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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

ARNALDO JABOR
publicado em: 25/10/2016 por: Lou Micaldas

Entre outras coisas o governo nos roubou o assunto. Isso. O único assunto é esse caos instalado pela estupidez e desonestidades. Está tudo dito. Extratos bancários e cheques assinados em bancos suíços não provam mais nada. Artigos, comentários e manifestos já disseram tudo.

Mas que provas pedem os acusados? Cenas do recebimento da grana filmada em cores? Isso já foi feito, lembram das meias e cuecas? Não rolou nada. E onde está a verdade? Simples. Tudo que eles negam é verdade.

É espantoso este cabo de guerra entre suspeitos de crimes e suspeitos de crimes. A alma do negócio não é mais o segredo. É tudo escancarado. Acordos espúrios são feitos inconstitucionalissimamente. A maior palavra da língua portuguesa não chega a nos descrever. Há uma invasão dos poderes para fechar acordos.

"Se você não pedir o impeachment, a gente quebra seu galho no Conselho de Ética". Querem burlar a ética no Conselho de Ética. A situação nao é somente política como se fosse um jogo normal entre partidos. Trata-se de um impasse gravíssimo, um desmanche geral. O Brasil está dominado pelos ladrões.

Quem? Que partido? Que ações vão consertar essa perda total da República? Como diziam as bruxas de Shakespeare: "Vem coisa ruim por aí". Aliás, já veio. Aliás, não adianta comentar mais  nada. Está tudo dito. Aliás, o que estou fazendo aqui? Bye bye, Brasil.
 
O foro informal do colarinho branco empresarial caiu. Agora é hora de cair o outro foro
Passados quatro dias da divulgação da lista de Fachin, nota-se que a verdadeira lista de Fachin não é a lista de Fachin, mas o vídeo de Marcelo Odebrecht (da mesma forma que as bancadas no Congresso e no Senado não eram dos partidos, mas da Odebrecht & cartéis em geral). A lista, mesmo, já sabemos, não produzirá efeitos de xilindró antes de uns 5 anos, se é que vai produzir. A famosa “primeira lista de Janot”, de dois anos atrás, só fez três réus e não condenou ninguém. A atual lista de Fachin é resultado da “segunda lista de Janot”. Logo... a não ser que se faça um mutirão no Supremo e em outros tribunais “avançados”, ficaremos, mesmo, na exposição dos nomes.
 
Julgamentos, condenações, só daqueles que não têm foro privilegiado. A grossa maioria — os senadores e os deputados (incluindo os respectivos presidentes das casas legislativas); os ministros de Temer; os governadores — fica protegida. O próprio Temer tem o seu foro mais que privilegiado: sequer pode ser acusado por malfeitos anteriores à sua gestão presidencial. Para efeitos imediatos, fica, então, quase todo o interesse voltado para o que disse Marcelo sobre o ex-presidente Lula, que, sem foro, está com a corda no pescoço, pode ser preso e virou a moeda de troca mais valiosa no xadrez (com duplo sentido) das eleições de 2018. Se estas acontecerem.

A Lava-Jato conseguiu coisas titânicas. Talvez a mais incrível tenha sido botar em cana empreiteiros, algo jamais pensado há até poucos anos: se não gozavam de foro privilegiado constitucionalmente falando, gozavam de um tipo de foro eterno, anticonstitucionalissimamente falando (um bom motivo para escrever a palavra mais longa da língua), herdado do conluio entre Justiça e poder político econômico, típicos de nossa tradição, da colônia à República: esses eram os verdadeiros intocáveis.

Agora, transformaram-se em combustível primário, secundário e terciário de quase tudo que move a grande força-tarefa que tenta passar a limpo o Brasil. O foro informal e instituído do colarinho branco empresarial caiu. Agora é hora de o outro foro, oficial, aberração brasileira sem igual no mundo (Trump, o homem mais poderoso do planeta, é julgado pela Justiça comum), que faz da maioria dos cento e poucos investigados na Lista de Fachin os intocáveis derradeiros, cair também. O grito que deveríamos estar ouvindo nas ruas, se as ruas estivessem gritando, seria “Fora foro”.

