa sorte, mas mal não está porque você canta, e elas adoram um artista, um vagabundo até, e não um pobre trabalhador braçal. Que misterioso senso estético e moral envolve a atração sexual!

Mas eu não aguento mais tuas agressões. Você não sabe que a mulher é a fonte da vida, do amor, da suavidade? Eu prefiro treinar para ser solidário, leal, amigo, peito aberto. Mas como eu gostaria, valente cantor, de ter a clarividência para poder me desviar dos golpes tristes pelas costas. Desculpa, mas de madrugada, amores perdidos nos fazem delirar.
   
Você não é feliz com tua galinha? Nada mais desgraçado do que os casais que, obrigados por quaisquer circunstâncias a permanecerem juntos, não tomam a iniciativa de se harmonizarem para tornar a vida agradável.

Criatura, você me acordou, e eu vou ter de ficar rolando na cama sem sono. Agora, aguenta e escuta. Tem dó da tua mulher. Ela é uma escrava, de uma escravidão profunda, total, para sempre, ela é escrava de um marido.

Procura a harmonia com ela e vê se me deixa dormir. Você não tem objetivo na vida? Na minha opinião, o maior objetivo é procurar a harmonia com os outros, para todos viverem sem dor e sofrimento e poder dormir, em todos os galinheiros do mundo.

Autor(a): Apóllo Natali

 

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