A discussão sobre como o foro privilegiado pode transformar a Lava-Jato em pinga-gotas e as primeiras gestões, ao menos retóricas, para que ele seja extinto foram e estão sendo ventiladas, principalmente em debates e opiniões na imprensa e nas redes, e em reflexões no Judiciário; e muito menos, obviamente, no alto meio político, pois é ele, e não o baixo clero, que protagoniza a farra. Vilões de um filme que mostra a classe política, em todo o espectro partidário, agarrada a grupos empresariais com ávido interesse em obras públicas.

Há fatos de grande impacto se analisados à luz da simbologia. Da mesma forma que o envolvimento do PT na roda da corrupção decepcionou multidões de afiliados, militantes e simpatizantes e rachou a estrela do partido que um dia foi associado à bandeira da ética, o tucanato começa, de repente, a ter sua reivindicação de representar os valores herdados de sua bandeira social-democrata fortemente abalada. As máscaras caem. Projetado esse raciocínio no cenário das eleições de 2018, é uma bomba atômica os dois principais postulantes tucanos ao pleito, Aécio e Alckmin, estarem na lista com riqueza de material e cifras estampadas em detalhes garrafais. O que provoca um extraordinário fato secundário: João Doria, quem diria, emerge como a figura mais “limpa” entre as grandes lideranças do partido, com chance de figurar (já está na fita) como candidato de consenso do PSDB.

Podem-se puxar vários fios: por exemplo, o senhor Jair Bolsonaro, autor de plataformas que assombram o imaginário do eleitor pensante e aterrorizam as minorias e as mulheres, não está na lista de Fachin, mas está na lista de 2018. Considerando a hipótese de tanto Lula quanto o grão-tucanato ficarem de fora da disputa, poderíamos ter, assim, Bolsonaro, o “condutor” (em tradução de uma famosa palavra alemã) opondo-se a Doria, o unificador circunstancial dos tucanos caídos, e a Ciro Gomes, com seu revólver emocional descalibrado. Marina virá, de novo, pelo flanco da renovação de ideias. Quem mais? Temer, o impopular? Justus? Seria justo?
Ou um jurisconsulto?

Ganha um prêmio quem aparecer com uma boa surpresa. Pois este é o pleito no qual se tenta, desesperadamente, depositar esperança de que surja alguém capaz de liderar a carruagem que pretende mudar o sistema, mas aliando a vontade judicial à vontade política. Uma voz que clame, com força moral e com habilidade, no Executivo e em sua relação com o Legislativo, por uma guinada ética (teremos um Congresso interessado nisso?), com ampla reforma político-partidária e, de preferência, em grande diálogo com a sociedade.
 
Se é difícil perguntar ao gado sua opinião sobre o abate, é mandatório consultar o eleitor sobre temas que afetam sua vida
Digamos que um boi desgarrado dum rebanho, ou fugido de um matadouro, se encontrasse num terreno baldio, ou num campinho de vargem abandonado, pastando sobre uns restos de graminha e, inadvertidamente, cruzasse caminho com um repórter especial com poderes especiais, capaz de extrair, de seus mugidos, a opinião do animal não apenas sobre a crise da carne, mas sobre a situação toda do país.

Por mais opinoso que fosse esse boi rebelde, anônimo, clandestino, a carne, do ponto de vista do consumo, não estaria entre suas prioridades: boi não come boi, o que faz dele, por sinal, um ser em sintonia com a política vegana, tão em voga, mas não por ideologia, e sim por sua involuntária natureza.

Fosse ele de fato fugitivo de um matadouro, aí sim, talvez, tivesse algo a dizer sobre como se tratam os seus irmãos e suas irmãs (vacas são abatidas em menor número, mas também levam a lâmina, o choque no ânus, o tiro na cabeça ou o que lá seja, dependendo da tecnologia empregada). O mesmo sobre os filhos, novilhos, vitelas: não há trégua nem para os bebês, mais tenros ao palato do comensal, escolhidos a dedo nas fazendas.

Falaria, ou mugiria, em nome também dos cabritos, das ovelhas, dos bodes vertidos em buchadas, preferidas até por presidentes, e dos frangos confinados dia e noite na luz. Fosse nosso boi vadio um boi versado, talvez tecesse considerações sobre o aspecto econômico dentro da dinâmica da cadeia alimentar humana, levantando fatores socioeconômicos, culturais e evolutivos.

Diria o boi que se, talvez, no futuro, a hoje chamada escravidão animal venha a ser abolida, isso não se fará de uma hora para outra, ou a toque de caixa, como, por exemplo, se tenta fazer agora com assuntos tão importantes quanto a lista fechada ou a terceirização de atividades fins.

Será preciso uma transformação de mentalidades e um ambiente econômico em que um país não corra o risco ainda maior de quebrar se o consumo de suas entranhas, aqui e lá fora, for impactado. Ainda que por uma inspeção da Polícia Federal que em alguns aspectos, se chamarmos de bovina como fazia Nelson Rodrigues, talvez seja ofensiva aos próprios bois, que não têm nada a ver com o modo com que se manipula seu corpo para a comercialização, ou com as vaidades do Poder Judiciário, antes ou após o abate.

Mas o leitor sabe, o cronista sabe (embora, por natureza, tome liberdades metafóricas e hiperbólicas como instaurar uma entrevista de um repórter com um boi), e talvez o próprio boi saiba que bois não falam e que não há um dicionário para mugidos que dê conta de muitas traduções além dos sons que expressam dor, contentamento, contrariedade ou afeto, no trato com os seus pastores ou seus matadores.

O que leva, enfim, o cronista a chegar ao ponto que almeja: se é difícil, na vida real como a conhecemos, perguntar ao gado sua opinião sobre o abate, é mandatório consultar o eleitor (para não dizer “povo” e soar casuístico) sobre temas que afetam sua vida, e o que pensa sobre a maneira como se trata o seu destino no âmbito público, seja para efeitos de arrecadação, seja no que toca às legislações que determinam seu futuro e, consequentemente, o futuro do país. Que é, em última análise, constituído por todos os setores da boiada, dos mais magros aos mais gordos, dos desgraçados aos afortunados.

Nesse sentido, a pressa com que alguns magistrados e políticos querem aprovar a lista fechada sem qualquer tipo de consulta à sociedade (caso muito bem expresso no embate entre um altíssimo juiz e um colega envolvido na questão, que pede para os apressados baixarem a bola) é exemplar: fica a forte impressão de que o interesse em tamanha celeridade tem muito menos a ver com a qualidade dos candidatos e o aperfeiçoamento do sistema e muito mais com a chance de livrar sua turma da fila do abate. Ou, conforme se quiser chamar, a fila do jato d’água e seus consequentes encanamentos.
Nos outros grandes temas da nação parece que tudo caminha na mesma vertente. A discordância entre Câmara e Senado no caso da terceirização de atividades-fim, e da reforma trabalhista como um todo (deixemos de lado a Previdência, cuja gestação é mais, digamos, pluralista e multissetorial) parece estar ora relacionada com os interesses das casas legislativas e do Executivo diante do eleitorado e das empresas (todos interesses legítimos).

Deixa, contudo, mais para a margem do campo social, o que diz quem mais será afetado, negativa ou positivamente: o trabalhador. Este sabe falar e, apesar das metáforas já tão repisadas (muito antes da famosa cena na abertura de “Tempos modernos” já se comparava porta de fábrica com porteira de fazenda), não é boi, é gente. Com todo respeito aos nossos irmãos no espectro multibiológico, ao qual São Francisco de Assis é tão sensível. Ficção?
 
Se já levamos cem anos armando a bomba das favelas, leva tempo para desativá-la
Venho por esta colocar minha colher na sopa de bode preto que o Rio virou. Espero que se interrompam os desastrosos anos de populismo sinistro que nos afligem.
 
O Rio é hoje um labirinto bárbaro de corrupção e ineficiência burocrática; estamos diante de uma cidade quebrada, onde a violência assume aspectos cada vez mais ousados, assimilando táticas de terrorismo, aprendidos na TV, pois perceberam que são invencíveis pelos métodos tradicionais de polícia.
 
A barbárie, a corrupção e a estupidez ganharam contornos tão “originais” no Rio, quase uma cultura separada, que só gestos corajosos, até temerários, podem ajudar. Não há jurisprudência para os crimes atuais. São pavorosamente novos. Temos de conter as consequências, tentando reparar as causas. Não se pode tratar esses horrores com a lentidão dos procedimentos comuns. Novas formas de combate têm de surgir.
 
Agora, sai da Secretaria de Segurança do Rio o mais competente líder contra o crime que tivemos até hoje: José Mariano Beltrame. Fez tudo que era possível na criação das UPPs, mas acabou travado pela resistência do atraso, que não melhorou os morros com medidas de avanço social. Entre outros problemas internos da polícia, Beltrame também foi prejudicado pela displicência de juízes que irresponsavelmente soltam os presos perigosos caçados com dificuldade. Lembram do Elias Maluco, que assassinou com espada o repórter Tim Lopes? Estava em “liberdade condicional”.
 
Acho que temos de entrar nas favelas, não com festinhas odontológicas provisórias, mas para ficar, integrar. Lembram-se da ideia das favelas-bairro? Era uma ideia muito boa e, claro, esquecida. Demora muito? Sim. Mas, se já levamos cem anos armando essa bomba, leva tempo para desativá-la.
 
A única mudança que a política “correta” fez até hoje foi trocar o nome “favela” para “comunidade”. Tirando uns trenzinhos ou elevadores de morro, continua tudo na mesma lama.
 
Enquanto procurarmos uma “solução” para o crime no Rio, não haverá solução. Não haverá solução enquanto não entendermos que todos somos parte do problema. Nós é que temos de nos reformar, subverter nossas cabeças, nossas polícias, nossos poderes. Mas, fazer como? A máquina do estado sozinha não dá conta. Creio que deveria haver uma campanha nacional para atrair investimentos para o Rio. Creio que tinham de ser criados “grupos executivos”, desenhados por homens como o coronel José Vicente da Silva, do Instituto Fernand Braudel, ou Luiz Eduardo Soares, que fizessem um “bypass” eficiente cortando o labirinto burocrático podre, como fez JK.
 
“Solução’’ é um conceito obsessivo e superado; só um processo amplo, multidisciplinar, um processo lento, caro, poderá minorar esta tragédia imunda que nos aflige, caindo de 500 favelas abandonadas e financiadas pela cocaína. O problema é que não há capacidade de regeneração dos tradicionais vícios cariocas. O sistema não está apto a se autocriticar, a se renovar. A complexidade é muito maior do que o simplismo das providências. Quem vai regenerar essa m*rda? O bispo Edir Macedo, através de seu preposto Crivella, o irmãozinho do Garotinho, que escondeu que foi em cana por expulsar com armas uns pobres diabos de um terreno da Igreja Universal, aquele supermercado da fé que cobra dízimo até no cartão? A opinião pública teria de rejeitar isso. Mas, não vai.
 
Isso, porque nós ainda falamos dos criminosos como se fossem “desviantes” de nossa moral, como gente que se “perdeu” da virtude e caiu no “mundo do mal”. Mas, o que surgiu foi uma nova sociedade periférica, feita de fome, rancor e desejo de consumo. E criativa; o funk é o hino dos excluídos.
 
Houve uma sinistra “modernização” na violência da miséria e um envelhecimento do poder público.
 
Não adianta defendermos a “normalidade” de nosso sistema, pois não há normalidade alguma. Estamos no fundo da vergonha; hoje, tem gente que ainda discute se as milícias são “boas” ou “más”, se criminosos do “bem” matando os do “mal” resolvem nosso vazio policial ou se viriam mais vagabundos para o asfalto. As milícias vão votar no bispo. A que ponto chegamos...
 
As causas da violência sempre estiveram aí, como uma bomba de retardo, uma mina enterrada. Só agora ficou visível. Os criminosos estão expondo ao país nossa absurdíssima incompetência.
 
Temos de aprender com os criminosos suas táticas, pois eles têm a mesma vantagem dos terroristas — não têm rosto e ninguém sabe de onde vêm. Eles são microempresas privadas, filiais da multinacional do pó. Eles já têm até mísseis antiaéreos. Eles agilizam métodos de gestão; nós trabalhamos com administração do século XIX. Eles são rápidos e criativos. Eles estão no ataque, nós, na defesa. Nós nos horrorizamos com eles. Eles riem de nós. Eles lutam em terreno próprio; nós, em terra estranha. Eles se reproduzem sem parar, com mais adeptos jovens mergulhados na miséria. Já é até um “bom programa” descer e matar com faca para roubar bicicletas. A droga e as armas vêm de fora — eles são “globais”; nós somos regionais. Eles não temem a morte. Nós morremos de medo.
 
Precisamos de uma urgente autocrítica de nossa ineficiência. A população tem de ser convocada para participar ativamente, por exemplo agora, votando contra o Bispo do Mal.
 
Se não agirmos (como?) ficaremos no velho vício da reclamação ou em inócuos abraços pela paz, de roupa branca em volta da Lagoa. A luta contra o crime não é mais uma luta policial; não é mais a Lei contra o Pecado; tornou-se um problema de Estado-Maior, sim. A situação tem de ser estudada profundamente — trata-se de um problema nacional, de Estado, trata-se de uma calamidade pública ainda não assumida, como um terremoto ignorado.

A BESTA DO APOCALIPSE

É pavoroso saber que quase metade da América votará em Donald Trump

Eu só penso no Trump. Nunca senti tanta repulsa por alguém. Fiquei aliviado quanto vi o comentário de Robert de Niro dizendo que ele é um escroto, um cachorro, um porco e que queria dar uma porrada na cara dele. Mas o que mais me espanta é que um rato desses possa estar concorrendo à presidência da maior nação do mundo. Como isso aconteceu? De certa forma, o Trump sintetiza a história atual. O mundo poderia até acabar, se o rato fosse eleito. Acho que não será, mas é pavoroso saber que quase metade da América votará nele.

Quando aquela outra besta, o Bush, foi reeleita, o jornal inglês “The Guardian“ publicou a manchete: “Como podem 60 milhões de pessoas ser tão estúpidas?”.

Eu já morei nos Estados Unidos, na Flórida, e conheço bem essa estupidez. É diferente da estupidez brasileira, pois não é fruto de analfabetismo ou de cultura zero. Lá, a boçalidade tem mais chão, é mais sólida e forma uma rede ideológica que prospera na classe média do país todo. Lá, a boçalidade tem fundamentos. São monoglotas que nada sabem do mundo exterior. Consideram-se uma nação excepcional que tem de repelir diferenças — o que mais odeiam: os negros, os gays, os latinos, os muçulmanos têm de ser banidos.

E, com o mundo cada vez mais global e intrincado, os estúpidos tendem para o isolacionismo mental, para as certezas totalitárias, com ódio da política e dessa democracia “chata” que iguala as pessoas.

Hoje, a política virou um parafuso espanado que não gira mais a vida social. Ao contrário, vemos que justamente o desprezo às práticas políticas liberais levam ao pódio da demagogia os líderes mais radicais. O irracionalismo surge como uma forma rápida de resolver tensões e crises. Chega de “razão”, chega de “sensatez”.

Os americanos médios são muito caretas; não são retrógrados por causa da ignorância e da miséria, como entre nós. Aqui, não há “direita”, mas sim o atraso feudal dos donos do poder patrimonialista. Lá, eles são reacionários mesmo, uma direita assumida ativa, seguindo a religiosidade fundamentalista, com um Deus rancoroso, proibitivo.

Trump é a súmula de todos esses horrores.

Temos no mundo hoje uma manada de psicopatas dirigindo a História. É espantoso ver um outro porco, o Kim da Coreia, brincando de mísseis atômicos; vemos o Assad arrasando o próprio país; temos Maduro, Duterte (o mais recente carniceiro) e tantos outros. E temos o supremo perigo: o Putin, psicopata da KGB já ameaçando o mundo com seus mísseis.

E, nos Estados Unidos, temos esse fenômeno impressionante do Trump. É repulsivo ver aquele dedinho autoritário levantado, um pênis pequeninho ali na sua mão, seu queixo fascista (por que fascistas usam tanto o queixo duro, de Mussolini a Chávez?) babando sobre mentiras que os idiotas engolem.

Não importa o conteúdo das plataformas; só valem as palavras grandiosas, as promessas impossíveis e um cultivo da paranoia. Creio mesmo que eles gostam do mais escroto e ridículo, como se a grossura fosse uma espécie de coragem. É a rebelião dos imbecis...

Uma das causas disso tudo é o que já chamam de “info-entertainment”, isto é, uma mistura cada vez mais forte entre informações e entretenimento, mistura que impede clareza entre mentira e verdade, ficção e realidade (aliás, o que era mesmo a realidade?), que nos faz espectadores de um grande parque de diversões trágico, a que assistimos até com deliciado horror.

“Ahh... quantos mortos em Alepo hoje? Aumentou? Ihhh... Angelina Jolie tirou os seios, e o Boko Haram raptou 300 meninas, e ohhh... o Estado Islâmico decapitou mais vinte... Mas, oba... foi genial o show da Beyoncé, e o terremoto arrasou o Haiti, olha só: o Trump arrasta mulheres pela xota, e o Putin nos ameaça com força nuclear, a Petrobras foi destruída, mas o novo smartphone faz até boquete...”.

Além disso, as notícias todas juntas na velocidade da luz desenham um caos que nos alimenta de terror. A pior hipótese, o pior cenário, seria um mundo com dois líderes psicóticos: Putin e Trump. Ou seja, como disse a Hillary: “Eu sou a última barreira entre nós e o Apocalipse” — e, incrivelmente, ela está certa.

Acho que ele não será eleito, a menos que haja um fenômeno catastrófico como o de 9/11.

Por outro lado, ouso dizer que Trump foi muito bom para a democracia americana. Por quê? Porque ele é a caricatura extrema do Partido Republicano, inclusive de outros canalhas que pensam como ele mas são mais discretos, como o Ted Cruz ou aquele “gusano” Marco Rubio.

Trump também serviu para alertar que a democracia na América tem de ser aperfeiçoada com instrumentos de controle mínimo que impeçam malucos de tomar o poder. Trump também é um alerta para que vejam que a desinformação política americana é muito maior do que se pensava. Delicio-me vendo as caras, as fuças boçais típicas dos eleitores republicanos. Em seus rostos, há o nada.

Também adoro ver as mulheres deles, todas iguais: cabelos louros de chapinha, sorriso parado na boca, gostosas louras-burras. Toda perua é republicana.

Trump terá a serventia também de desqualificar a maioria republicana no Senado e, também se Deus quiser, Hillary terá o controle da Casa, depois de oito anos de sabotagens pavorosas contra o Obama. E, quando isso tudo acabar, haverá uma enxurrada de análises sobre essa mente doentia. Será um avanço para a psiquiatria.

Isso é uma tendência mundial. Até aqui, não tivemos nosso trumpzinho proletário e sua filhota destruindo o Brasil?

E, agora no Rio, não vão eleger o Crivella, aquele zumbi plastificado do Edir Macedo, trazendo de volta seu irmão Garotinho?

Onde estão as celebridades críticas e artistas empenhados que não fazem um imenso trabalho na mídia para impedir isso? O Rio vai ser destruído. Façam como nos Estados Unidos, como Madonna, de Niro, Meryl Streep, em campanha contra a grande besta. Carioca é muito politizado nos bares — mas, depois, não adianta chorar pelo chopinho derramado.

Autor(a): Arnaldo Jabor
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Mario Bezerra / Wanda Pinho

 

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